A casa do meio

Fábio Ribas
série Dias Índios

“ Não há justo, nem um sequer…” – Rm 3: 10a

Há uma criança enterrada bem no centro da minha aldeia. Mas não tem nada a ver com algum caso de infanticídio indígena. Ela faleceu ano passado e dizem que foi morta por um “bandido”, o que, na linguagem da aldeia, quer dizer feiticeiro. Isso significa também que ela provavelmente foi envenenada, mas pouco eles falam sobre os detalhes. Ela está enterrada bem no meio da aldeia e fizeram um cercadinho com tocos curtos de troncos de árvore. Era uma criança especial na vida do povo: era um caciquezinho (neto de um dos caciques da aldeia). Por isto, eles vão fazer este ano uma festa muito interessante e emblemática entre os povos em que me encontro.

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Casa do meio – foto do autor

Uma festa famosa no mundo inteiro. Já fizeram até filme sobre esta festa-ritual. Assim, penso que escrever aqui o nome dessa festa é falar demais.
A festa é uma homenagem aos mortos, mas somente aos que foram importantes em vida. Sei que vim parar aqui num momento interessantíssimo, tanto espiritual, como antropologicamente. Portanto, meus olhos estão abertos e atentos a tudo o que haverá de singular por aqui neste ano.
Vários povos indígenas da região são convidados para essa festa. Eles trazem os seus lutadores e há um grande campeonato entre eles… Mas, não é sobre a festa que quero falar agora. Quero falar sobre a casa que fica no meio da aldeia, bem em frente ao lugar em que está enterrado o caciquezinho: ela é chamada de “Casa dos Homens”.
Na Casa dos Homens, as mulheres não podem entrar. Ali, esconde-se uma flauta, que só os homens podem tocar e ver. Eu entrei ali numa noite.

Senti a opressão espiritual do lugar, concreta e pesada. As flautas estavam cobertas com panos. Perguntei ao índio o que aconteceria se uma mulher entrasse e olhasse a flauta. Ele demorou muito para falar e, embora eu já soubesse a resposta, insisti: “Alguma mulher aqui na aldeia já viu a flauta?” Ele me disse que sim. “E o que aconteceu com ela?” perguntei. “Os índios fizeram mal pra ela”, ele me disse abaixando a cabeça. “Os índios fazem mal mesmo se a mulher for uma criança?”, continuei para ver como ele reagiria. “Sim”, respondeu-me. “Você já viu?”, perguntei. “Não sei…  Aconteceu tem muito tempo, contam, eu não tinha nascido, acho”, disse-me.
Eu já sabia. Já havia lido sobre isso. É mais um daqueles fatos que muitos antropólogos querem justificar alegando ser “cultural”, todavia, entrar naquela casa, ver a flauta e saber que ali mulheres já poderiam ter sofrido por causa dela, é uma experiência bem diferente. Conta-se que, quando uma mulher, mesmo que seja uma criança, olha a flauta, então ela é punida por todos os homens da aldeia. “A começar pelo mais velho, aquele bem feio”, disse-me meu amigo índio. Assim, as mulheres ficam longe da casa.
Alguns anos antes, na nossa primeira visita à aldeia, em 2007, o cacique havia dado um livro para que eu o lesse. O que me chamou a atenção foi que algumas páginas do livro estavam dobradas e perguntei o porquê. “Elas não podem ver as fotos que o cagaiha (homem branco) tirou da flauta”, explicou-me o cacique. Quem realmente conhece a cultura respeita isso. Anos depois, li um livro sobre os jogos e as brincadeiras do meu povo, publicado por antropólogos de São Paulo, e ali já não constava nenhuma imagem ou foto da flauta, apenas o nome e a explicação do porquê não poderiam mostrar a flauta. Contudo, nada na explicação fazia referência à punição das mulheres. Esta é a casa do meio. Esta é Casa dos Homens.

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