A Igreja missionária avança em meio à perseguição – At 8.1-8

Carlos del Pino
série Caminho missionário da igreja

O capítulo começa fazendo referência direta ao ambiente de perseguição que se estabeleceu contra a igreja devido ao julgamento e morte de Estevão, registrados no capítulo anterior (7.59-60). A forma como o texto descreve essa perseguição nos versos 1-3 nos mostra, com clareza de detalhes, a intensidade com que ela se abateu contra a igreja.

O primeiro verso começa afirmando que Saulo presenciou o apedrejamento de Estevão e consentia em sua morte, possivelmente sem sentir o menor remorso; antes, sentindo e crendo estar cumprindo com sua missão religiosa. Em seguida, o texto diz que “desencadeou-se uma grande perseguição contra a igreja em Jerusalém” forçando os irmãos a se dispersarem, fugindo para outras regiões e cidades em busca de refúgio para viverem sua fé e sua vida. O sofrimento continuou para os que permaneceram em Jerusalém e tiveram que sepultar a Estevão, fizeram por ele “um grande lamento”. A morte de Estevão sensibilizou profundamente a igreja em Jerusalém e aqueles irmãos não puderam fazer outra coisa que sepultá-lo e chorá-lo (v.2). Enquanto isso, Saulo já não se satisfazia observando e consentindo com a morte e com o sofrimento dos cristãos, passa a se dedicar pessoalmente a “devastar a igreja”. Sua intenção era exterminar a igreja, pondo um fim àquela heresia que estava convertendo os judeus, inclusive um grande número de sacerdotes (6.7). Ele localizava os cristãos, identificava suas moradias e entrando de casa em casa “arrastava homens e mulheres e os lançava na prisão” (v.3).

A perseguição sofrida pela igreja em Jerusalém naquela ocasião fora realmente muito dura, intensa e, na intenção de Saulo, devastadora. Envolveu a morte injusta de pelo menos uma pessoa e seu dolorido sepultamento; implicou no desterro de dezenas ou centenas de outros irmãos que não tiveram nenhuma outra opção que abandonar suas casas e, possivelmente, até familiares fugindo para salvar suas próprias vidas da morte; resultou na prisão brutal de muitos homens e mulheres, após serem arrancados de suas casas, por professarem sua fé em Jesus Cristo.

A intensidade daquela perseguição pode ser percebida ao observarmos no texto a ocorrência da palavra “grande” por duas vezes nos v.1-3. A primeira vez no v.1: “grande perseguição” e a segunda vez no v.2: “grande lamentação”. Por um lado, a perseguição liderada pelo sinédrio foi grande, cruel e intensa. Por outro lado, o sofrimento na vida dos cristãos também foi grande e profundo. Grande perseguição e grande tristeza e sofrimento. Não há para onde ir nem como nos iludir, diante do quadro que estes versos nos apresentam. A perseguição e o sofrimento foram, de fato, reais e palpáveis.

A atitude devastadora contra a igreja poderia, aparentemente, dar a impressão de que estava obtendo sucesso em sua empreitada. Entretanto, por sua ação graciosa, Deus não permitiu que a igreja fosse exterminada, antes, a levou a avançar pelo mundo proclamando seu evangelho redentor. Em meio à dura e sofrida perseguição, a igreja continuou sua caminhada missionária e evangelizadora entre a humanidade. É exatamente isso que o texto, em sua sequência (v.4-8) nos mostra: a igreja missionária avança em meio à perseguição!

O v.4 começa registrando a reação cristã à oposição sofrida, com as seguintes palavras: “os que haviam sido dispersos pregavam a palavra por onde quer que fossem”. A reação cristã não fora estrategicamente planejada. Aqueles irmãos por um lado não tiveram outra alternativa a não ser a dispersão e, por outro, não permitiram que a dor, a injustiça e a inevitável fuga para salvar a vida se tornassem grandes o suficiente para impedi-los de continuar anunciando o evangelho de Cristo por onde passassem. Não precisaram dividir o mundo em regiões mais carentes, em áreas menos evangelizadas ou em povos mais receptíveis. Fora suficiente pregar a palavra de Deus por onde quer que fossem.

Os cristãos não reagiram como se Deus os houvesse abandonado; antes, creram no Senhor, renovaram sua fé e seu compromisso e mantiveram seu ardor evangelístico e missionário. Reagir evangelizadoramente à qualquer tipo de perseguição e oposição faz parte da essência da nossa própria fé cristã. Nesse sentido, aprendemos com os irmãos de Jerusalém que a igreja não pode se introverter diante das várias formas em que as dificuldades surgem em cada geração. Igualmente, a igreja não pode reagir às oposições lançando mão dos mesmos princípios pecaminosos usados pelos que não crêem em Cristo, pois nossa verdadeira luta não é contra carne e sangue (não é contra a humanidade). Antes devemos nos fortalecer no Senhor e vestir toda a armadura de Deus para resistirmos às tentações e ciladas do diabo, dando ao mundo a oportunidade de receber a mensagem da palavra e do evangelho de Jesus Cristo, mesmo em meio às oposições (Ef 6.10-20).

O exemplo de reação missionária à perseguição, dado pelo próprio texto, foi o de Filipe. Ao longo do capítulo vemos o registro de sua pregação e conseqüente conversão de muitas pessoas em Samaria, onde também houve oposição feita por Simão (vv.9-25), bem como o registro da evangelização, conversão e batismo do etíope (vv.26-40). O exemplo dado no capítulo foi apenas o de Filipe, mas é suficiente para indicar que a intenção do autor do texto, ao tratar do tema da perseguição em Jerusalém, foi a de mostrar que a igreja perseguida não pára sua caminhada missionária entre a humanidade.

Filipe foi para uma cidade samaritana onde se dedicou a anunciar o Cristo salvador (v.5). As pessoas daquele local ouviram a mensagem pregada por Filipe e viram os sinais que foram realizados. Assim, deram “unânime atenção ao que ele dizia” (v.6), o que lhes trouxe libertação e salvação (v.7). O resultado está registrado no v.8 de forma muito interessante: “assim houve grande alegria naquela cidade”. Olhando para este resultado observamos que a mesma palavra “grande” que o autor usou nos v.1-2 (grande perseguição e grande lamentação) é usada aqui para descrever a grande alegria que houve na cidade devido a pregação do evangelho e a conversão das pessoas. Essa comparação é importante por mostrar que, embora a perseguição tenha produzido sofrimento e morte, a graça de Deus foi abundante e grandemente dada àquelas pessoas. A riqueza e a abundância da graça e da alegria indica que Deus estava agindo de forma concreta e redentora naquele contexto de sofrimento e de avanço missionário.

O resultado também foi expresso pela grande alegria e graça que houve na cidade. Não foram conversões descontextualizadas da vida da cidade. Os efeitos da graça e da alegria encontradas em Cristo se estenderam, necessariamente, para todas as dimensões da vida humana naquela cidade. Falando sobre a forma como os sofrimentos por Cristo contribuem para a expansão do evangelho, o apóstolo Paulo lembra que “não importa o que aconteça, exerçam a sua cidadania de maneira digna do evangelho de Cristo” (Fp 1.27). A vida transformada pelo evangelho não se restringe à alma humana, mas se localiza nos ambientes humanos (familiar, profissional, social, político, econômico e religioso). É aí onde a igreja missionária deve avançar.

As perseguições e todo tipo de oposições que a igreja enfrenta em todos os lugares e situações não podem nos amedrontar, nos fazer recuar ou nos levar a assumir posições de mornidão. Antes, deve fortalecer nossa fé e fidelidade a Cristo e renovar nosso compromisso missionário de proclamar o evangelho de Jesus a todos os homens e a todas as dimensões da vida humana. A igreja de Deus é, por natureza, uma igreja missionária e precisa continuar avançando em meio às perseguições, às oposições, ao relativismo, à idolatria do consumo e ao descompromisso que caracterizam nossa geração. Avancemos como povo missionário!

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