A importância da Palavra de Deus para a igreja em missão – At 7.1-60

Carlos del Pino
série Caminho missionário da igreja

A história da defesa de Estevão, narrada em todo este capítulo, surge em decorrência do seu envolvimento concreto com a missão de Deus neste mundo (6.8-15). Sua fidelidade à ação redentora de Deus o levou a assumir posições claras quanto ao evangelho de Cristo em sua sociedade a ponto de homens serem subornados (6.11) para incitar o povo a levar Estevão para um interrogatório diante do Sinédrio (6.12-15). A narrativa de sua defesa diante do Sinédrio não deixou de ser fiel à ação redentora de Deus revelada em sua Palavra e podemos, ao observar alguns elementos dessa defesa de Estevão, buscar uma melhor compreensão da importância da Palavra de Deus para a nossa vida em constante missão como igreja de Deus neste mundo.

01. Ao longo de praticamente todo o capítulo 7, observamos como Estevão levanta dados significativos dos atos graciosos e redentores de Deus ao longo da história, tal como estão registrados nas Escrituras. Ele começa com o Deus da glória que se revela a Abraão (7.2) indo até a construção do templo por Salomão (7.47-48). Ele mencionou diversos eventos relacionados com a história compreendida entre estes fatos, procurando destacar a ação e a intenção redentora de Deus. Em termos práticos a sua defesa se baseia na história bíblica da salvação. Portanto, essa “história da salvação” foi o elemento fundamental que deu à ação missionária de Estevão um sentido profundo e verdadeiro. Em outras palavras, Estevão somente pode realizar com fidelidade a obra de Deus por derivá-la diretamente da própria Palavra de Deus. A Palavra, e somente ela, tornou-se o principal fundamento para que Estevão (e a igreja) encontrasse a missão. Sem uma vinculação da Palavra às nossas vida, famílias e igrejas não haverá uma verdadeira missão.

02. A defesa de Estevão não foi uma mera defesa de seu direito de pregar o evangelho às pessoas, como talvez pudéssemos esperar. Sua defesa foi muito além disso, tornou-se em si mesma uma proclamação muito bem elaborada da história de salvação realizada e escrita por Deus, ou seja, sua defesa tornou-se um testemunho da graça redentora de Deus. Como vemos, Estevão baseia sua defesa-testemunho em uma leitura interpretativa dos atos de Deus. Ele precisou selecionar os eventos históricos, interpretá-los à luz dos propósitos eternos e redentores de Deus e contextualizá-los ao momento em que vivia (7.51-53). A leitura da Palavra de Deus é sempre uma leitura que interpreta a ação de Deus na história e, somente assim, pode-se fundamentar a vida da igreja em seu constante estado de missão. Sem uma interpretação da Palavra, compreendendo seu sentido no contexto em que fora escrita e, necessariamente, contextualizando-o aos diversos ambientes atuais, será impossível vincular a Palavra às nossas vidas, famílias e igrejas, não produzindo uma verdadeira missão.

03. A defesa-testemunho de Estevão buscou ressaltar o pecado humano que se contrapõe à Deus e à sua missão redentora e graciosa. Ao longo de sua pregação Estevão destaca essa rejeição pecaminosa do homem (muitas vezes manifestada em forma religiosa!): a atitude invejosa dos patriarcas vendendo José (7.9), a opressão causada pelo rei do Egito (7.19), a falta de compreensão dos israelitas para com a libertação proposta por Moisés (7.25-28, 35), a desobediência dos israelitas, retornando em seus corações para o Egito ao renderem-se à idolatria (7.39-43). Com base nessa interpretação da história da salvação, Estevão precisou apontar para o pecado dos israelitas de seus dias que, como os antigos, também eram de “dura cerviz e incircuncisos de coração e de ouvidos, vós sempre resistis ao Espírito Santo” (7.51), tornando-se em nome da religião traidores de Deus e assassinos do seu Cristo (7.52). Com essa abordagem da Palavra ele tanto destaca o pecado humano, como oferece uma oportunidade para a reflexão e para o arrependimento: “vós que recebestes a lei por ministério de anjos e não a guardastes” (7.53). Ele não fecha a porta para o arrependimento nem para a fé; antes, procura levar seus ouvintes, através da Palavra interpretada, à compreensão de que o Deus da graça continua a oferecer plena redenção.

04. A defesa-testemunho (missão) de Estevão também resultou em rejeição, sofrimento e morte (7.54-60). Pela forma como o texto relata a fúria dos judeus que ouviram seu testemunho acerca da história da salvação de Deus e o próprio testemunho (martírio) final dado com sua vida, fica muito claro que os resultados da missão nem sempre são os que se esperam. Ao menos deveríamos esperar rejeição e oposição ao testemunho do evangelho quando anunciado e vivido em todas as suas formas e dimensões, pois “eu lhes tenho dado a tua palavra, e o mundo os odiou, porque eles não são do mundo, como também eu não sou” (Jo 17.14). Rejeição e oposição porque o projeto de vida do Reino de Deus (o evangelho) que deve ser anunciado insistentemente não condiz com a forma de vida distante de Deus à que os homens estão presos dentro de sua própria natureza (o pecado). Nesse sentido, os seres humanos, individual e socialmente, estão estruturados contra Deus. A rejeição ao evangelho deve ser esperada por ser a reação natural da humanidade. O testemunho-missão da igreja deve, portanto, levá-la constantemente a “ver a glória de Deus e Jesus que estava a sua direita” (7.55) e a interceder sempre e com misericórdia pela humanidade-campo (7.60).

Diante disso, creio ser significativo a busca de alguns significados para a nossa vivência de igreja em missão. Entre várias implicações, as seguintes podem nos servir de inspiração para uma constante retomada no caminho da missão:

I) Torna-se cada vez mais necessária a centralização da Bíblia e de sua teologia para a vida da igreja e seu crescimento conceitual quanto a missão. Precisamos investir em um processo permanente de reflexão bíblica para construirmos uma teologia de fundamentação missionária para a nossa igreja hoje. Infelizmente, a igreja no Brasil vem caminhando nos últimos anos sem viver uma experiência missionária que se expresse satisfatoriamente em termos bíblicos e teológicos. Isso tanto tem gerado desvios conceituais graves, como diversas insuficiências na busca de modelos missionários. É fundamental que recuperemos de forma séria o trabalho bíblico-teológico como a principal alavanca para a vivência missionária da igreja brasileira hoje.

II) Em sequência com o anterior, precisamos aprender a ver, individual e eclesialmente, a ação missionária de Deus (missio Dei) ao longo da história da graça de Deus nos registros das Escrituras. Em outras palavras, esse trabalho bíblico-teológico não deve prestar-se a confirmar os nossos modelos, prioridades e estratégias missionárias (sejam nossas mesmas ou recebidas de fora!). É muito importante que na leitura dos relatos da ação graciosa e redentora de Deus no mundo (a Bíblia), estejamos abertos a perceber a missão graciosa de Deus e elaborar tal compreensão na forma de prioridades e modelos que condigam com as realidades atuais.

III) Obviamente, estamos falando de um processo hermenêutico completo – da Bíblia à missão – o que, inevitavelmente exige uma renovação em nosso estudo da Bíblia para solidificar-se a missão. Consequentemente, essa renovação do estudo bíblico poderá levar-nos a descartar diversos conceitos que foram impostos sobre a missão na igreja brasileira, tais como a centralidade do transculturalismo no pensamento teológico missionário e a massacrante ênfase no pragmatismo metodológico como critério para a leitura da missão na Bíblia. Uma renovação no estudo bíblico, sem dúvida, nos ajudará a livrar-nos de desvios e a encontrar fundamentos sólidos para a missão.

IV) Precisamos, ainda, investir em uma leitura bíblica da missão-graça de Deus resgatando a exigência da necessária resposta humana ao evangelho na forma de arrependimento e fé. Isso não invalida, por outro lado, a necessária “presença cristã no mundo, indispensável à evangelização, e também o diálogo que tem por propósito ouvir conscientemente para melhor compreender” (Lausanne, IV). Portanto, nossa leitura bíblica deve produzir em nós (pessoas, famílias e igrejas) uma missão integral que exija arrependimento e fé como respostas humanas ao evangelho.

V) Diante do que vimos, não podemos deixar de lado a necessidade de formar-se núcleos de estudos bíblicos em nossas igrejas e em nossas casas, visando o crescimento da nossa compreensão da missão-graça de Deus nos relatos da Bíblia. Não podemos mais nos contentar com a visão e o ensino produzidos fora do nosso próprio ambiente social e eclesial que acaba nos condicionando a modelos missionários incompatíveis contextual e teologicamente. Podemos ler juntos o texto bíblico, interpretá-lo e encontrar seus significados para a igreja hoje.

VI) Por fim, é importante não esquecer que a rejeição por parte da sociedade estruturada contra Deus e sua graça-missão deve ser esperada e enfrentada, quando a igreja assume sua vocação hermenêutica e missionária neste mundo, dedicando-se a um testemunho fiel do evangelho de Jesus, lembrando que “Jesus continua a requerer de todos que desejam segui-lo que se neguem a si mesmos, tomem a sua cruz e identifiquem-se com a sua nova comunidade” (Lausanne, IV).

Que o Senhor da graça-missão nos auxilie em nossa vivência missionária no mundo!

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