O medo (a morte visita a aldeia – 2ª parte de 4)

Fábio Ribas
Série Dias Índios

A foto é dos preparativos para a festa que aplacará o espírito da cobra. No fundo, de lona azul, é a nossa casa

A dúvida era se deixaríamos nossas filhas acompanharem todas as cenas que iriam ocorrer dentro da casa do Cacique. Lembrei-me da morte do meu pai aos meus oito anos de idade. Minha mãe aproximou-se e perguntou se eu queria ir ao cemitério acompanhar o enterro, eu disse que não e fiquei em casa. “Takitakinalo, Hototó, vocês querem ver? As pessoas vão estar muito tristes, chorando…”, dei a opção a elas como minha mãe um dia fez comigo. Elas quiseram estar presentes ali, assim entramos todos na casa do Cacique.

Sentado, o filho de um dos Caciques segurava o corpo da criança nos braços. Enquanto banhava e limpava com água aquele pequeno corpinho, mulheres, homens e jovens se colocavam prostrados no chão ao redor do corpo e gritavam aquele choro arrancado do peito. Eles erguiam os braços, balançando as mãos na direção da criança. Os parentes vinham e abraçavam o pai, que chorava angustiadamente. Aproximei-me e o abracei também.

“Professor, o espírito da onça o pegou e o puxou para dentro das águas”, explicou-me o Cacique. “Professor, por isso que quando a criança pede alguma coisa, a gente tem que dar. Se não der, o espírito da onça vê e corre para pegar a criança. Foi isso que aconteceu: ela acordou cedinho e pediu ao pai para beber caldo de mandioca e o pai não deu atenção, aí a criança saiu e a onça a puxou para dentro das águas”!

Naquela mesma semana houve na escola uma aula em que um dos alunos perguntou o que era realidade. Tentei exemplificar dizendo que se uma onça entrasse ali na sala e nos desse uma mordida aquilo seria realidade. Mas, se estivéssemos dormindo e sonhássemos com uma onça nos mordendo, acordaríamos e veríamos que não havia sido realidade, já que nada havia acontecido. Péssimo exemplo num meio animista! Na mesma hora, o aluno me explicou que não era assim. Se a onça aparece no sonho e morde você, cedo ou tarde você terá uma doença naquele mesmo lugar da mordida.

Quando jovem, o avô matara uma cobra, ainda antes da neta nascer. Anos depois, quando a neta já era uma criança, o espírito dessa cobra mordeu em sonho essa menina. Ao crescer, já casada, ela ficou doente e o pai dela teve que fazer uma festa aplacando o espírito da cobra que o avô da menina matara. Era a única maneira dela ser salva.

Muitas das interações sociais como, por exemplo, a troca de alimentos, que muitos interpretaram como sendo uma prova do mito do bom selvagem ou um exemplo de uma índole de liberalidade e pureza, na verdade, aqui nesse sistema cultural (comum há pelo menos 10 etnias diferentes na Região em que eu trabalho) assenta-se sobre um pagamento que deve ser feito à comunidade que preparou os bijous e peixes para que o espírito gerador da doença pudesse ser aplacado. O espírito exige os alimentos e depois os come com a própria comunidade. O espírito que causava a doença agora recebe alimentos por ter curado a doença que ele mesmo estava causando. Mas, nesses rituais, se alguém se nega a participar dessas trocas de alimentos, o espírito ameaça vir com novas doenças. Essas mesmas relações de medo estão presentes no velório da criança. É o medo dos espíritos que subjaz às manifestações que vemos de toda dor, canto e choro no velório da criança.

“Professor, agora os pajés estão fumando para ver se não houve feitiço contra a criança”, disse-me o Cacique. Os pajés, o pai e o tio permaneceram por horas e horas fumando aqueles cigarros feitos de plantas alucinógenas. A casa se encheu daquela fumaça. Os mais jovens e fortes se colocavam por trás para segurar os que começavam a cair num transe xamânico. Eles agora começavam a ouvir os espíritos que revelariam a verdade para eles. “A fumaça é o alimento dos espíritos”, dizem os pajés.

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