A reunião

Fábio Ribas
série Dias Índios

foto do arquivo do autor

Entrei na Casa dos Homens e todos já estavam ali: os chefes de família, os jovens, os pajés, caciques e o filho do cacique. Este é um rapaz de uns 28 anos de idade e que foi um dos responsáveis pela minha ida à aldeia. É o único indígena ali que saiu para estudar e não abandonou o desafio. Ficou sete anos fora da aldeia e concluiu o 2º grau. Trabalhou na área de saúde indígena e, desde o final do ano anterior, retornou à aldeia. Ele sempre insistiu com seu pai que seus irmãos deveriam estudar, aproveitar a minha presença ali.

Em setembro de 2008, ele foi um dos quatro indígenas da aldeia que foi me procurar em Brasília para acertar a minha ida para a área. Assim, foi um presente neste mês retornar à casa do cacique e ele estar ali também. Uma oportunidade maravilhosa, uma vez que ele domina bem o português e se tornou uma espécie de “tradutor cultural”. Um jovem inteligente, líder na aldeia, têm influência sobre meus alunos, enfim, um presente de Deus à obra. Mas o diálogo que ocorreu dentro da Casa dos Homens é extremamente revelador e gostaria de chamar a sua atenção para toda a significação do que está sendo dito, pois sei que se revelou uma realidade que extrapola as palavras ditas ali.

– Bem, Professor, estamos aqui, a comunidade reunida para você explicar sobre os computadores. Pode falar.

– Sei que os meus alunos mais velhos, quando vão à cidade, mexem muito com computadores nas lojas de lá. Mas também sei que o computador serve muito mais do que só para o que se pensa. Ele pode ser um apoio de pesquisa na Escola. Ele pode abrir o mundo por meio da Internet também. Comigo aqui na aldeia, ajudando vocês, podemos fazer cursos via-internet, além de melhorarmos nossas aulas de matemática, português, história… O computador também servirá para que vocês mesmos comecem a registrar e estudar a própria língua, a comunidade precisa de indígenas linguistas, como também de indígenas que entendam de turismo ecológico, indígenas advogados, indígenas professores, indígenas enfermeiros, etc. O computador vem para ajudar a comunidade a construir a realidade que vocês querem. Mas eu precisava que vocês se comprometessem com a Escola dando a gasolina para o gerador durante as aulas com os computadores. Eu entro com os computadores, vocês com a gasolina.

O filho do cacique traduziu tudo o que eu disse para a língua, explicando para todos. Mas, de repente, bem no meio da sua tradução, eu ouço uma palavra em português: “missionário”! Pronto, ele já saberia? Chegara ali o momento de expormos toda a situação? O Governo proíbe a entrada de missionários na Região. Os que existiram foram expulsos nos anos 70 e, desde lá, nunca mais se pode entrar. E sei que os indígenas aprenderam dos antropólogos que missionário é o diabo. Portanto, sei também que a nossa presença ali é um milagre.

– Professor – continuou o filho do cacique – estou dizendo para eles que não precisam ter medo, não vai acontecer como lá em São Gabriel da Cachoeira, que os missionários mandaram os índios pararem de dançar, de festejar, colocaram roupas neles. E, agora, muitos filhos estão retornando às tradições abandonadas por seus pais. O filho do cacique estava se referindo ao trabalho de catequese católico ocorrido em São Gabriel da Cachoeira (AM), mas o que me chamou atenção foi a palavra medo. Por que a aldeia estaria com “medo”? Por que se referir a nossa presença dessa maneira? O que eles já sabiam? O que já teriam dito para eles sobre nós? Naquele momento delicado, com todos os homens da aldeia ao meu redor, compreendi que a Sabedoria de Deus precisava me encharcar naquela hora, principalmente porque aquele jovem nada falara diretamente sobre nós. Seria ali a hora de nos associar com aquilo que eles pensam ser a própria encarnação do mal na terra e, então, tentarmos desvencilhar essa imagem negativa? Se alguém havia dito alguma coisa, orientado eles de alguma forma, a nossa conduta positiva em relação a cultura durante o ano em que estivemos ali seria um enorme ponto de interrogação na cabeça deles. Se éramos como os de São Gabriel da Cachoeira, por que até agora nunca fizemos nada parecido, ao contrário, sempre valorizamos o belo na cultura e nos reservamos o silêncio naquilo que é a distorção do belo, transgressão da lei de Deus? Enfim, não nos perguntaram nada.
Então orei. Avancei a posição do meu corpo sobre a cadeira em que estava sentado. Olhei bem nos olhos do filho do cacique e devolvi a moeda que ele havia me dado.

– Querido, eu não vim aqui para fazer isso. O que vocês fizerem daqui para frente, o que a comunidade fizer, será sempre uma decisão da comunidade. Assim como tem coisas na minha cultura que eu não gosto, que eu desaprovo e rejeito, vocês também vão descobrir que nem tudo é bom na cultura não-índia e vocês precisam aprender a aceitar ou a rejeitar aquilo que não é bom para vocês. Mas será sempre uma decisão da aldeia. E eu acredito que a Escola está aqui para ajudá-los a perceber isso e ajudar vocês a aprender a decidir sobre uma cultura que é estrangeira. Tem coisas na minha cultura que eu não quero nem para mim, é claro que eu não quero para vocês também, mas a decisão é da aldeia. Há coisas lindas na minha cultura e é claro que eu quero o melhor disso para vocês também, mas, como eu disse, a escolha será sempre de vocês.

Quando terminei de dizer isso, reclinei-me na cadeira, fechei os olhos e agradeci ao Deus que estava ali presente comigo e que enchera minha boca. Desde então, o filho do cacique vem se tornando um grande amigo meu.

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