A roça é logo ali

Cácio Silva
série Culturas

A dinâmica de tempo indígena

Boa parte dos indígenas da nossa região, que migram para a cidade, mantém suas roças nas aldeias de origem onde também vivem os parentes. Um ancião indígena amigo nosso comentava sobre sua roça, de onde acabara de chegar. No seu discurso a roça ficava perto, até que mencionou o nome do rio onde a mesma se localiza. Conhecendo a região, eu sabia que sendo naquele rio não poderia ser tão perto assim, e por isso exclamei: “mas então fica longe!” Ao que ele respondeu: “Não! A roça fica logo ali. Gasto apenas dois dias e meio de viagem”!

E eu que já era desconfiado do “perto” de Minas Gerais, passei a desconfiar também do “perto” do Amazonas. Ali não se fala em rodovias, carros, quilômetros nem horas de percurso e sim em rios, barcos, canoas e dias de viagem. Nas suas pequenas canoas de madeira, com um pequeno motor de popa chamado “rabeta”, os indígenas viajam dias ou até semanas pelos rios da região. Há poucos dias, na aldeia onde trabalhamos, uma família saiu para pescar em um outro rio não muito longe, dizendo que voltaria no final da tarde. Voltou cinco dias depois! Nosso informante linguístico foi até a foz do rio, não muito longe dali, dizendo que voltaria para a sessão de estudo da língua às 14 horas. Voltou dez dias depois!

Estamos falando da dinâmica de tempo indígena, mais especificamente da região do Alto Rio Negro. Sem necessidade de relógio nem de calendário “branco”, sem turno a cumprir nem metas de produção a atingir, sem horário para sair nem para chegar em casa, o tempo é regido pelo relógio biológico e pelas necessidades de subsistência. É preciso ir para a roça, vai para a roça. Está cansado, descansa. Está com fome, procura algo para comer. Está com sono, dorme. A cultura é orientada mais para o evento do que para o tempo. O encontro em si é mais importante do que o horário de chegada, de início e término.

Em contrapartida, vivemos na cidade uma dinâmica de tempo regida pelo relógio, pelo compromisso, onde para tudo temos horários estipulados e se não os cumprimos nossa dinâmica entra em pane. Temos horário para sair de casa, para chegar no trabalho, para o lanche da manhã, para o almoço, para o lanche da tarde, para sair do trabalho e para chegar em casa. O noticiário tem horário certo, a novela tem o seu horário, agendamos 20 minutos para ficar com a família e precisamos dormir na hora certa, pois também temos horas estipuladas para o sono. Temos alvos, metas, relatórios a prestar e ganhamos de acordo com nossa produtividade. E levamos isso até para a igreja, onde às vezes estabelecemos metas que parecem depender mais de uma eficaz estratégia de marketing do que da ação do Senhor. Isso porque nossa ocidentalizada cultura urbana é orientada mais para o tempo do que para o evento. Chegar na hora certa ao culto é quase tão importante quanto prestar uma verdadeira adoração ao Senhor.

Não estamos falando de certo e errado, mas sim de diferenças culturais. A cultura ocidentalizada foi moldada nesses termos e tem suas razões para assim funcionar. Da mesma forma, a cultura indígena tem suas razões de ser. O problema surge quando o “branco” olha para o indígena e o censura, rotulando-o de preguiçoso e improdutivo. Ou quando o indígena olha para o branco e igualmente o censura, rotulando-o de paranóico e ambicioso.

Como missionários precisamos conviver com os dois mundos. Por um lado temos toda uma carga cultural de imediatismo, produção e planejamento baseados em datas, com uma orientação para o tempo. Por trás temos também igrejas que vivem essa dinâmica no seu dia-a-dia e, por isso, esperam relatórios e produtividade. Mas por outro lado estamos inseridos numa dinâmica local indígena, orientada pelo evento, que inutiliza nosso relógio, rasga nosso calendário e, muitas vezes, frustra nossas expectativas de prazos. A compreensão do evangelho é gradativa, o processo de conversão é elástico e o amadurecimento na fé é vagaroso, se dando apenas a longo prazo. Ainda bem que o evangelho em si é atemporal e supra-cultural, podendo ser aplicado a todos os povos e em todos os tempos.

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