Adversidades e o verdadeiro sucesso na obra missionária – At 12.1-25

Carlos del Pino
Série Resultados missionários

“A despeito dos ataques externos, a palavra do Senhor continuava a propagar-se. Este fato era mais importante do que a retribuição que o perseguidor da igreja sofreu por seus atos (1)

Este capítulo de Atos nos ajuda a entender que viver a vida comum da igreja, bem como exercer a missão que recebemos de Deus é uma experiência que normalmente se vive em meio a situações adversas. Lendo a nossa própria história como povo de Deus no mundo e examinando as páginas das Escrituras, aprendemos que não devemos esperar viver a vida cristã e exercer nossa vocação livres de todo sofrimento e provações. São adversidades que, naturalmente, variam de acordo com a região e com o momento histórico-filosófico em que estamos inseridos. Por isso, não podemos esperar que o sucesso da obra missionária ocorra sem a presença de constantes adversidades, nem que esse sucesso siga parâmetros que não sejam fundamentalmente bíblicos.

Dessa forma, ao ler o capítulo 12 de Atos, vemos Lucas mencionando uma série de eventos adversos que ocorreram à igreja logo após a conversão de Cornélio (cap.10) e o relatório dado por Pedro sobre sua visita a Cornélio (cap.11). Ambos eventos destes capítulos 10 e 11 representaram grandes vitórias para a igreja: a renovação do conceito de igreja e de missão por meio da interpretação da palavra de Deus, o fim do etnocentrismo judeu na igreja cristã, a entrada dos gentios na vida comum da igreja, e o crescimento teológico da igreja e a consequente influência em sua práxis missionária. Entretanto, após estas vitórias, Lucas nos apresenta uma série de adversidades ao longo de todo o capítulo 12, que podem ser resumidamente mencionadas resumidamente da seguinte forma:

Algumas pessoas da igreja foram presas por ordem de Herodes com a caprichosa intenção de serem maltratadas, sem nenhuma indicação mais clara das razões que o levou a isso (12.1).

O brutal assassinato de Tiago, por ordem de Herodes, parece mostrar que o rei desejava coroar o período de prisão e maus-tratos aos crentes com a morte de um importante líder da igreja (12.2).

Herodes continua a maltratar e prender os cristãos, por perceber que “isso agradava aos judeus”. Obviamente, estava interessado em agradar a população judaica por interesses políticos pessoais (12.3).

“Prosseguindo” em seus maus-tratos, Herodes prendeu outro líder da igreja, o apóstolo Pedro, durante uma festa religiosa dos judeus. O objetivo de Herodes era “submete-lo a julgamento público depois da Páscoa”. Dessa forma, sua condenação e execução agradariam ainda mais aos judeus (12.3-4).

Enquanto Pedro sofria por estar detido na prisão, a igreja assumiu uma atitude de rebelião contra o status quo da estrutura corrupta e pecaminosa, “orando intensamente a Deus por ele ” (12.5).

Deus interviu sobrenaturalmente na situação de sofrimento e humilhação a que Pedro fora submetido, livrando-o da prisão e da morte iminente a que seria submetido após o julgamento (12.6-11). Sem dúvida, o livramento de Pedro representou a vontade soberana de Deus para sua vida e para a igreja, enquanto que, dias antes, a morte de Tiago também foi uma resposta soberana de Deus. A morte de um e o livramento do outro indicam a ação soberana de Deus por caminhos diversos em meio aos sofrimentos que a igreja passa.

Ao deixar a prisão, Pedro procurou se afastar imediatamente do local e da situação que representavam perigo e ameaça, dirigindo-se à casa de Maria, mãe de João Marcos, onde encontrou a igreja reunida em oração (12.12).

O anúncio feito por Rode, acerca da chegada de Pedro, lhe causou tanta comoção que ela o deixou do lado de fora, sem abrir-lhe a porta, e foi anunciar aos demais que Pedro havia chegado (12.13-14).

A reação da igreja que orava, após ser interrompida em seu momento de devoção, foi de incredulidade: afirmaram que Rode estava fora de si, mas como insistia em dizer que Pedro estava à porta, diziam ser o anjo dele (os judeus acreditavam que as pessoas tinham anjos da guarda que se pareciam com os seus protegidos). Finalmente, ao abrirem a porta, ficaram perplexos possivelmente imaginando como havia escapado da prisão na véspera de seu julgamento. Seria a incredulidade da igreja em ver a ação de Deus uma forma de perseguição e sofrimento? (12.15-17).

A “fuga” de Pedro causou um tremendo alvoroço e, possivelmente, muito medo entre os guarda da prisão, pois sabiam das intenções de Herodes com o julgamento, condenação e execução de Pedro. Esse fato levou Herodes a executar os próprios soldados (12.18-19).

O texto registra, ainda, as várias andanças e manobras políticas de Herodes, bem como seu sentimento de ira e extrema vaidade ao ser aclamado pelo povo como deus. Tratava-se de um governante incrédulo e capaz de qualquer coisa para obter seus interesses e dividendos (12.19-23).

A morte trágica e humilhante de Herodes é apresentada no texto como juízo de Deus, indicando claramente que Deus julga aqueles que não se curvam à sua soberania e agem de forma tirânica (12.23).

Paulo e Barnabé, que estavam em Jerusalém nessa ocasião (11.29 – 12.1) levando as ofertas dos irmãos de Antioquia, regressam de Jerusalém após cumprirem essa missão diaconal para a qual haviam sido incumbidos. Essa foi uma missão que teve a finalidade de aliviar o sofrimento daqueles irmãos que padeciam sob um período de muita escassez (12.25).

Como levar adiante a missão que recebemos de Deus nesse contexto de tanta adversidade e perseguição? Seria possível “medir” o sucesso na obra missionária, neste capítulo 12, à luz das expectativas missionárias que existem hoje no Brasil? Qual seria o verdadeiro sucesso na obra missionária que este capítulo nos apresenta? As adversidades e os sofrimentos, bem como a aparente falta de resultados, são experiências que acompanham normalmente a vida missionária?

Observamos que há no texto diversas dimensões de sofrimentos e provações que marcaram a vida e a missão da igreja de Jerusalém naquele momento. Entretanto, não podemos colocar toda a nossa atenção na realidade e na dor do sofrimento. É preciso olhar para as adversidades a partir da perspectiva da soberania de Deus que torna possível que a palavra de Deus continue sendo proclamada e propagada. Nesse sentido, o texto não termina com a descrição das duras adversidades; antes, vai além mostrando que “entretanto, a palavra de Deus continuava a crescer e a espalhar-se”.

O crescimento da palavra de Deus indica, claramente, que a igreja se movia missionariamente em meio aos seus sofrimentos e adversidades. Esse é, de fato, a ideia do verso 24: ainda que a missão diaconal de Barnabé e Paulo houvesse concluído, a propagação da palavra de Deus se dava como um fogo que queima e se alastra rapidamente. Devemos observar que as adversidades, por mais dolorosas que sejam, não têm força para impedir que a palavra de Deus se espalhe entre os seres humanos. Nesse sentido, deveria ficar-nos muito claro que o verdadeiro sucesso no trabalho missionário é o crescimento da palavra de Deus, levando-nos a tomar os necessários cuidados com o metodologismo pragmático e ansioso que visa fundamentalmente o crescimento da igreja institucional, uma vez que poderia alterar o nosso verdadeiro foco vocacional e missionário como povo de Deus, comprometendo a propagação da palavra de Deus entre as diversas sociedades humanas.

O ponto central do verdadeiro sucesso da obra missionária, portanto, é que a palavra de Deus se espalhe por todos os cantos do mundo e entre todos os segmentos da vida humana: esse é o crescimento que responde adequadamente à vontade soberana do nosso Deus; esse é o crescimento que atende com a graça de Deus aos anseios e dilemas das pessoas buscando os mais variados significados dessa palavra para suas vidas, que se expressa adequadamente dentro de cada contexto e que visa a formação do caráter de Cristo em todos nós. Obviamente, falar em crescimento da palavra de Deus exige um permanente trabalho hermenêutico por parte de toda a igreja, sendo este um dos elementos centrais de sua tarefa missionária.

Na verdade, nenhuma circunstância humana, por pior que seja, pode deter a expansão da palavra de Deus por ser esta uma ação do próprio Deus (missio Dei). Como servos consagrados da missão de Deus e portadores humildes da sua palavra em nossos discursos e estilo de vida, devemos nos envolver conscientemente em todas as dimensões da vida humana que nos cerca, nos inserindo nos diversos segmentos da sociedade com o objetivo de anunciar e tornar claramente visível, através da nossa vida pessoal, familiar e eclesial, o evangelho de Jesus tal como proclamado na Bíblia. Dessa forma, procuramos participar e cooperar na missão divina e no crescimento da palavra de Deus. Agindo assim, certamente as adversidades não nos ofuscarão em nossa busca pelo verdadeiro sucesso na obra missionária.

Atualmente, nos países ocidentais, e também no Brasil, dificilmente nos deparamos com os mesmos tipos de adversidades que a igreja enfrentou em outros momentos de sua vida e história. Entretanto, passamos também por várias circunstancias adversas que, de fato, são verdadeiras provações para todos a nossa fé. Por exemplo, a realidade de um novo perfil filosófico e social que se caracteriza, entre outras coisas, pelo secularismo, pelo pluralismo religioso sincrético, por um extremado individualismo e um relativismo moral irrestrito são novas formas de oposição à fé cristã e à jornada missionária da igreja neste mundo. São perseguições que têm mantido “em prisão” um número cada vez maior de cristãos no mundo atual.

Aprendemos, então, que é preciso caminhar entre as pessoas, sendo sensíveis aos seus próprios sofrimentos e provações, levando-lhes a palavra redentora do nosso Deus, interpretando e vivendo contextualmente essa palavra de forma a tornar-lhes evidente a graça de Deus. Dessa forma, somente falaremos de “plantação e crescimento de igreja” se, de fato, se tratar de uma igreja em missão que cresce à medida em que a palavra de Deus cresça vivamente em nossas vidas e se propague entre todos os seres humanos. Nisto consiste o fundamento da missão e caminhando dessa forma encontraremos, dia a dia, o verdadeiro sucesso na obra missionária!

Deus nos abençoe!!
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(1) MARSHALL, I. H., Atos – Introdução e Comentário, p. 203.

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