Algo mais que um colar

Fábio Ribas
série Dias Índios

No primeiro dia, a aldeia já me esperava alvoroçada para realizar o “moitará”, que é um sistema de trocas de mercadorias entre as pessoas da comunidade e acontece, principalmente, quando alguém vem da cidade. Durante o moitará, a comunidade sai de casa em casa e coloca suas mercadorias no chão e o dono delas anuncia o que desejaria receber em troca.
Em cada casa, pude acompanhar o alvoroço das trocas e a balbúrdia deles falando e rindo em sua língua. Às vezes, paravam e olhavam para mim e riam, riam muito. Participei do moitará colocando meus “presentes” (é assim que são chamadas essas mercadorias de troca) e, então, anunciava quais presentes gostaria de receber: colar, pulseira, artesanato, etc. Quais os presentes que eu colocava? Pilhas, sabonetes, sabão em barra, anzol, linha, roupas entre outras coisas semelhantes.

O jacará da esteira
Foto do arquivo do autor: o jacaré da esteira

Lá pela terceira ou quarta casa, coloquei dois sabonetes no chão e disse que gostaria de receber “qualquer coisa”. Foi quando uma índia pegou os sabonetes e colocou no meu pescoço um lindo colar feito de sementes de tiririca. Com o meu novo colar no pescoço, vi que os índios riam e falavam entre si e, novamente, riam olhando para mim. Disse a eles que havia achado lindo aquele colar que tinha um lindo animal feito com aquelas pequenas sementes: um jacaré. Mas, a cada casa que eu ia, o colar causava uma certa excitação e as índias riam e os índios diziam: “jacaré, jacaré”. Esta cena foi-se repetindo de casa em casa e, claro, comecei a ficar incomodado com os risos de índios e índias por causa do colar. Até que um jovem indígena chegou perto de mim e também reparou no colar. Como já suspeitava de que havia caído numa armadilha cultural, fui logo me explicando: “É, ganhei esse jacaré no moitará. Alguém me deu”. Então, esse jovem olhou para sua irmã e apontando o dedo para ela me disse: “Minha irmã te interessa?” Fiquei perplexo com a pergunta: “O que você disse?” Ele repetiu: “Minha irmã te interessa?” O que podia fazer? Eu olhei para ele e falei: “Não, muito obrigado, já sou casado e sou homem de uma mulher só”. Claro que disse isso entre sorrisos amarelos e tapinhas nas costas dele para tentar ser o mais simpático possível.
Voltei para a casa em que estavam minhas coisas e rapidamente tirei o colar e o guardei para nunca mais colocá-lo. É, realmente havia caído numa armadilha cultural: eles não comem carne de jacaré, pois o jacaré é um animal que, quando chamado pelas índias, sai das águas em forma de homem para se deitar com elas escondido de seus maridos. Este foi meu primeiro dia na aldeia e exemplifica bem os cuidados que preciso ter, pois, numa cultura diferente, até um belo e exótico colar pode significar muito mais do que um simples enfeite.

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