As regras e o suco de limão

Fábio Ribas
Série Dias Índios

foto do arquivo do autor

“Lu, você come peixe quando está menstruada?”, perguntou a indígena para minha esposa.

A nossa presença dentro da aldeia abre espaço para que eles nos perguntem sobre muitas coisas como essa. Assim, por causa da presença da Lu, as mulheres têm se aproximado dela e sentido liberdade de fazer comparações e indagar sobre si mesmas. É óbvio que não falamos nada que não seja perguntado a nós e, mesmo assim, seguimos com toda cautela, porque não queremos realizar esses passos por eles. A situação da proibição de certos alimentos em determinadas épocas está ligada, segundo alguns estudiosos, não somente às questões espirituais, mas também econômicas. Muitas culturas têm “proibições” alimentares. Quem não já ouviu da mãe que não se pode misturar leite com manga ou coisas semelhantes? A própria Bíblia apresentou aos judeus no deserto uma lista de animais puros e impuros.

– Pergunta para elas por que elas não fizeram o suco de limão? Insisti com o indígena, agente de saúde e amigo meu, que estava me visitando na casa do cacique.

– Elas disseram que é porque você é o dono da comida e não pediu que elas fizessem o suco.

Bem, diante dessa resposta, eu ri da minha confusão. Aproveitei e compartilhei com eles o que eu estava imaginando ser o porquê de não terem aberto o saco do suco de limão, pois, toda vez que eu chego da cidade na casa do Cacique, sempre trago uma ou duas caixas de comida (arroz, feijão, macarrão, etc) e entrego ao cacique, dizendo: “Esta é a nossa comida”! Assim, todos na casa comemos da minha comida acrescentada da comida própria deles, peixes, biju, macaco, gafanhoto, formiga, pequi, etc. São as filhas do cacique que fazem a comida para todos nós na casa. Então eu expliquei para ele:

– Eu já estou para ir embora para a cidade e os dois sacos de suco de limão estão aí fechados até agora. Sabe – continuei explicando, já envergonhado, ao meu amigo – lembrei de uma história que aconteceu com duas professoras que foram expulsas de uma aldeia e elas não sabiam o motivo. Não lembro bem dos detalhes, mas sei que elas, só então, resolveram estudar aquela cultura específica e seus detalhes. O que as professoras descobriram? Todos os dias, elas iam no mato colher limões para fazer suco, todavia, o que elas não sabiam é que naquela cultura o suco de limão era tido pelo povo como um abortivo e o povo logo concluiu que elas deveriam estar dormindo com os maridos da aldeia e, então, as mulheres as expulsaram! Eu estava aqui pensando: “Será que entre vocês também seria assim? Será que as filhas do cacique não faziam suco de limão, por causa de alguma proibição semelhante”? Quando meu amigo indígena terminou de ouvir aquela minha explicação, ele começou a rir.

– Não, não – disse ele rindo muito do que eu estava explicando – a gente bebe suco de limão sim.

– Mas há alguma coisa parecida, alguma comida que vocês não podem comer?

– Professor, a criança não pode comer peixe e a mãe também não, logo assim que a criança nasce.

– Por quê?

– Não sei… aquele povo da sua história não tinha as regras deles? Então, essas são as regras da gente. Aqui na Região tem povo índio que faz diferente da gente, mas aí já são as regras deles…

Eu estava encantado com aquilo que eu estava ouvindo. Aquele discurso era lindo e profundo. Era uma avaliação e uma percepção que ele estava fazendo não só do seu próprio povo, mas também do mundo que os cercava: “essas são as regras da gente”… Logo eu pensei no mundo bíblico, especialmente em Pedro, apóstolo de Jesus, um homem pescador e também cheio de regras a seguir. Pedro era um legalista que também seguia uma lista rígida de alimentos impuros nos quais não devia sequer tocar (Lev 11). Mas, no meio do dia, Pedro teve uma visão e Deus disse a ele: “Pedro, não chame de impuro o que Deus purificou”. Pedro descobriu, naquele momento, que Deus estava mudando as regras para que o Evangelho pudesse chegar a todos os povos (Atos 10. 9ss). Esta é uma chave preciosa para um futuro discipulado que estou guardando e aguardando: mostrar que na pretensão da rigidez cultural, Deus pode interferir e mudar as nossas regras!

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