Brancos comem bebês enlatados

Cácio Silva
série Culturas

Os Mal-entendidos Transculturais e a Postura de Aprendiz

Eugene Nida relata o ocorrido com alguns missionários recém-chegados à África. No início as pessoas eram amáveis, os recebiam bem e interagiam com eles. De repente tornaram-se ressabiadas e passaram a evitá-los. Os missionários recém-chegados não entenderam a razão e tentavam descobrir o que houvera de errado. Até que um ancião lhes explicou: “Quando vocês chegaram, vimos seu jeito estranho. Vocês trouxeram latas redondas, com figuras de grãos de feijão do lado de fora. Vocês abriam, dentro havia feijão e vocês comiam. Em algumas, havia a figura de milho e dentro tinha milho. Vocês abriam e comiam o milho. Do lado de fora de algumas latas havia a figura de carne, dentro havia carne mesmo e vocês comiam. Quando tiveram seu bebê, vocês trouxeram latas com figuras de bebês do lado de fora. Vocês as abriram e deram a carne ao seu bebê, carne de bebês que ali estava!”

Mal-entendidos acontecem quando se trabalha em contexto transcultural e às vezes são inevitáveis. Por mais cuidadoso que seja o missionário, criterioso e com sensibilidade cultural, mais cedo ou mais tarde acaba envolvido em algum mal-entendido. No caso acima, uma prática rotineira e simples de alimentação, causou tal confusão. Mas uma palavra ou mesmo a forma de falar, um comportamento ou atitude, uma cara fechada ou um sorriso, uma saudação e até a forma de se sentar, podem ter significados culturais diferentes e causar desconforto em algum momento. Para alguns indígenas da Amazônia, mostrar a sola do pé ou do sapato quando se senta é motivo de grande vergonha! Olhar atentamente para quem está falando é um insulto! Conversas paralelas no momento de um discurso é sinal de interesse!

Se os mal-entendidos são quase inevitáveis, a questão então é: como resolvê-los? Paul Hiebert sugere a atitude de aprendiz. O missionário ideal é aquele que se aproxima da outra cultura como um aluno e não como um professor, como uma criança em busca de aprendizado e não como um ancião capaz de ensinar. A diferença é visível na reação das pessoas. Quando um “aprendiz” comete um erro, por mais absurdo que seja, alguém o corrige mas não se aborrece, pois, afinal, quem está aprendendo erra mesmo. “Ele ainda não conhece bem a nossa cultura”. Mas quando um “professor” erra, as pessoas podem ficar ofendidas, envergonhadas ou estarrecidas. O erro de um “ancião” é falta grave, enquanto o erro de uma “criança” faz parte do seu crescimento.

O desafio é “descer” ao status de aprendiz depois de anos de estudo, treinamento prático, estágio transcultural e liderança na igreja local. Depois de anos estudando teologia, missiologia e lingüística, de adquirir o status de missionário e/ou pastor e sentir-se apto até para ensinar outros, chega-se ao campo e percebe-se que é preciso começar do zero. A cultura é complexa demais, a língua é quase impronunciável e a religiosidade aparentemente incompreensível! O missionário não pode pregar, pois não consegue falar a língua. E também não adianta usar tradutor, pois culturalmente ainda não tem autoridade para ensinar. Neste momento há duas alternativas: ignorar as restrições culturais e assumir uma postura de superioridade ou reconhecer suas próprias limitações e assumir a postura de aprendiz. Quando surgirem os mal-entendidos transculturais, a solução dependerá da postura assumida. Em última análise, é um desafio de humildade.

Mal-entendidos acontecem também em contexto monocultural, na família, na igreja, nos círculos imediato e mediato de relacionamentos. A forma de resolvê-los depende da postura que cada um assume no dia-a-dia. Explicar que o óbvio nem sempre é óbvio, é mais fácil para um aprendiz do que para um professor.

Deixe uma resposta