Calvino e o propósito missionário da teologia

Gabriel Neubarth

Nenhum outro ponto da vida de Calvino ficou mais conhecido do que a sua teologia. A produção teológica de Calvino foi de fato grandiosa, ao ponto de preencher 59 dos 101 volumes da conhecida coletânea de textos da reforma protestante, denominada de Corpum Reformatorum.

Para que o leitor tenha ideia da extensão de sua obra teológica, é válido lembrá-los que nos 42 volumes restantes dessa coleção, estão contidas as produções teológicas dos demais teólogos reformados da época, tais como Melanchton e Bulinger. Ou seja, Calvino, que mal conseguiu vender o seu primeiro livro (um tratado sobre Sêneca) foi responsável por escrever quase 60% de todas as obras da teologia protestante de sua época: “Um autor observa que o reformador de Genebra escreveu mais num espaço de trinta anos do que uma pessoa pode estudar e digerir adequadamente durante toda uma vida.”

Por qual motivo Calvino escreveu tanto? Qual o propósito de tanta teologia? Creio que o propósito principal foi o zelo que ele tinha pela glória de Deus. Não me deterei nesse tema agora, mas gostaria de falar de um propósito por vezes negligenciado pelos leitores de sua obra, a saber: seu desejo missionário.

Talvez esse seja um tema negligenciado pelos leitores de Calvino ao longo da história pelo fato de que, por vezes, não gostamos de gastar tempo lendo prefácios de obras literárias. Muitas vezes, ansiosos pelo conteúdo em si de um livro, saltamos essa parte tão importante para a compreensão do mesmo, uma vez que é no prefácio onde o autor expõe aos seus leitores as razões pelas quais ele dedicou tempo para escrever sobre aquele tema específico.

Gostaríamos de nos deter no prefácio de sua obra mais famosa, a saber, As institutas da religião cristã, mais especificamente no prefácio da primeira edição datada de 1536. Esse prefácio é uma carta destinada ao Rei Francisco, monarca francês na época, com vistas a explanar-lhe as verdades da religião cristã. Vejamos algumas partes dessa extensa carta (mais de 20 páginas) onde o claro intento missionário de Calvino é evidenciado.

Logo no primeiro parágrafo, Calvino assim afirma: “Quando, de início, tomei da pena para redigir esta obra, de nada menos cogitava, ó mui preclaro Rei, que escrever algo que, depois, houvesse de ser apresentado perante tua majestade. O intento era apenas ensinar certos rudimentos, mercê dos quais fossem instruídos em relação à verdadeira piedade quantos são tangidos de algum zelo de religião. E este labor eu o empreendia principalmente por amor a nossos compatrícios franceses, dos quais a muitíssimos percebia famintos e sedentos de Cristo, pouquíssimos, porém, via que fossem devidamente imbuídos pelo menos de modesto conhecimento.”

Notamos nessa palavra o zelo missionário de Calvino. O desejo de fazer Cristo conhecido aos seus compatriotas franceses e o amor que o mesmo nutria por eles foi a válvula propulsora de uma das obras mais importantes do protestantismo. Calvino procurava cumprir aqui um dos pontos da tão conhecida “grande comissão”, onde se lê: “ensinando-os a guardar tudo que lhes ordenei” (Mt.28.20). A teologia que produzimos deve ter como objetivo último o cumprimento dessas palavras, e deve ser motivada pelo amor que temos para com os perdidos.

Calvino continua: “Como, porém, me apercebesse de até que ponto tem prevalecido em teu reino a fúria de certos degenerados, de sorte que não há neles lugar nenhum à sã doutrina, dei-me conta da importância da obra que estaria para fazer, se, mediante um mesmo tratado, não só lhes desse um compêndio de instrução, mas ainda pusesse diante de ti uma confissão de fé, mercê da qual possas aprender de que natureza é a doutrina que, com fúria tão desmedida, se inflamam esses tresloucados que, a ferro e fogo, conturbam hoje teu reino.”

Aqui, mais uma vez, Calvino evidencia que o propósito de seu livro é instruir e tornar a fé protestante conhecida ao Rei (e consequentemente a toda a nação), visto que, aqueles que defendem tal fé, estavam sendo perseguidos a “ferro e fogo” naquele país. Era desejo de Calvino que o rei “aprendesse” a doutrina protestante. Não seria essa ainda hoje a função dos missionários, onde quer que eles estejam? Não seria assim que cumpriríamos o “ensinar a guardar todas as coisas”? Não é por meio do conhecimento de Cristo, que são formados os seus discípulos? Mais uma vez nos é suscitada uma reflexão: nossa teologia tem como objetivo instruir e tornar a fé bíblica conhecida?

Com vistas a cumprir tal intento missionário, se fazia necessário que o evangelho fosse claramente explicitado, o que Calvino, no próprio prefácio, o faz:

“Sim, diante de Deus, míseros pecadores; à vista dos homens, absolutamente desprezíveis, escória e lixo do mundo; se o queres, ou qualquer outra coisa que de mais vil se possa, porventura, referir. De sorte que nada resta de que nos possamos gloriar diante de Deus, senão tão-somente de sua misericórdia [2Co 10.17, 18], mercê da qual, à parte de qualquer mérito nosso [Tt 3.5], fomos admitidos à esperança da eterna salvação, nem mesmo diante dos homens nos sobra senão nossa impotência [2Co 11.30; 12.5, 9], o que, a mera admissão, sequer com um aceno, é entre eles suprema ignomínia.”

Calvino expõe aqui a real situação do homem à parte da graça de Deus. Por natureza somos “míseros pecadores” e “escória e lixo do mundo”. No entanto, mesmo em face a tal realidade, “pela misericórdia”, e não por “nenhum mérito nosso”, fomos “admitidos à esperança da eterna salvação”. Quão vibrante, clara, e corajosa é essa exposição do evangelho. Calvino não apenas procurou defender a fé protestante, mas claramente expõe o evangelho àquele monarca, pois cria que somente o evangelho “é o poder de Deus para salvação de todo aquele que nele crer”. A coragem de Calvino é ainda evidenciada, quando o mesmo exalta a realeza de Cristo, como único monarca pleno, vejamos:

“Nossa doutrina, porém, sublime acima de toda glória do mundo, invicta acima de todo poder, importa que seja enaltecida, pois não é nossa, mas do Deus vivo e de seu Cristo, a quem o Pai constituiu Rei, para que domine de mar a mar e desde os rios até os confins do orbe das terras [Sl 72.8]. E de tal forma, em verdade, deve ele imperar, que, percutida só pela vara de sua boca, a terra toda, com seu poder de ferro e bronze, com seu resplendor de ouro e prata, ele a despedaçará como se outra coisa não fosse senão diminutos vasos de oleiro, na exata medida em que os profetas vaticinam acerca da magnificência de seu reino [Dn 2.34; Is 11.4; Sl 2.9].

Dizer a um monarca absolutista, como Francisco, que na verdade o único Rei por excelência, que domina de “mar a mar” é Jesus Cristo é um tremendo ato de coragem e fidelidade por parte de Calvino. Muitas vezes, na prática missionária, iremos nos deparar com questões culturais difíceis que demandarão muita coragem e fidelidade a Deus e à sua Palavra para que não calemos a verdade do evangelho. Às vezes, teremos que dizer a reis que de fato existe um Rei sobre ele, o qual domina a história, e a faz concorrer para o bem daqueles a quem Ele ama.

Aprendemos com esse prefácio algumas lições preciosas que podem e devem ser usadas pelos cristãos nos dias de hoje. Primeiramente, aprendemos que a nossa teologia deve brotar de um desejo de fazer as verdades bíblicas conhecidas daqueles que não a conhecem. Pregar, ensinar, escrever sobre a Bíblia, tudo isso deve ser com o objetivo de clarificar as verdades do evangelho ao pecador, ou para tornar mais madura a fé do crente.

Tal reflexão se faz necessária em nossos dias, em face às diversas discussões teológicas fúteis e sem embasamento bíblico, ou ainda em face a diversos pregadores que em vez de clarificarem Cristo aos seus ouvintes acabam o escondendo atrás de sua retórica, eloquência, ou vestimenta. O plano mestre de nosso ministério como teólogos (quer oficias ou não) deve ser o cumprimento das palavras de Jesus “ensinando-os a guardar tudo que lhes ordenei”.

Segundo, aprendemos aqui com Calvino que a fé deve ser defensiva, mas ao mesmo tempo ofensiva. O que quero dizer com isso é que não podemos nos deter somente na apologética (mesmo considerando-a importantíssima em meio a um mundo tão pluralista como o nosso), mas devemos pregar o evangelho aberta e claramente quer a reis ou a plebeus. Muitos esqueceram que não é por uma defesa coerente das verdades bíblicas que alguém chega à fé em Cristo, mas sim pela pregação clara do evangelho puro e simples de nosso Senhor Jesus. A igreja do Senhor se surpreenderia se ela se dispusesse a pregar mais o evangelho.

Que Deus presenteie a igreja brasileira com mais teólogos com um coração missionário e mais missionários com um coração teológico. E que em busca de tal objetivo possamos ter em Calvino um bom exemplo a ser seguido.

Trecho do eBook Calvino – amando a Deus e às nações

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