O chamado divino para missionários

Charles Spurgeon

“Depois disto ouvi a voz do Senhor, que dizia: A quem enviarei, e quem há de ir por nós? Então disse eu: Eis-me aqui, envia-me a mim” – Isaías 6.8

Irmãos e irmãs, os pagãos estão perecendo e só há um caminho de salvação para eles, pois só há um Nome dado debaixo do Céu entre os homens pelo qual eles devem ser salvos. Deus, na gloriosa unidade de Sua Natureza Divina está chamando mensageiros que irão proclamar aos homens o Caminho da Vida. A partir da densa escuridão meus ouvidos podem ouvir aquele som misterioso e Divino, “A quem enviarei?”. Se você apenas escutar com o ouvido da fé, você pode ouvir isso nesta casa hoje: “A quem enviarei?”.

Enquanto o mundo jaz sob a maldição do pecado, o Deus vivo, que não deseja que ninguém pereça, mas que venham a arrepender-se, está buscando mensageiros para proclamar a Sua misericórdia. Ele está perguntando, até mesmo em termos apelativos, por alguns que sairão para os milhões que morrem e contarão a maravilhosa história do Seu amor: “A quem enviarei?”.

Como que para tornar a voz mais poderosa pelo tríplice apelo ouvimos a sagrada Trindade perguntar: “Quem há de ir por Nós?”. O Pai pergunta: “Quem irá por Mim e convidará Meus filhos tão distantes a retornarem?”. O Filho pergunta: “Quem procurará para Mim, Minhas ovelhas resgatadas, mas desgarradas?”. O Espírito Santo pergunta: “Em quem residirei e através de quem falarei para que Eu possa transmitir vida às multidões que perecem?”. Deus, na unidade de Sua Natureza, exclama: “A quem enviarei?”, e na Trindade de Suas Pessoas, Ele pergunta: “Quem irá por nós?”. Felizes ficaremos, hoje, se respostas sinceras forem ouvidas nesta casa: “Eis-me aqui, envia-me a mim”. É nosso dever, de qualquer maneira, colocar muito solenemente a questão diante de vós, irmãos e irmãs em Cristo, e enquanto tentamos defender a causa de Yahwéh nós confiamos que o Espírito Santo possa estar aqui, dizendo a um e outro indivíduo, completamente desconhecidos para nós, “Separai-me a Saulo e Barnabé para a obra a que os tenho chamado”. Sim, que a convincente voz da chamada especial da graça possa chegar ao ouvido de alguns aqui presentes, para que respondam como o jovem Samuel e digam: “Eis-me aqui, pois tu me chamaste”. Em primeiro lugar, vamos, nesta manhã, considerar a visão da glória com referência à oferta de serviço feita pelo Profeta: a visão que ele viu. E em segundo lugar, a visão de ordenação que ele viu, e que foi mais do que uma visão, pois seus lábios foram tocados. E em terceiro lugar, vamos falar sobre a Voz Divina e concluir estendendo-nos sobre a resposta sincera.

I. Com reverência, e com toda a atenção de nossos corações, vamos contemplar A VISÃO DA GLÓRIA que Isaías viu. Era necessário que ele a visse para que pudesse ser trazido à  condição de máximo comprometimento da qual viria a consagração total expressa em “Eis me aqui, envia-me a mim”. Observe o que ele viu. Ele viu, primeiro, a suprema Glória de Deus. “Eu vi o Senhor”, diz ele, “assentado sobre um alto e sublime trono, e a cauda do seu manto enchia o templo”. Foi Jesus quem ele viu? Foi esta uma das antecipações de Sua futura Encarnação? Provavelmente sim, pois João escreve em seu 12º Capítulo, no verso 41: “Isaías disse isto quando viu a Sua Glória e falou dEle”, referindo-se ao Senhor Jesus Cristo. Não vamos, no entanto, insistir nesta interpretação, pois a palavra, “Senhor”, sem dúvida incluiu, por vezes, toda a Divindade e, portanto, a visão pode ter representado o próprio Senhor revelado de forma visível.

Quanto à Sua Essência absoluta, olhos não conseguem contemplar o Senhor, mas Ele escolhe fazer uma aparição de Si mesmo, aparecendo entre os homens de forma a ser compreendido pelos sentidos humanos. Agora, irmãos e irmãs, nós não sabemos de nada que fornecerá um motivo melhor para o trabalho missionário, ou para o esforço Cristão de qualquer espécie, além de um vislumbre da glória Divina. Este é um dos mais fortes impulsos que uma alma pode sentir. Vejam, ó crentes na Palavra Divina, neste dia o Senhor Deus, Yahwéh, não está destronado, mas assenta-se no Trono de Sua glória! Alguns não O conhecem e outros O negam e O blasfemam, mas Ele permanece Deus sobre todos, bendito para sempre!

Veja a paciência de Sua infinita majestade; Ele Se assenta em calma glória sobre o Seu Trono eterno. As nações se iram furiosamente e imaginam coisas vãs, mas, “Aquele que habita nos céus se rirá, o Senhor zombará deles”. Ainda são cumpridos Seus propósitos e Sua alma permanece em Sua serenidade. Ele é o mesmo e Seus anos não tem fim. Ele senta-Se como um Rei, observa, sobre um trono. Ele nunca renuncia a Sua soberania e domínio. Todas as coisas ainda sentem a Onipotência do reinado de Deus. “O Senhor tem estabelecido o Seu Trono nos céus e o Seu Reino domina sobre tudo”. As rebeliões dos homens podem abalar o Seu domínio firme? Não, mas fora do tumulto selvagem deles, Ele forma ordem e através da resistência mais violenta Ele executa Seus próprios propósitos!

Afinal de contas, o Senhor reina, regozije-se a terra, alegrem-se as multidões de ilhas! Mesmo assim, apesar de toda a confusão de guerra e toda a maldade dos homens nos lugares sombrios da terra, e as blasfêmias detestáveis dos gentios contra o Altíssimo, o Senhor Se assenta em um trono que jamais poderá ser abalado. Não é um simples trono, com alguma dignidade. É o “alto e sublime”. Não está apenas sobre todos os outros tronos por meio de um poder maior, mas sobre todos eles por meio de supremo domínio sobre eles, pois Ele é o Rei dos reis e Senhor dos senhores! Eu desejo, queridos irmãos e irmãs, que possamos ter um vislumbre da glória, poder e domínio que pertencem ao Altíssimo! Se assim fosse, embora certamente nos humilhássemos até o pó, se acenderia em nós uma santa indignação contra o fato dos homens buscarem outros deuses. Seríamos cheios de santa coragem contra essas divindades cegas, surdas e mudas, para as quais ainda seria uma grande honra receber nosso desprezo! Sentiríamos confiança no sucesso final da causa e do reino de Deus vivo.

Mesmo agora, enquanto Ele restringe Sua mão, Ele está sentado sobre um trono alto e exaltado e é até agora o Governador sobre as nações. O dia certamente chegará quando todas as nações contemplarão Seu Trono e curvar-se-ão diante dEle e Deus será visto como o Senhor sobre todos. O Deus a Quem servimos é capaz de dar a vitória para Sua própria causa. Aqui há um impulso para nós em todas as lutas por Sua causa e coroa. Se você optar por tomar o texto como referência ao Senhor Jesus Cristo, que deleite é para nós pensar que não há mais para Ele a coroa de espinhos e a lança cruel e a cuspida de desprezo, mas Aquele que inclinou a cabeça para morte deixou os mortos, para nunca mais morrer e ascendeu à mão direita de Deus, o Pai! Deus, tendo O exaltado soberanamente, agora O assenta sobre um trono alto e sublime. Essa, na verdade, é a origem da nossa comissão: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”. Porque todo o poder Lhe foi dado no Céu e na terra, portanto, vamos em frente e subjuguemos o povo debaixo de Seus pés. Oh, quando a Sua Igreja acreditará plenamente na glória de Seu Senhor e regozijar-se-á nela, para que Seu poder possa enchê-la, como Seu manto encheu o templo? Se nós não podemos contemplar Suas maiores glórias, que oremos para que Sua presença, pelo Espírito Santo, como a fumaça perfumada e as bainhas de Suas vestes resplandecentes, sejam conhecidas entre nós e nos encham de adoração a Ele. Os fundamentos se moveram em Sua augusta Presença? Que nossos corações sejam movidos, também, enquanto em humilde adoração nos curvamos diante dAquele que é o Senhor e Cristo!

Mas, então, Isaías viu, também, a corte do grande Rei. Ele viu os atendentes gloriosos que perpetuamente realizam homenagem, mui próximo ao Seu Trono. Ele diz: “Acima dele (ou melhor, acima dEle) estavam os serafins”, não implicando que os Seus pés descansavam sobre a terra, ou qualquer outra substância sólida, mas que eles estavam parados em torno e acima do grande Rei, suspensos no ar em um círculo, como um arco-íris ao redor do Trono de Deus, ou como guarda-costas ao redor do Trono da Majestade. Lá estavam eles, querendo saber como agradá-lO, com suas asas, prontos para qualquer missão e adorando enquanto esperavam. Esses serafins podem nos fornecer um padrão para o serviço Cristão; como o Trono de Deus torna-se o impulso para esse serviço, assim, que estes nos sirvam como modelo.

Eles habitam perto do Senhor e nós também devemos habitar. Ele é o seu centro e a sua felicidade, e assim Ele deve ser para nós. Mas eu especialmente noto que eles são ardentes, flamejantes, pois tal é o significado da palavra serafins, um termo aplicado em hebraico para as serpentes voadoras ardentes do deserto. Estes cortesãos do grande Rei eram criaturas de fogo, ardentes, brilhantes e refulgentes, eles O adoram, “que faz dos seus anjos espíritos, dos seus ministros labaredas de fogo”. Yahwéh, que é um fogo consumidor, só pode ser apropriadamente servido por aqueles que estão em fogo, sejam anjos ou homens. Daí a pergunta solene: “Quem dentre nós habitará com o fogo consumidor? Quem dentre nós habitará com as labaredas eternas?” (Isaías 33:14).

Ninguém pode fazer isso, somente o homem nas chamas do Amor Divino. Na Presença desse fogo que consome, não é possível que a tibieza ou a indiferença existam, seríamos totalmente queimados. Para atuar como cortesão diante do ardente Trono de Deus requer-se um espírito seráfico ou ardente, e se nos tornamos apáticos e sem alma, não seremos considerados dignos de ser empregados em missões Divinas. Portanto, que toda frieza do amor e do espírito adormecido seja removida. Que o Senhor nos faça, como João Batista, luzes ardentes e brilhantes! Estes cortesãos de Deus eram ardentes e são, também, retratados para nós para lembrar-nos que são apenas representações de coisas realmente invisíveis e vistas apenas em visão, como tendo seis asas. Tais são os Seus servos, cheios de movimento, cheios de vida!


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