Cidades – a fronteira missionária da igreja – Atos 17.16-34

Carlos del Pino
Série Caminho Missionário da Igreja

Não há como fugir dessa realidade: vivemos em uma realidade urbana! A urbe é o habitat natural de cerca de 80% da população mundial, enquanto que o restante vive, hoje, em função das cidades. Por todos os cantos do planeta as cidades se tornam para a igreja o seu campo missionário mais desafiador. Estamos falando em desigualdades econômicas, injustiças sociais, violências absurdas nas ruas e nas casas, medos inumeráveis, completa instabilidade no trabalho, estética como religião suprema, falta de perspectiva para os jovens e adolescentes, estabelecimento e expansão de novas doenças, competições escolares, rápidas transformações nas estruturas familiares, seres humanos definidos pelas leis de mercado e consumo, altivez acadêmica nos meios universitários, profunda solidão, relativização da ética e da verdade, compromisso último do indivíduo consigo mesmo, rejeições e abandonos… Queremos campo missionário mais vasto e desafiador?!

Atenas era uma importante cidade do mundo grego, muito orgulhosa de suas conquistas militares e políticas. Era uma cidade “universitária” que mantinha sua lendária tradição artística, literária e filosófica. Berço de grandes filósofos como Sócrates, Platáo e Aristóteles. Atenas era considerada como a capital cultural e intelectual do mundo. Ao mesmo tempo, era sede de grandes templos e do vigor religioso dos gregos, bem como comprometida com uma sexualidade depravada.

Atenas, como a cidade que era, foi palco da presença missionária da igreja através da atividade de Paulo. Da mesma forma, as cidades do nosso tempo, com as características peculiares de cada uma, são a fronteira missionária para o povo de Deus hoje. Diante disso, gostaria de destacar algumas atitudes de Paulo em Atenas que podem servir de referência pastoral-missionária para a igreja hoje.

1. Observar cuidadosamente (17.23)

“Andando pela cidade, observei cuidadosamente seus objetos de culto”.

A atitude de Paulo, declarada por ele mesmo, diante da religiosidade ateniense foi a de uma cuidadosa observação. Durante os dias de espera em Atenas (At 17.16) o apóstolo se dedicou a uma importante caminhada missionária na cidade: conhecer o melhor possível seu entorno socio-religioso e, consequentemente, relacionar suas observações à fé e teologia cristãs. O cuidado em observar, pesquisar e conhecer a situação de vida, além de ser uma atitude que exige o manuseio de instrumentos sociológicos e filosóficos, é fundamentalmente uma ação bíblica e teológica que leva a igreja à uma compreensão adequada da “alma” da cidade. Andar pela cidade, observando-a cuidadosamente é uma atitude pastoral-missionária na cidade.

2. Indignação com toda idolatria (17.16)

“Paulo ficou profundamente indignado ao ver que a cidade estava cheia de ídolos”.

Parece que durante sua observação o que mais prendeu a atenção de Paulo foi a idolatria dos atenienses. É como se a cidade estivesse “sob” os ídolos, imersa na idolatria, dependente dela em tudo. O curioso é que esta cidade idólatra era também a capital cultural do mundo. Isso parece indicar que o intelectualismo pode conviver bem com a idolatria. Da mesma forma, a marginalidade, a pornografia, a tecnologia, a avareza, as ideologias e a violência, entre outras coisas, também têm se demonstrado parceiros perfeitos da idolatria em nossas cidades. Isso porque os ídolos sustentam e justificam a opressão uma vez que eles não ouvem o clamor nem interferem na história, nem nos demandam. Ao contrário, os ídolos nos impedem de ouvir o clamor e de aceitar a demanda apresentada pelo Deus verdadeiro.

Paulo se indignou profundamente com essa situação de idolatria na cidade. Mas sua indignação não o manteve preso em um “inflamado discurso indignado”. Antes, por ser um sentimento bíblico legítimo, progressivo e ponderado de clamor pela justiça divina, essa indignação o conduziu, bem como à igreja hoje, a atitudes missionárias em favor da cidade. É por essa razão que o v.17 inicia com um “por isso”, mostrando que Paulo ultrapassou o discurso indignado e assumiu posturas práticas decorrentes de sua santa indignação. Essa indignação, portanto, é uma verdadeira atitude pastoral-missionária em nossas cidades.

3. Arguir e ser arguido ( At 17.17-18)

“Por isso, discutia na sinagoga… bem como na praça principal todos os dias… alguns filósofos começaram a discutir com ele”.

A idolatria observada na cidade e sua indignação levaram Paulo a argumentar com os atenienses e judeus residentes ali. Ele argumentava a favor da fé cristã e era arguido acerca de sua fé. Na verdade, o que se estabeleceu naquele contexto foi um diálogo argumentativo onde a fé era apresentada e, ao mesmo tempo, questionada. Paulo discursava e debatia sobre a fé cristã com judeus e prosélitos nas sinagogas, com transeuntes na praça e com filósofos. Isso mostra a versatilidade e o preparo desse missionário no contexto plural de Atenas.

Esse processo foi, então, amplamente apologético. A verdadeira apologia não é aquela que vê a fé como “cristianismo na retranca”, mas aquela fé que se abre sem medo para ser examinada, aquela que leva o cristianismo a se preocupar com os variados dilemas da cidade e que invade seus centros de vida social (shoppings, escolas, universidades, parques, teatros, restaurantes, TVs, igrejas, etc) com as “boas novas de Jesus e a ressurreição”. Podemos, então, dizer que no desafio missionário urbano a apologética como diálogo argumentativo é uma ação profundamente pastoral-missionária.

04. Conhecer o pensamento filosófico de seus dias (17.28-29)

“Como disseram alguns dos poetas de vocês: ‘Também somos descendência dele”.

Assim, visto que somos descendência de Deus…” : Ao fazer uma citação de Arato (filósofo estóico), Paulo demonstra estar em dia com a filosofia reinante entre seus ouvintes. Ele era um estudioso e conhecedor do pensamento predominante de sua época. Dessa forma, visto que entendia e manejava bem o pensamento filosófico, ele podia argumentar com a cidade a respeito do evangelho de Cristo dentro de parâmetros que faziam sentido aos seus ouvintes. Além disso, o pensamento filosófico serviu como instrumento para a argumentação teológica do apóstolo em sua apresentação da fé cristã. Nesse sentido, aprendemos com Paulo o valor de se conhecer muito bem o pensamento filosófico dos nossos dias e sua utilização missionária teologicamente contextualizada. Conhecer bem a filosofia e utilizá-la com sensibilidade teológica são atitudes elementares na pastoral-missionária em nossas cidades modernas.

05. Respeito pela religiosidade do outro (17.23):

“Atenienses, vejo que em todos os aspectos vocês são muito religiosos… encontrei um altar com esta inscrição: AO DEUS DESCONHECIDO.”

Paulo não ataca frontal e agressivamente a idolatria da cidade que tanto o indignou. Ao contrário, ele elogia a religiosidade dos atenienses, tomando como tema e referência em sua mensagem a existência de altares dedicados a deuses que eles não conheciam, possivelmente para aplacar a ira de alguns deus que se sentisse ofendido com algo cometido por eles. A atitude do apóstolo se caracterizou por respeito pela religiosidade do outro, bem como por gentileza na abordagem de um tema que era controverso à fé cristã. Aprendemos com o apóstolo que o respeito pelas opiniões e pela religiosidade do outro no contexto da pluralidade religiosa que caracteriza a cidade é uma sábia atitude pastoral-missionária.

06. Anúncio contextualizado (17.23)

“Ora, o que vocês adoram, apesar de não conhecerem, eu lhes anuncio”.

Contextualização é infinitamente mais do que adotar certos costumes (vestuário, alimentação e idioma) do outro. Contextualizar é uma ampla tarefa hermenêutica de compreender a palavra de Deus e transportar seu sentido para o contexto atual ou para o contexto do outro, causando agora o mesmo impacto que causou em seus primeiros ouvintes. O conteúdo da mensagem pregada por Paulo no areópago (17.24-31) estava muito bem aplicado àquele contexto. Mas o que Paulo propõe anunciar aos atenienses era sobre um Deus que embora eles o adorassem, não o conheciam. Por uma lado, Paulo se baseia na religiosidade ateniense de forma respeitosa e gentil e, por outro, ele demonstra coragem e firmeza ao propor anunciar algo que era desconhecido pelos famosos filósofos e intelectuais gregos. Em ambas atitudes vemos que Paulo sabia muito bem manejar a arte de contextualizar o sentido da palavra de Deus. Podemos, então, encarar o anúncio contextual da palavra de Deus como parte essencial da mensagem pastoral-missionária da igreja na cidade.

07. Conteúdo da mensagem (17.24-31)

É muito instrutivo e iluminador para a igreja em estado de missão nas cidades modernas, observar que o conteúdo da mensagem contextualizada de Paulo no areópago cumpriu seu objetivo ao abordar temas relevantes para aquele ambiente específico. Alguns irmãos pensam que as palavras de Paulo em 1Co 2.1-5, afirmando que quando chegou em Corinto sua pregação não consistiu de persuasão ou sabedoria, mas de demonstração do poder do Espírito, é uma referência à sua mensagem dias antes no areópago de Atenas. Entretanto, sua mensagem em Atenas, embora tenha incluído a citação de um filósofo, foi também no poder do Espírito, visto sua contextualização ao ambiente filosófico e as conversões que decorreram dela. Além disso, sabemos que aos Corintos ele também citou o filósofo Menander (1Co 15.33).

O que devemos observar é que sua mensagem procurou apresentar o Deus verdadeiro, em contraste com a imensidão de deuses e idolatria dos gregos, de forma a atender às demandas e carência do verdadeiro Deus existente na alma e na mente desses mesmos gregos. Assim, sua mensagem apresenta Deus como o criador de todo o universo (“o Deus que fez o mundo e tudo o que nele há – 17.24), como o senhor desse universo (é o Senhor dos céus e da terra” – 17.24), como aquele que não se sujeita à nenhum tipo de idolatria (“e não habita em santuários feitos por mãos humanas” – 17.24; “não devemos pensar que a Divindade é semelhante a uma escultura de ouro, prata ou pedra, feita pela arte e imaginação do homem” – 17.29), como o mantenedor de toda a vida (“ele mesmo dá a todos a vida, o fôlego e as demais coisas” – 17.25; “nele vivemos, nos movemos e existimos” – 17.28), como o governante de todas as nações (“de um só fez todos os povos, para que povoassem toda a terra, tendo determinado os tempos anteriormente estabelecidos e os lugares exatos em que deveriam habitar. Fez isso para que os homens o buscassem…” – 17.26-27), como o Pai (criador) dos seres humanos (“somos descendência dele” – 17.28-29), como o juiz supremo (“Deus não levou em conta essa ignorância, mas agora ordena que todos, em todos os lugares, se arrependam. Pois estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça” – 17.30-31), como aquele que se encarnou em Jesus Cristo, o ressurreto (“por meio do homem que designou… ressucitando-o dentre os mortos” – 17.31). A mensagem da igreja na cidade, ao responder às suas demandas com fidelidade ao evangelho de Cristo, é o âmago da pastoral-missionária do povo de Deus.

08. Formação da comunidade de fé (17.32-34)

“alguns dele zombaram… alguns homens juntaram-se a ele e creram”.

A mensagem e a presença cristãs na cidade exigem respostas claras dos homens e mulheres. Muitos, sem dúvida dizem “não”, mas outros respondem à voz de Cristo e dizem “sim”. Dessa forma, a comunidade de fé (igreja) vai se formando ao longo da história, assumindo a fé nos diâmetros histórico-filosóficos de seu entorno e em resposta a ele, servindo a Deus e acolhendo os demais seres humanos, vivendo e compartilhando a fé no verdadeiro Deus e seu Cristo ressurreto no contexto conturbado e complexo dos centros urbanos humanos. É aí que a fé e a missão são vividas com plenitude e crescimento. A formação gradativa, relevante e transformadora da comunidade de fé é o alvo imediato da ação pastoral-missionária em nossas cidades!

Ao olharmos ao nosso redor e ao redor do nosso mundo, encontramos cidades de todos os tamanhos, com todos seus diversos problemas e pecados, com suas muitas artes e belezas, com sua carência infinita de Deus. Lendo a experiência de Paulo nos sentimos impulsionados a levar o evangelho a cada dimensão de vida humana que caracteriza nossas cidades. Aí está a maior fronteira e desafio para a igreja em missão.


Conheça essa obra sobre missões do autor:

Deixe uma resposta