Coisa nova

Fábio Ribas
Série Dias Índios

Assim que cheguei à aldeia, fui morar na casa do cacique. Ainda não haviam construído a minha casa, conforme eles mesmos haviam prometido. E, pelos próximos seis meses, eu ainda permaneceria assim. Contudo, como dizem por aí: há males que vem para o bem. Se minha esposa e minhas filhas ainda ficariam sem poder vir à aldeia por todo aquele tempo, por outro lado, Deus havia preparado um momento todo especial para aprendizado da língua e da cultura na própria casa do cacique.
Ajeitei as minhas coisas e prendi minha rede ao lado da rede dele. Antes de começar a participar do moitará (sistema de trocas de mercadorias da cultura), um pensamento excitado ocorreu-me: “Ai, Deus, cheguei aqui… Estou tão agitado… É aqui mesmo que o Senhor quer que eu esteja? Todo mundo falando comigo essa língua bela, mas ainda estranha para mim… Fala o Senhor comigo, de uma maneira que eu entenda, por favor!”. Então, virei-me para participar do moitará que já acontecia bem atrás de mim.

Foto do arquivo do autor
Foto do arquivo do autor

O povo ria e conversava alegre. Eu não entendia nada e ficava só olhando e ouvindo os gritos de “U-HUUU!!!”. Foi quando um indígena entrou na casa do cacique e entregou para ele um calendário de 2009 com uma lindíssima arara vermelha na capa. O cacique pendurou o calendário bem na frente da porta de modo que era a primeira coisa que alguém via ao entrar na casa dele. Aproximei-me para olhar aquela linda arara, quando, em letras pequenininhas, naquela foto inesperada, vi escrito no calendário: “Eis que faço coisa nova, que está saindo à luz; porventura, não o percebeis? Eis que porei um caminho no deserto e rios, no ermo” Is 43:19.
Depois disso, em todos aqueles meses na casa do cacique, logo de manhã, eu já corria para aquele calendário não para ver a exuberante arara, mas para estremecer diante dAquele a quem eu sirvo: o Deus vivo, que fala comigo.

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