Com o garfo ou com os dedos?

Cácio Silva
série Culturas

Etnocentrismo e Empatia Cultural

Um representante da sociedade ocidental recepcionava um estudante indiano em um restaurante. Alarmado por comentários de que os indianos não usam talheres para suas refeições, perguntou com ar de crítica e reprovação: “Na Índia, vocês realmente comem com os dedos?” O indiano prontamente lhe respondeu: “Você sabe, na Índia vemos as coisas de maneira diferente. Eu sempre lavo minhas mãos com cuidado antes de comer e só uso minha mão direita. Além disso, meus dedos nunca foram levados à boca de ninguém. Quando olho um garfo ou uma colher, fico sempre pensando que muitas outras pessoas estranhas já os colocaram na boca!”

O ocidental fez um julgamento baseado nos seus pressupostos culturais acerca dos bons modos e da higiene. O indiano respondeu igualmente baseado em seus pressupostos culturais, que o fazia ver o ocidental de igual forma inadequado e anti-higiênico! Cada cultura possui seus próprios critérios para avaliar o feio e o belo, o gentil e o grosseiro, o educado e o mal-educado. O que nos leva a julgar a cultura do outro como inapropriada é o sentimento de etnocentrismo. O antropólogo brasileiro Everaldo Rocha resume etnocentrismo como a visão de mundo onde o grupo do “eu” está no centro em relação aos grupos dos “outros” que estão na periferia. Para o antropólogo e missiólogo Paul Hiebert, etnocentrismo tem a ver com sentimentos de superioridade e com a tendência humana de reagir de forma defensiva sempre que questionado. Quando nossa cultura é confrontada por outra, nossa defesa é evitar a questão, concluindo que somos melhores e mais civilizados.

Isso acontece não apenas no campo missionário, mas no nosso dia-a-dia também, quando assistimos com olhar de reprovação a um documentário sobre indígenas, por serem “sujos e preguiçosos”; quando lembramos dos africanos com pena por serem “primitivos e selvagens”; quando comentamos pejorativamente sobre o “primo caipira” que vive no interior, por ser desajeitado, sem cultura e inadequado.

Esquecemos que os indígenas também nos acham estranhos, neuróticos com limpeza e gananciosos, ávidos por riquezas, devido à nossa forma estressante de trabalho; esquecemos que muitos africanos nos vêem como seres de um outro mundo, onde máquinas ocupam lugares de pessoas, onde algumas pessoas são esquecidas nas ruas da amargura, outras são enjauladas como animais selvagens e animais são tratados como pessoas; esquecemos que o “primo jeca” do interior nos vê como boçais metidos a besta, que usam um português correto para muitas vezes humilhar e menosprezar o iletrado.

A solução para o etnocentrismo é a empatia. Esta também está ligada aos sentimentos, manifestando-se como a atitude intencional de procurar sentir o que sentiria o “outro” caso estivéssemos em sua situação. O sentimento de empatia nos possibilita ver a cultura do outro como “diferente” e não como inapropriada. A empatia nos leva a buscar compreensão ao invés de reprovação. Claro que nem todo “diferente” é necessariamente aceitável e bom. Toda cultura tem suas mazelas, julgadas e condenadas pela atemporal e supracultural Palavra de Deus. Mas a empatia cultural nos ajuda, de forma mais humilde e cristã, a olhar o “outro” como gente e sua cultura como um bem precioso. O Mestre da Galiléia tinha empatia e só a obteremos quando tivermos “o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus”.

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