Consultório de pajé

Cácio Silva
série Culturas

Em Busca do que Funciona

Na pequena cidade onde temos nossa base, no interior do Amazonas, tem apenas um hospital. Por ser hospital militar, possui uma estrutura relativamente boa. Como em qualquer outro hospital, ao entrar vemos consultórios médicos, salas de internação, setor de enfermaria e setor administrativo. Mas, neste caso, tem algo inusitado: um consultório para o pajé!

Os indígenas somam cerca de 80% da população da cidade, sendo muitos recém-chegados das comunidades (“aldeias”) do interior. A maioria fala um português apenas de sobrevivência, comunicando mesmo na sua língua materna. Nutrem certa desconfiança em relação à técnica branca de cura (hospitais, médicos), confiando mesmo nas suas técnicas tradicionais (pajés, benzedores). Assim, muitos vão ao hospital procurar o pajé ao invés do médico.

Qual foi a nossa surpresa ao descobrir que alguns indígenas, que se identificam como crentes, também procuram o pajé quando a enfermidade bate às suas portas. Temos aqui algumas etnias alcançadas pelo evangelho nos seus territórios tradicionais há cerca de cinco décadas atrás, mas muitos representantes destas etnias apresentam hoje um forte quadro de sincretismo e nominalismo religioso, apesar de continuarem se identificando como crentes. Em especial os que migraram para a cidade e não se adaptaram a nenhuma igreja de “branco”.

Um deles me esclareceu o fato: “pastor, eles procuram primeiro por oração, mas se esta não funciona, então procuram o pajé!” Por trás desta atitude tem uma compreensão funcional da religião. Nossa cultura ocidentalizada é orientada pelos conceitos de certo e errado e nossa prática religiosa também segue o mesmo viés. Procuramos compreender o que a Bíblia diz ser certo e o que diz ser errado. Julgamos comportamentos por esta ótica e assim concluímos quem é culpado e quem é inocente. No entanto, muitas culturas não enxergam o mundo assim. O mais importante da vida é a própria sobrevivência. Tudo gira em torno de solucionar os problemas do dia-a-dia e, logo, o mundo é percebido de forma funcional.

Nesta perspectiva, o que é importa não é o certo ou errado, mas o que funciona ou não funciona. Se pessoas se convertem e não são bem discipuladas, entenderão a oração como algo funcional. Apenas um substituto de ritos mágicos onde se manipula elementos naturais, faz gestos e usa palavras específicas para obter favores do divino. É como uma fórmula, que quando feita corretamente, produz o resultado desejado. Adamson Hoebel e Everett Frost comentam que o mágico age com uma confiança semelhante ao estudante de laboratório que basta seguir corretamente as instruções do manual para obter o resultado esperado.

Desta forma, se a oração não tem o resultado esperado, procura-se o pajé, pois afinal o que importa é descobrir o que funciona e obter a solução do problema. Enquanto pensava nisto, lembrei-me que muitas vezes nossas orações também são funcionais. Aprendemos ou criamos fórmulas para fazer a oração funcionar, meios de obter a resposta positiva de Deus, formas de torcer o braço de Deus até que Ele nos conceda o que queremos. Fui criado ouvindo que “a oração move a mão de Deus”, mas hoje percebo que a oração move mais o nosso próprio coração em direção a Deus.  A poderosa mão de Deus não pode ser manipulada, nem mesmo pela oração. Gosto do parecer do James Packer quando diz que a oração é, em última análise, um instrumento de humilhação. Quando oramos não estamos manipulando o divino, mas sim, reconhecendo nossa pequenez e insuficiência, apelando para Aquele que é grande e suficiente.

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