Crescimento integral da igreja – At 2.42-47

Carlos del Pino
série Caminho missionário da igreja

“E o Senhor lhes acrescentava diariamente os que iam sendo salvos” – At 2.47

“Oi colega! E a sua igreja como vai? Está crescendo?” Possivelmente uma das principais marcas do ministério cristão nos nossos dias seja a ansiosa busca pelo crescimento numérico da igreja local. Esta tem sido uma característica tanto do ministério pastoral em igrejas já organizadas em nosso país, como do ministério missionário de plantação de igrejas dentro e fora do Brasil (se é que, de fato, podemos dizer que sejam dois ministérios diferentes!).

Na centralidade que o crescimento numérico tem assumido no ministério cristão torna-se comum que pastores e missionários se dediquem a buscar, fora da própria vida da Igreja, elementos que promovam esse crescimento numérico. É uma busca por metodologias e estratégias que, comprovadamente, já se consagraram como grandes sucessos em outras latitudes. Normalmente, nessa busca por métodos infalíveis de crescimento numérico, corremos o risco de desviar os olhos da Palavra de Deus e concentrar nossa atenção nos resultados numéricos estabelecidos e esperados por nós e por todos.

Por outro lado, devemos ter muito claro em nossa mente que o crescimento numérico não pode ser a dimensão única do crescimento da Igreja. A Igreja cresce numericamente na mesma proporção e na medida em que outras dimensões crescem de forma integrada e integral. Diante de nós, então, permanentemente, prevalece o seguinte dilema: o crescimento legítimo da Igreja é fruto de estratégias bem elaboradas e planejadas ou é o reflexo de uma vivência cristã sadia e crescente?

Podemos ver esse dilema sendo resolvido claramente no texto de At 2.42-47. Embora não haja dúvidas quanto ao lugar das metodologias bem elaboradas, vemos a crescente importância que lhes são atribuídas como a chave do sucesso para o crescimento da igreja, a ponto da atual missiologia estar sofrendo o domínio de uma espécie de “metodologismo”. Entretanto, se estivermos buscando um legítimo crescimento para as nossas igrejas, sejam as já estabelecidas ou as que estão sendo plantadas no Brasil e no exterior, é fundamental que olhemos para o texto em questão. Vejamos, então, algumas dimensões em que a Igreja necessariamente deve crescer.

1. Crescimento litúrgico:

“Eles se dedicavam ao ensino dos apóstolos e à comunhão, ao partir do pão e às orações… Todos os dias continuavam a reunir-se no pátio do Templo” (vv.42, 46). A dimensão da vida cúltica ou litúrgica na qual todos juntos estejamos em constante celebração e louvor a Deus (v.47) deve estar em permanente processo de crescimento. O texto é claro ao mostrar que o crescimento da vida de celebração e liturgia da Igreja deve se caracterizar por um engajamento intencional e persistente de cada cristão no ensino dos apóstolos, tornando a Palavra de Deus central para nossas vidas. Esta centralidade do ensino dos apóstolos é validada pelos sinais e prodígios que eles realizavam (v.43). Caracteriza-se, também, por um compromisso consistente de comunhão e responsabilidade mútua entre nós, que se reflete tanto na celebração da Santa Ceia como nas orações.Esta dimensão litúrgica do crescimento da Igreja a leva a desenvolver-se gradativamente no seu relacionamento comunitário com Deus, buscando a partir dessa experiência de fé um crescimento que se extende a todas as possíveis esferas da vida interna da Igreja.

2. Crescimento pessoal:

“Todos estavam cheios de temor” (v.43). O temor é um elemento que deve ser preservado em nosso crescimento pessoal diante de Deus. Temer a Deus deve ser considerado como o princípio fundamental para um relacionamento adequado com Deus e um crescimento sadio do nosso conhecimento de Deus (Pv 1.7). Temer o Senhor nos preserva de querer pecar contra Deus e contra o próximo, pois conhecemos suficientemente bem sua justiça e sua misericórdia, além de direcionar com segurança e pautar com a justiça as nossas decisões e atitudes ao longo da vida. O nosso crescimento em termos de comunhão e relacionamento pessoal com Deus é uma dimensão fundamental do crescimento de toda a Igreja.

3. Crescimento comunitário:

“Os que criam mantinham-se unidos e tinham tudo em comum… partiam o pão em suas casas, e juntos participavam das refeições, com alegria e sinceridade de coração” (vv.44, 46). Crer em Cristo, manter-se unido a outros que também crêem e ter tudo em comum com eles, bem como abrir nossas casas, tomar juntos as refeições com um coração alegre e sincero são elementos que formam uma dimensão muito importante da fé cristã, e da própria vivência e crescimento eclesial.

Como Igreja é necessário crescer de forma sincera em nossos relacionamentos, fortalecendo nossos vínculos através da unidade e do compartilhar das nossas vidas e bens. Nossa vivência comunitária como povo de Deus se desenvolve e cresce à medida que fortalecemos os vínculos espirituais e fraternos que nos unem e nos comprometemos uns com os outros diariamente.

4. Crescimento diaconal:

“Vendendo suas propriedades e bens, distribuíam a cada um conforme a sua necessidade” (v.45). O mais provável é que esta prática de vender os bens e distribuir o seu produto não tenha sido uma prática generalizada naquele tempo, pois esse fato é mencionado muito poucas vezes no Novo Testamento, além de que muitos cristãos eram de origem humilde.

Entretanto, o “tinham tudo em comum” levou a Igreja a assumir posições muito arrojadas em sua dimensão de vida diaconal e a crescer nesse sentido. Eles cresceram em sua preocupação e em seu envolvimento concreto com as necessidades dos demais irmãos. Eles aprenderam a dividir em partes iguais e a distribuir em todos de forma proporcional à necessidade de todos. Nesse sentido, devemos crescer diaconalmente levando sempre em consideração os recursos que temos e que podemos levantar como uma forma de Deus suprir as necessidades diárias de todos nós.

5. Crescimento de credibilidade:

“E tendo a simpatia de todo o povo” (v.47). Esta é uma dimensão fundamental do crescimento da Igreja, pois a projeta de forma relevante e direta para dentro da sociedade. A simpatia ou a graça de todo o povo para com a Igreja não se deve, simplesmente, por ver o quão bondosos e gentis os cristãos são entre si. A graça do povo é fruto de uma ação concreta da Igreja que chega de forma abençoadora até ele. O texto não descreve objetivamente como se dá essa ação da Igreja para com a sociedade, mas observamos pela estrutura do próprio texto que a presença de uma comunidade litúrgica que valoriza o crescimento pessoal, o relacionamento comunitário e o cuidado com os necessitados, inevitavelmente atinge a sociedade com ações concretas que aliviam seu sofrimento, demonstram o amor redentor de Deus e gera uma necessária credibilidade. Crescer nesta dimensão é um processo que deve ser constante na dinâmica eclesial.

6. Crescimento missional:

“E o Senhor acrescentava diariamente os que iam sendo salvos à Igreja” (v.47). A adição numérica de novos discípulos à Igreja deve ser esperada por nós por ser uma das dimensões em que a Igreja, de fato, deve crescer. É muito significativo observar que, até então, o texto atribui todas as ações realizadas aos próprios discípulos. Agora, ao se tratar da agregação de novos crentes ao Corpo de Cristo, a ação é atribuída a Deus. Entretanto, não podemos dicotomizar entre um grupo de atividades realizadas pelos homens e outras realizadas por Deus. Na verdade, as ações humanas e a ação divina estão em perfeita harmonia aqui neste texto. São realidades que se completam e se inserem umas nas outras. Além disso, é justamente através de vivência completa da Igreja que Deus vai levando os homens a compreenderem e se renderem ao seu evangelho. Portanto, isso implica em que a Igreja deve crescer de forma integral e constante em sua dimensão missional e evangelística, ciente de que tanto pela proclamação (em todas as suas formas), como pela vivência litúrgica, pessoal, comunitária, diaconal e de credibilidade (em todas as suas formas), Deus lhe acrescenta homens e mulheres através uma conversão genuína.

No afã de ver a Igreja crescer numericamente temos corrido o sério risco de negligenciar um ministério pastoral e missionário que seja realmente integral e bíblico, passando a correr atrás de promessas metodológicas de sucesso pastoral e missionário que lotam nossas mesas e enchem nossos olhos de ganância, deixando de lado a verdadeira missão de Cristo para assumirmos a postura de executivos bem sucedidos da religião. É necessário parar diante de Deus e de sua Palavra para repensar em confissão nossos ministérios e para redireciona-los à luz da vontade revelada do nosso Senhor.

Busquemos humildemente o crescimento integral da Igreja!

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