Crises e sucessos na jornada missionária – At 16.5-11

Carlos del Pino
Série Caminho Missionário da Igreja

Todos nós passamos por períodos de crises. A crise, a decepção e o fracasso acompanham a vida humana em praticamente todas as suas dimensões, à semelhança das vitórias e sucessos. Como servos de Deus também não estamos livres de enfrentar as dificuldades comuns aos seres humanos e, de forma específica, passamos por certas lutas relacionadas às posturas assumidas em relação à fé (1 Pe 4.12-19).

Em sua jornada missionária, a igreja – povo de Deus (não apenas seus obreiros e missionários!), passa também por momentos em que crises e sucessos se alternam. À vezes, nos períodos de crescimento, ficamos com a impressão de que as dificuldades foram totalmente vencidas e não voltarão mais. Já nos períodos de dúvidas, crises ou fracassos, perdemos a motivação e nos guiamos pelas glórias do passado ou pelos sucessos dos demais. Parece que, em ambas as situações, não vemos com clareza a história dos caminhos de Deus refletidos em sua palavra.

Como igrejas, obreiros e famílias cristãs, vivemos constantemente crises e sucessos na jornada missionária que recebemos de Deus. Nossa vivência missionária e ministerial é, freqüentemente, marcada por dúvidas e certezas, crises e vitórias, fracassos e sucessos. E, ao longo dessa jornada missionária, é de fundamental importância encontrar nos parâmetros da palavra de Deus a sustentação para que não desanimemos por completo com as crises, nem nos tornemos triunfalistas com os sucessos. É muito importante encontrar nas crises e sucessos a ação e os propósitos de Deus para nossa jornada missionária e ministerial.

A narrativa que encontramos em At 16, entre outras coisas, nos auxilia de forma especial nesse sentido. Após o Concílio realizado em Jerusalém (15.1-21), o envio da carta de orientação do Concílio aos cristãos gentios (15.22-35) e a resolução do sério desentendimento que separou Barnabé de Paulo (15.36-41), o texto narra a partida de Paulo e Silas retornando às igrejas para fortalece-las (15.40-41) e para instruí-las quanto às decisões do Concílio de Jerusalém (16.4). O início dessa segunda viagem missionária foi marcado por alegrias, reencontros e vitórias. Vemos que esse conjunto de ações pastoral-missionário realizado por Paulo, Silas e Timóteo (16.1-3) foi marcado por muito sucesso: “assim as igrejas eram fortalecidas na fé e cresciam em número cada dia” (16.5). Na verdade, as palavras do v.5 representam a vitória com que essa fase do trabalho pastoral-missionário de Paulo e sua equipe foi completada.

Após essa fase de vitória e sucesso, a equipe de Paulo perambulou por uma extensa região (Frigia e Galácia) buscando oportunidades concretas, dadas por Deus, “de pregar a palavra na província da Ásia”, mas foram impedidos pelo Espírito Santo (16.6). Foram até a fronteira da Mísia, tentaram entrar na Bitínia, deram a volta pela Mísia até chegarem a Trôade (16.7-8). Toda essa andança em busca de definições e oportunidades ministeriais, no mínimo, tomou-lhes um enorme tempo e custou-lhes investimento em viagens, hospedagens e alimentação.

Mas, além disso, certamente essa situação os levou a diversas indefinições, a “tentativas e erros” e ao cansaço. Ligado a isso, notamos que, após a fase de tantas vitórias e sucessos, Paulo e sua equipe estavam cientes de que eram impedidos de pregar a palavra pelo “Espírito Santo” (16.6) ou pelo “Espírito de Jesus” (16.7). O que haviam feito de errado? Por que isso estava acontecendo justamente com eles que deixaram tudo e se dedicaram de corpo e alma à obra missionária?

Certamente não compreendiam com clareza as razões, os porquês e os propósitos de Deus com tudo aquilo. De uma fase de muito sucesso passaram a viver uma crise!

É muito edificante observar que eles associaram as várias circunstâncias adversas que os impediram de atuar naquelas províncias (nem sabemos que adversidades foram aquelas!) com uma ação específica de Deus. Não se contentaram em analisar os impedimentos como meras dificuldades humanas ou como se fosse uma perseguição de satanás tentando impedi-los de realizarem a obra de Deus. Ao contrário, quando associaram a crise com a ação de Deus fizeram uma leitura teológica adequada de todo o contexto, procurando a ação de Deus nos eventos históricos e humanos. Nesse sentido, produziram uma teologia que tanto respondeu àquela demanda específica, como a transformou de forma qualitativa. De uma fase de muito sucesso passaram a viver uma crise. E na vivência da crise se encontraram com Deus e leram a situação pelos olhos divinos: não foram impedidos por elementos humanos, mas pelo próprio Deus.

Na crise estavam sensíveis ao redirecionamento de seus ministérios e à transformação de suas prioridades. A crise ou a provação veio da parte de Deus como uma forma de levá-los trazê-los para as prioridades de Deus naquele determinado momento histórico. E os missionários sabiam disso! Não se entregaram ao fatalismo, tentaram entrar em várias regiões demonstrando dessa forma que reconheciam que Deus dirigia soberanamente suas vidas. Estavam em busca da vontade de Deus para aquele momento de suas vidas e de seus ministérios. E o próprio Deus os guiou através do sucesso e da crise!

Em Trôade, “durante a noite Paulo teve uma visão…” (16.9). A visão desse macedônio suplicando ajuda foi a resposta final para a crise, foi o elemento que faltava para o término daquele processo teológico de avaliação dos impedimentos enviados por Deus. Prepararam-se para partir “imediatamente” para a Macedônia, “concluindo que Deus nos tinha chamado para lhes pregar o evangelho” (16.10). Essa conclusão a que Paulo e seus companheiros chegaram indica que realmente havia entre eles um amplo diálogo teológico em busca da vontade de Deus e de uma compreensão mais ampla de suas próprias vocações.

O fim da crise trouxe, em primeiro lugar, o crescimento no relacionamento deles com Deus. Cresceram na compreensão da forma como Deus age na história humana Cresceram na paciência que precisavam ter consigo mesmos e com os colegas de ministério em tempos de provações. Cresceram na capacidade de abordar teologicamente o conceito de missão e a relação existente entre igreja, mundo e os propósitos de Deus. Cresceram no entendimento de suas próprias vocações.

O fim da crise também trouxe uma nova dimensão de trabalho missionário. Compreenderam que a vocação ou o chamado de Deus está restrito basicamente ao que se deve fazer, “pregar-lhes o evangelho” (16.10), mas não está restrito ao “onde” ou “como” fazer. “Há um só Senhor e um só evangelho, embora exista uma ampla variedade de maneiras de se realizar a obra de evangelização.” Ou seja, sabiam o que deveria ser feito e estavam certos de que poderiam fazê-lo em qualquer lugar do mundo e em qualquer circunstância. Não se iludiam com as “regiões e alvos prioritários da missão da igreja”, nem criam que Deus os havia chamado especificamente para trabalharem com este ou aquele povo específico. Estavam livres para Deus dirigir suas vidas e seus ministérios. Estavam livres para servir!

Com o fim da crise se dedicaram à ação concreta. “Preparamo-nos imediatamente para partir” (16.10), “partindo de Trôade, navegamos diretamente para…” (16.11). Uma nova ação missionária foi impressa em suas vidas. Definiram trabalhar em Filipos por ser ”colônia romana e a principal cidade daquele distrito” (16.12). Sabemos que os relatos registrados ao longo do capítulo mostram apenas alguns fatos ocorridos durante o período em que estiveram em Filipos: conversões em meio a sofrimentos e adversidades. Entretanto, o mais importante dessa narrativa são as expressões que marcaram tais acontecimentos: “uma das que ouviam… o Senhor abriu seu coração para atender à mensagem” (16.14), “no mesmo instante o espírito a deixou” (16.18), “estavam orando e cantando hinos a Deus, e os outros presos os ouviam” (16..25), “que devo fazer para ser salvo?” (16.30), “e pregaram a palavra de Deus” (16.32), “foram batizados” (16.33), “e com todos os de sua casa alegrou-se muito por haver crido em Deus” (16.34), “se encontraram com os irmãos e os encorajaram” (16.40).

Estas expressões indicam que, em meio às provações sofridas, o ministério missionário se desenvolveu de forma abençoada e sólida, com o estabelecimento de uma nova comunidade de fé e com a chegada da igreja em terras européias. Houve, sim, momentos de crise com resistência e prisão. Uma crise diferente da anterior que fora marcada por indefinições de campo ministerial. Agora, a crise vem simultaneamente com a bênção da pregação da palavra, da conversão de famílias e da formação de uma nova igreja.

Em sua jornada missionária a igreja não pode se ver abatida com as diversas e constantes crises que lhe chegam, nem pode se considerar “suprema” pelos sucessos e vitórias alcançadas. Entre crises e sucessos precisamos ser sensíveis à voz do Senhor que redireciona nossos ministérios e transforma nossas prioridades de acordo com suas intenções salvadoras eternas. Dessa forma, precisamos crescer na compreensão da vocação da igreja e das nossas próprias vocações pessoais. Crescer no relacionamento com Deus, vislumbrando sua ação salvadora na história humana.

Crises e sucessos na jornada missionária: sigamos com fé na missão de Deus!

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