“E ele nunca mais nos respondeu!”

Cácio Silva
série Culturas

A figura do Deus ocioso nas culturas indígenas

Nas histórias dos Yuhupdeh do noroeste da Amazônia, Saah-Säw é o ser mítico organizador do universo. Nostalgicamente eles contam seus mitos das origens, nos quais, num tempo primevo, Saah-Säw vivia numa grande pedra e todos os Yuhupdeh em volta da mesma. Sempre que alguém necessitava de algo, se aproximava da pedra e clamava por Saah-Säw. Ao ouvir o clamor, ele abria a janela da sua casa (a pedra) e respondia, abria a porta e descia até a grande aldeia, conversava com o clemente, atendia ao seu pedido e retornava para a pedra. Neste tempo tudo era flores. Nada lhes faltava e eram protegidos dos males que os rondavam. Mas em algum momento aconteceu algo, até então a nós desconhecido, que rompeu o relacionamento dos Yuhupdeh com Saah-Säw. Assim, pesarosamente concluem: “e ele nunca mais nos respondeu!” Hoje os Yuhupdeh vivem amedrontados, com medo de uma série de seres malévolos e também de pajés inimigos que podem causar doenças e morte. Na cosmologia dos mesmos, não existe nenhum ser bom, protetor ou provedor. Todos os seres são malévolos. Também não há nenhum ato de adoração, pois o único ser que poderia ser adorado é Saah-Säw, mas este não lhes responde mais. Desta forma, a religiosidade dos mesmos gira em torno da manipulação mágica dos seres malévolos, tentando afastá-los, ludibriá-los ou bloqueá-los.

Nas histórias dos Maxakali do nordeste de Minas, Topa é o ser mítico criador e controlador do universo. Nostalgicamente eles contam seus mitos das origens, nos quais, num tempo primevo, Topa convivia com os Maxakali, visitava a aldeia e conversava com eles. Deu-lhes uma lontra encantada com qual jamais faltaria peixe, pois ela caçava para eles. Levavam-na à margem do rio e a lontra se encarregava do restante. Caia na água e logo jogava para fora peixe em abundância. Mas os três primeiros peixes eram sempre maiores e pertenciam a Topa, não podendo ser comidos. Um dia, um Maxakali cheio de usura comeu os três peixes sagrados e a lontra desapareceu. Topa ficou muito triste e enviou um grande dilúvio, ao qual sobreviveu apenas um Maxakali que depois repovoou a terra. Mas Topa nunca mais falou com os Maxakali e, por isso, hoje eles vivem amedrontados por todo um panteão de espíritos que causam-lhes males e exigem oferendas.

E a história se repente em várias etnias. Ainda no século 19 o escocês Andrew Lang, historiador das religiões, levantou a tese de que as sociedades iletradas crêem num “ser supremo”, criador primordial ou organizador do universo. O etnólogo italiano Wilhelm Schmidt ampliou a pesquisa de Lang, mas fez outra importante constatação: o ser supremo, realmente comum em muitas culturas tradicionais, é também um “deus ocioso”. Ou seja, esta figura presente na cosmologia dos povos tradicionais é, geralmente, um ser ausente, que não mais interage com o povo, o que pode ser visto nos nomes a eles atribuídos: em Lunda, “o Deus do desconhecido”; em Ngombe, “o Inexplicável”; em Maasai, “o Desconhecido”. Os Fang, da África Equatorial, cantam sobre o seu ser supremo:

Nzane está nas alturas, o homem aqui embaixo.
Deus é deus, o homem é homem.
Cada um no seu isolamento, cada um na sua casa.

O fato é que muitos fazem do Deus verdadeiro um ser distante e ocioso, quando, por exemplo, apelam para santos e outros mediadores ou quando levam uma vida sem busca do Criador, concebendo-o como totalmente transcendente e inacessível. Mas exatamente aqui está uma das principais diferenças do Deus da Bíblia e os seres supremos dos povos. O Deus verdadeiro é presente, acessível, imanente, que interage com os seus ainda hoje e intervém em suas histórias. Não faça do Deus presente um deus ausente em sua vida. Relacione-se com Ele.

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