É igual índio, é igual branco

Fábio Ribas
Série Dias Índios

foto do arquivo do autor

Acordamos às 5:00 horas da manhã e seguimos para a roça.

A roça de mandioca gera a subsistência de todos. Da mandioca é feito o caldo de mandioca, que é chamado de perereba; também se faz o polvilho, que resulta no bijou. Este tem duas qualidades: o kine, que é um bijou grosso e mole feito para se comer com peixe e o kagupe, que é um bijou bem fininho e duro para se comer assim que se acorda.

Mas a roça é um lugar de muitos significados, já que nas histórias do meu povo a roça é também o lugar do adultério. Este se dá em encontros que são escondidos sob uma máscara mitológica: os amantes são apresentados como espíritos de animais. Assim, as narrativas simbólicas apresentam mulheres sempre seduzidas por cachorros, jacarés, antas, etc.

– Elas estão rindo de quê? Perguntei ao cacique.

– Professor, elas não acreditam que você tenha só a Lú de esposa. As índias estão rindo porque sabem que branco é igual índio. Quando eu saio da aldeia, professor, eu deixo minha mulher aqui e esqueço dela. Aí, arranjo outra mulher. Com o branco é a mesma coisa, eu sei. Ele sai da cidade dele, esquece a mulher e vai para outra cidade e lá tem outra mulher. Depois volta para a cidade e volta para a mulher. Cada saída, uma mulher nova…

foto do arquivo do autor

O homem pode ter duas ou mais esposas, mas não pode ter amantes. O adultério dentro da aldeia jamais é permitido e, uma vez descoberto, seja do homem, seja da mulher, o adultério é punido com separação e, às vezes, até com uma das partes obrigada a sair da aldeia para uma outra aldeia. O processo é sempre público e vexamoso. A mulher bate no marido se descobrir a traição, por exemplo.

Naquela manhã, estávamos indo à roça para conhecer aquele lugar tão cheio de histórias. Após quinze minutos de marcha mata adentro, começam a aparecer as primeiras roças. Todas têm dono. Descobri que quanto mais roças, mais rico é o índio.

– Essa é minha roça. Ali é minha roça. Lá eu tenho mais roça. Aqui é roça do meu genro. Por isso a esposa dele está aqui catando a mandioca. Dizia-me o cacique, apontando o dedo nas direções das roças.

foto do arquivo do autor

– Tudo isso você plantou?

– Claro. Nós temos roça. Se outro não tem roça, fica pobre. Não tem comida pra ele, não tem polvilho pra ele, não tem bijou pra ele. Fica pobre. Se outro tem a roça, aí é rico. É igual branco: não tem trabalho, não tem emprego, aí fica pobre! Tem que trabalhar, se não trabalhar fica pobre. Por isso eu tô plantando a roça. Ano que vem, planto de novo para não faltar. Todo ano fazendo a roça, todo ano. Tem que plantar, Professor. Se não planta fica pobre. Tem índio que tem preguiça, Professor, não planta roça, fica pobre. Tem que trabalhar.

Os homens plantam a roça e cuidam dela. Fazem pequenos muros de madeira ao redor das roças para que os porcos não invadam e comam tudo. Agora, o trabalho de arrancar, descascar, carregar e preparar o polvilho é só das mulheres. Depois de descascadas as mandiocas, elas as colocam em grandes bacias que são carregadas sobre a cabeça. Tentei levantar umas dessas bacias e sequer as ergui do chão. As mulheres são muito fortes, elas precisam ser muito fortes, uma vez que o trabalho de carregar peso é sempre função delas. A cena mais comum na aldeia é a fila indígena iniciada pelos maridos de “mãos abanando” seguidos por suas esposas – formigas carregadeiras – sempre trazendo malas, redes, bacias, troncos de árvores, etc. Nem tudo é igual ao branco, nem tudo é igual ao índio…

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