Enchendo o mundo com a doutrina de Cristo – At 5. 17-32

Carlos del Pino
série Caminho missionário da igreja

A acusação que o Sinédrio apresentou contra os apóstolos foi realmente muito curiosa: “expressamente vos ordenamos que não ensinásseis nesse nome; contudo, enchestes Jerusalém de vossa doutrina” (5.28). Os apóstolos, e consequentemente toda a Igreja dos seus dias, foram acusados formalmente de proclamarem o evangelho de Jesus Cristo na cidade de Jerusalém de tal forma, que ela ficou completamente tomada por esse ensino. Foram acusados de influenciar a vida das pessoas daquele lugar com o ensino de Cristo a despeito disso haver sido expressamente proibido pelo Sinédrio.

Essa acusação sofrida pelos apóstolos nos leva a perguntar sobre nossa própria vocação para encher o mundo com a doutrina de Cristo. Acusados ou não desse fato, encher o mundo todo com o evangelho de Jesus deve ser uma característica constante da peregrinação cristã pela sociedade humana. Considerar que uma determinada região ou povo já foi alcançado pelo evangelho não se limita a plantar ali uma congregação e muito menos torna-la em uma mega-igreja.

Alcançar um povo implica em estender a influência dos valores do evangelho a cada segmento daquele povo. Alcançar uma cidade com o evangelho exige que os valores do Reino de Deus afetem o estilo de vida das pessoas, dando-lhes uma esperança genuína e restaurando todas as dimensões de suas vidas (seja espiritual, física, material, profissional, familiar, religiosa e todas as outras).

Encher o mundo com a doutrina de Cristo é uma missão permanente, inadiável e intransferível. Compõe nosso próprio ser como Igreja e expressa a vocação que recebemos de Deus. Mas ao olhar para nós mesmos hoje, buscamos ver o impacto que essa missão deveria causar na sociedade e ficamos frustrados: perguntamos onde se escondem os milhões de evangélicos do Brasil e de que forma seu compromisso e procedimento éticos transformam nosso país e nosso povo com a radicalidade da mensagem bíblica.

Ao olhar para o texto bíblico em questão procuramos ver, através da experiência dos apóstolos, o que é preciso para encher o nosso mundo com o evangelho de Cristo. Seguindo estas pistas no texto, destacamos alguns elementos que não podem cair no nosso esquecimento.

1. É preciso reconhecer que a oposição à fé cristã é uma realidade constante.

O texto deixa claro que Jerusalém se viu plenamente influenciada pelo ensino de Cristo em meio a um ambiente de hostilidade contra o cristianismo. Os apóstolos foram alvo da inveja das autoridades religiosas e por isso haviam sido presos, aguardavam um interrogatório e possível julgamento (5.17-18) e estavam sob constantes ameaças (5.26-28).

Que atitudes tomaríamos se estivéssemos debaixo desse clima de oposição e perseguição tão hostil? É bem possível que a grande maioria dos cristãos no Brasil já não sofram mais perseguições da mesma natureza das que sofreram os apóstolos (ameaças, prisões e julgamento por sua fé e testemunho), como ocorreu em nossa terra há algumas décadas.

Entretanto, também não podemos dizer que vivemos em uma sociedade aberta às propostas e demandas do evangelho de Jesus Cristo. Ao contrário, nosso século se caracteriza por princípios e valores que descartam as diretrizes da Palavra de Deus. Vivemos em uma sociedade que se desenvolve à luz do pluralismo ou sincretismo religioso, do relativismo ético e de um cristianismo que se amolda e assume rapidamente os contornos e a direção da sociedade sem Cristo. Estes, e outros mais, são elementos que oferecem uma resistência constante e firme à igreja que se dedica a viver a missão de forma plena e contante.

Na verdade, não podemos esperar que a sociedade seja simpatizante da causa evangélica e das diretrizes transformadoras da Palavra de Deus, posto que por haver Cristo nos dado esta Palavra o mundo nos odeia, pois não mais pertencemos ao mundo, como o próprio Cristo também não pertence (Jo 17.14). Embora a oposição oferecida pelo mundo seja permanente, ela pode assumir matizes distintos dependendo do contexto histórico e filosófico em que estamos inseridos. Em qualquer que seja o caso, as palavras de Paulo soam contundentes: “não vos conformeis com este século” (Rm 12.1). Como igreja destinada por Deus a encher o mundo com a doutrina de Cristo, devemos reconhecer a realidade da oposição (muitas vezes sutil), conhecer seus atuais contornos filosóficos, suas diversas formas e manifestações sociais, não permitindo que a timidez ou o medo nos enfraqueça e nos torne apáticos para com a missão que Deus nos tem dado.

2. É imprescindível confiar de forma completa na vontade e na ação do nosso Deus em meio à oposição.

Aliás, reconhecer a oposição, enfrentá-la e não nos acomodar à filosofia proposta é, em si mesmo, uma demonstração visível da confiança na ação de Deus. O fato de Deus haver libertado sobrenaturalmente os apóstolos da prisão naquela ocasião específica (15.19-20) não pode ser visto como o elemento básico que gerou confiança em suas vidas. Certamente, eles continuariam confiando na vontade e na ação de Deus se houvessem sido mantidos encarcerados, como ocorreu em inúmeras outras ocasiões ao longo de toda a história da Igreja.

Embora a confiança na ação de Deus faça parte da essência da própria fé cristã e caracteriza nossa permanente caminhada na missão de Deus, é preciso ver o ato de libertação sobrenatural proporcionado por Deus naquele momento como um sinal de sua ação e de seu poder na vida da igreja. Sem dúvida alguma, tratou-se de um sinal que fortaleceu a fé e a confiança da igreja e dos apóstolos no Deus que age sempre de acordo com a sua vontade.

Ao investir nossas vidas e recursos para encher o mundo com a doutrina de Cristo, exige-se de nós uma postura de completa confiança e dedicação ao Deus que age. Exercer essa fé confiante, como igreja em missão no meio de uma sociedade que se opõe, é uma prática que deve ser exercitada por todos nós que cremos em Cristo, sem exceção, e não apenas por aqueles que representam nossa vocação missionária em outras terras. É justamente na vivência pessoal e comunitária dessa fé confiante em Deus que podemos, passo a passo, encher cada setor da sociedade e da vida humana com a mensagem redentora de Jesus Cristo.

3. A clara proclamação do evangelho é fundamental para que a Igreja encha o mundo com a doutrina de Cristo.

Ao serem libertos da prisão, o anjo os instruiu a “dizer ao povo todas as palavras desta Vida. Tendo ouvido isto, logo ao romper do dia, entraram no templo e ensinavam” (5.20-21). Eles claramente não se intimidaram com a prisão; antes, exercendo uma fé confiante levaram adiante sua missão e proclamaram a Palavra de Deus. Vemos a mesma atitude por parte dos apóstolos quando, novamente interrogados pelos sacerdotes, apresentaram-lhes o evangelho de Cristo, enfatizando sua obra redentora e a consequente oportunidade concedida por Deus para que os homens se arrependam e creiam (5.30-31). Além disso, os apóstolos não se omitiram ao se apresentarem como testemunhas oculares das obras realizadas por Cristo (5.32). Eles se colocaram à frente da Igreja que, de forma obediente, se torna uma Igreja proclamadora.

Foi através de uma proclamação coerente, redentora e esperançosa que a Igreja encheu Jerusalém com a doutrina de Jesus Cristo e somente será com uma proclamação do mesmo nível que, nos nossos dias e nas sociedades onde estamos, veremos a doutrina de Cristo espalhada entre os homens. Não podemos nos resignar a um relacionamento silencioso com o mundo, nem pensar que a mensagem do evangelho não se encaixa mais no perfil da sociedade moderna e tecnológica.

Além disso, não basta que a nossa proclamação seja exclusivamente verbal, isso a torna insuficiente em si mesma. A proclamação verbal deve ser acompanhada, inevitavelmente, por uma ação concreta de serviço e diaconia ao ser humano como demonstração do amor redentor de Deus, para que seu efeito e resultados possam ser amplos e integrais na vida humana. Vemos os próprios apóstolos agindo assim no texto que vem imediatamente antes (5.12-16). Dessa forma, pregação e serviço se unem compondo uma missão integral que apresenta ao ser humano, efetivamente, a integralidade do evangelho que redime e transforma. Este fato contribui para que o mundo fique cheio da doutrina de Cristo em dimensões que somente essa missão integral pode chegar. Sendo assim, pregação e serviço (diaconia) se tornam elementos parceiros imprescindíveis na vida de fé e missão da Igreja.

4. Encher o mundo com a doutrina de Jesus Cristo exige de todos nós uma atitude franca de obediência a Deus e não aos homens.

Não se trata da tarefa de uma pessoa ou uma pequena equipe ou família. Trata-se, sem a menor possibilidade de ser diferente, de uma vocação intensamente compartilhada por todos os que crêem em Jesus e se chamam de “igreja”. Estamos falando da igreja em sua totalidade como sendo vocacionada para viver e agir em permanente estado de missão. Nesse sentido, as constantes vocações individuais que surgem no nosso meio, destinadas aos mais variados ministérios e serviços, são necessárias derivações ou seguimentos da vocação da igreja.

Nesse sentido, a resposta dada pelos apóstolos quando o sumo sacerdote os interrogou é significativa: antes, importa obedecer a Deus do que aos homens” (5.29). Centralizar nossa obediência em Deus e em sua Palavra é uma atitude que precisa qualificar nossos diversos empenhos missionários que visam encher o mundo todo com a doutrina de Cristo.

Obedecer a Deus e não seguir o padrão dos conceitos e procedimentos da sociedade é a essência da vida de uma comunidade de crentes em estado de missão. Por isso, somente será possível impactar o mundo todo e todos os segmentos da vida humana com o evangelho redentor de Cristo quando a vida de todos nós (pessoal e eclesialmente falando) esteja rendida a Cristo em obediência.

Nesse sentido, nossa dedicação em estudar de forma humilde e séria a Palavra de Deus, produzindo assim um conceito cristão capaz de solidificar a fé e a missão na vida da Igreja, nos transforma inevitavelmente em um povo que obedece a Jesus Cristo. Obedecer a Deus implica em conhecê-lo e em saber quais são seus princípios para a vida humana. Obedecer a Deus exige de todos nós um contínuo relacionamento redentor com ele e com sua Palavra.

Diante disso, não há alternativas: ou vivemos uma vida na qual o que importa, de fato, é obedecer a Deus ou a vivemos obedecendo prioritariamente os mandamentos dos homens e seguindo toda a estrutura de pensamento, de valores, de ética e de fé da sociedade humana atual. Se este for o caso, como poderemos encher o mundo com a doutrina de Cristo?

De fato, o estaríamos enchendo com o “curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência” (Ef 2.2). Assim sendo, nossa vida cristã e missionária como igreja não nos permite obedecer aos homens, seguindo seus valores; mas importa, de fato, obedecer ao nosso Deus.

Como Igreja de Jesus Cristo temos que persistir em encher o mundo por inteiro com a mensagem redentora do evangelho de Jesus. De que forma cada um de nós estamos efetivamente respondendo a esta vocação missionária?

Que Deus nos instrua nessa missão!

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