Três grandes prioridades na erradicação da pobreza bíblica (parte 1)

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Série As Escrituras em missões

pobrezabiblicaPedro e Ângela estão ocupados com suas vidas de classe média. A vizinha do lado é Lucy, uma budista da Ásia Oriental, e a pessoa com quem ela mora está envolvida com a Nova Era. Mma Echu não tem as Escrituras na sua língua, e o chefe da sua vila construiu um altar para o deus dele. Amim está interessada em Jesus, mas é analfabeta, enquanto Hussein é surdo. O que estas pessoas têm em comum? Elas sofrem de um mal que aflige bilhões de pessoas espalhadas por todas as nações do mundo, a pobreza bíblica. Mas nenhuma delas tem consciência disso.

Quais são os sinais da pobreza bíblica? Ela está presente onde pessoas são impedidas por barreiras de ter acesso às Escrituras numa língua que elas entendam bem e sejam envolvidas de forma a terem suas vidas transformadas. Esta pobreza passa por níveis econômicos, status sociais, identidade religiosa, grupos étnicos e idiomas. A pobreza bíblica afeta religiões atingidas por perseguição. Ela afeta analfabetos, surdos e cegos. Outros ainda, como os Befang de Camarões, simplesmente não têm as Escrituras em seu idioma, e uma variedade de profissionais nas cidades de Xangai a Munique, até Bogotá, não têm confiança em nenhuma verdade, a não ser na sua própria experiência. Barreiras para que não se envolvam de maneira significativa com as Escrituras aparecem em todos os lugares em contextos urbanos, em regiões dominadas por outras religiões importantes e no Ocidente pósmoderno. Mas depois que identificamos estas barreiras, será que também podemos trabalhar para construir pontes que nos capacitarão a transpô-las?

Pedro e Ângela estão ocupados com trabalho, família, responsabilidades com a igreja e entretenimento. Eles usam grande parte de seu tempo assistindo comentaristas políticos na televisão e ouvindo programas cristãos no rádio. Eles têm pelo menos dez Bíblias em casa, mas, durante várias semanas, os únicos versículos que ouvem são aqueles que leem durante o culto de domingo de manhã. Até o pastor deles passa mais tempo pregando sobre seus próprios pensamentos do que passeando pelas Escrituras. As Escrituras, que costumavam ocupar o centro de suas vidas, passaram a ser periféricas. Como resultado, muitos valores e atitudes de Pedro e Ângela sobre questões da sociedade são determinados por outras pessoas, e não pelo envolvimento deles com as Escrituras.

Lucy e Julie são as vizinhas de Pedro e Ângela. A família de Lucy emigrou da Ásia Oriental. Ela é budista e divide a casa com Julie, que é interessada em espiritualidade e bastante convicta a respeito de materiais e eventos sobre a Nova Era, mas também se interessa por elementos místicos no budismo e hinduísmo. Julie também acredita que Jesus ressuscitou dos mortos. Ela acha que foi “legal” o que Ele fez.

Mma Echu se tornou seguidora de Jesus há poucos anos. As Escrituras não foram traduzidas para a sua língua. Quando ela vai à igreja, o pastor prega somente no idioma oficial e predominante da nação, que ela não domina tão bem, e quando ela sai do culto aos domingos, está sempre com sede de algo mais. Por isso vai à igreja apenas de vez em quando. Enquanto isso, na sua vila, o Chefe Ekone construiu um altar para o deus dela ao lado da sua casa, pedindo ao deus que proteja sua família e os abençõe. Ele ouviu sobre Jesus, mas para ele Jesus fala apenas na língua dominante. Ele não fala a língua dele. Jesus é um estrangeiro e, portanto, Ele não tem como conversar sobre ideias e crenças com o Chefe Ekone e o seu povo.

Amin ouviu sobre Jesus uma vez e quer aprender mais sobre Ele, mas nunca encontrou um seguidor de Jesus na sua cidade, onde é proprietário de uma pequena loja. Por isso, ele não tem ninguém com quem falar de Jesus. Ele ouviu sobre um livro que dizem falar de Jesus, mas como não sabe ler, para ele não adiantaria nada. Ele tem um rádio e um DVD/CD player. Do outro lado da cidade está Hussein que é surdo e, por isso, vive num mundo completamente diferente do mundo dos que podem falar. Ele tem fortes laços com algumas pessoas surdas da cidade, mas todos temem os que falam porque já foram discriminados muitas vezes. Por tudo isso, ninguém lhes fala sobre Deus. Para eles Deus não é nem um estrangeiro. Deus não existe.

Pedro, Ângela, Lucy, Julie, Mma Echu, Chefe Ekone, Amin e Hussein…Todos estão na mesma condição. Todos sofrem de “pobreza bíblica”, que é global e acontece em contextos ou cenários que bloqueiam ou impossibilitam o acesso às Escrituras em uma língua compreensível, acesso este que envolva as pessoas de tal forma que elas tenham suas vidas transformadas. Surpreendentemente, indivíduos cristãos e igrejas podem impedir esta transformação provocada pelas Escrituras, assim como, aqueles envolvidos em missões e agências missonárias podem fazer o mesmo. A questão é universal. Sua origem está no coração e na separação do ser humano de Deus.

Como seriam nossas vidas transformadas? Jesus disse que transformados amaríamos ao Senhor nosso Deus de todo coração, toda alma, mente e forças, e que amaríamos nosso próximo como a nós mesmos (Mateus 22:34- 40, Marcos 12:28-31). Nosso comportamento seria agradável a Deus e levaria nossos próximos a ficarem encantados (I Coríntios 13:4-7; Gálatas 5:22-23; Efésios 4:1-6, 25-32; Filipenses 2:1-11; Colossenses 3:12-17).

As pessoas que descrevemos acima estão impedidas de conhecer o amor transformador de Deus. Você consegue identificar o que bloqueia ou impede as Escrituras de causarem esta transformação? Cada uma destas situações representa um importante desafio para o papel das Escrituras em missões, e cada situação levanta uma questão importante para ser ponderada:

1. Por que as Escrituras não transformam vidas quando e onde estão disponíveis?

2. Por que mais de um bilhão de pessoas não têm as Escrituras traduzidas adequadamente para o seu idioma?

3. Por que, geralmente, as Escrituras estão disponíveis somente na forma escrita?

Antes de explorarmos estas questões específicas, vamos questionar o lugar das Escrituras em missões. Qual é o valor das Escrituras em missões? Existe uma diferença entre o papel que achamos que as Escrituras devem ter e o papel que realmente elas têm? As Escrituras têm valor central em seu ministério? Qual é a evidência que outros veriam e que demonstre esta centralidade?

O apóstolo Paulo escreveu a Timóteo que dois importantes propósitos das Escrituras são fazer- -nos sábios sobre a salvação através da fé em Jesus Cristo e, como povo de Deus, preparar-nos para toda boa obra (2 Timóteo 3:14-17). Paulo queria que Timóteo, seu filho na fé, tivesse a mesma confiança que hoje podemos ter, de que as Escrituras são essenciais para anunciarmos as boas novas de Jesus Cristo e para vivenciar a transformação de Cristo em nossas vidas. Timóteo foi bem feliz quando era jovem. Sua comunidade tinha acesso às Escrituras num formato e idioma que eles podiam usar e entender. Elas estavam na forma escrita, provavelmente em grego. Poderia ser a Septuagenta, a tradução da Bíblia do hebraico para o grego, nosso “Velho Testamento”. Além disso, ou alguém da família lia para ele, uma vez que ele era criança, ou alguém na grande comunidade judaica lia publicamente, e todos ouviam. Paulo menciona que a avó de Timóteo, Loide, e sua mãe, Eunice, tinham “fé sincera” e que Timóteo tinha esta mesma fé (2 Timóteo 1:5). Paulo também menciona que “desde a infância” Timóteo “conhecia as Sagradas Escrituras” (2 Timóteo 3:15). Estas três pessoas tinham fé em Jesus Cristo e também eram envolvidas com as Escrituras. Isso as levou a viver “em sinceridade de fé”, numa sociedade e cultura que nem sempre eram amigáveis e receptivas à fé delas. Elas estavam sendo transformadas como seguidoras de Cristo num contexto difícil.

Reconsidere o caso de Pedro e Ângela à luz das palavras de Paulo a Timóteo e da experiência de Timóteo e sua família em relação às Escrituras. Pedro e Ângela, mesmo sendo cristãos e possuindo várias Bíblias, são biblicamente empobrecidos, porque as Escrituras não estão tendo o impacto transformador em suas vidas como Deus pretende que elas tenham. Ironicamente, a situação deles não é diferente da de Lucy e Julie, suas vizinhas, que não conhecem nada das Escrituras.

Em casos em que pessoas como Mma Echu e o Chief Ekone não têm nenhuma porção das Escrituras na sua língua, a pobreza bíblica deles é mais clara. Eles não têm os recursos que Pedro e Ângela têm. Pessoas como Amin, que jamais aprenderam a ler ou que não podem ler, serão sempre biblicamente empobrecidas, se tudo o que eles tiverem for a Palavra na forma escrita. E Hussein está totalmente alienado, até que alguém desenvolva uma maneira de comunicar as Escrituras para ele.

A “pobreza bíblica” deles é resultado de “barreiras” que bloqueiam ou impedem o poder da Palavra de Deus de fazer diferença em suas vidas. A existência destas barreiras deve nos motivar a encontrar “pontes” para ajudar pessoas a se conectarem com as Escrituras.

Assim, vamos voltar às nossas três questões acima e perguntar o que algumas destas importantes barreiras e pontes podem ser em cada um destes casos.

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2 thoughts on “Três grandes prioridades na erradicação da pobreza bíblica (parte 1)

  1. Muito obrigada pelos excelentes artigos e material profundo e farto. Deus abençoe mais e mais!
    Como professora de “Introdução a Missões” em escola de Missões, tenho sido muito abençoada!
    Deus retribua e alargue ainda mais o ministério dos irmãos!
    “Que o Cordeiro receba…!

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