Hapitihítso

Fábio Ribas
Série Dias Índios

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Quando entrei em casa, vi sentado em minha rede o índio que nos recebeu em 2007, quando visitávamos nossa aldeia pela primeira vez. Eu tenho por ele profundo carinho, pois vejo bem suas dificuldades na aldeia e sua baixa autoestima: ele é negro e os demais indígenas o rechaçam por isso.
Ele estava rodeado de outros índios e índias que riam um riso escondido ao lado dele. Aproximei-me. Vi que eles estavam vendo fotos tiradas numa festa no ano passado. Mas era uma foto específica que estava gerando sorrisos e olhares maliciosos. Era uma índia, uma jovem índia de uns 20 anos de idade. Ao me verem, todos saíram. Ele permaneceu sentado na minha rede.
– Hapitihítso – disse ele para mim, mostrando-me a foto.
– O que é isso? – perguntei.
– Hapitihítso – repetiu, enquanto os outros índios riam e saíam de perto.
– Eu não sei o que isso significa.
– Ela, essa menina na foto, ela é hapitihítso – disse novamente, enquanto índios e índias que estavam na casa riam e, mesmo diante do meu desconserto, ele não falou mais nada. Afastei-me para sair da casa. Quando já à porta, outro índio segurou meu braço e me puxou para perto de si.
– Hapitihítso… Você não sabe o que é? – disse ele em voz baixa como que prestes a me revelar um segredo.
– Não, não faço a menor idéia.
– “Mulher do vovô”. Hapitihítso é “mulher do vovô” – Sabendo que eu estava para descobrir algo submerso em águas profundas, esforcei-me ao máximo para não expressar nenhum traço de surpresa, mesmo diante de um provável escândalo.
– “Mulher do vovô”… Mas isso é o quê?
– É a menina que o pai não deixa casar e fica em casa para namorar o pai. A gente chama de “mulher do vovô” – disse-me. Eu precisava disfarçar o meu estado de choque, pois me preparara para muitas coisas, mas realmente fiquei perplexo com aquilo.
– O pai namora a filha? Eles deitam juntos? – não sabia bem como me expressar.
– É. O pai não deixa a filha casar para ficar fazendo sexo com ela – disse-me o índio.
– Isso acontece muito? Quero dizer, acontece muito o pai namorar a filha? – Eu não podia transparecer o meu escândalo, eu precisava fazer com que ele confiasse e se sentisse à vontade para continuar a conversa.
– Acontece.
– Aqui na nossa aldeia acontece isso?
– Não, só na outra aldeia… Mas você não pode contar para ninguém que eu te disse isso. Você não pode dizer que fui eu quem te disse isso!
Ao estudar as culturas indígenas da minha região, aprendi que expressões como “só na outra aldeia” são ditas para se esconder algo que acontece ali também. Adultério, infanticídio e incesto são sempre apresentados como coisas que só acontecem “fora da aldeia”. Ou na roça ou na outra aldeia, mas nunca dentro da comunidade, quando, na verdade, tudo isso ocorre bem ali debaixo do nosso nariz. “Fora da aldeia” é uma válvula de escape, um mascaramento da linguagem que tenta criar uma distância da própria realidade.

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