Hehu (velho)

Série Dias Índios
Fábio Ribas

foto do arquivo do autor

O velho caipora vai sempre lá em casa. Aliás, caipora visita todas as casas da aldeia todos os dias pela manhã. Caipora é um índio com uns 80 anos de idade, que se arrasta com seu andar bem vagaroso, ajudado por um pedaço de pau que funciona como muleta. Ele está quase cego. Para falar conosco, costuma se aproximar bem para conseguir distinguir nosso vulto. O médico da cidade falou que caipora ficara cego por causa da sífilis. Sim, doenças venéreas são um problema grave enfrentado pelos povos indígenas e elas têm deixado sua triste marca.

Os outros índios brincam muito com caipora, uma vez que ele já não enxerga bem e também já não se lembra mais de muita coisa. Os índios gostam de contar para o caipora que ele tem mulher em outra aldeia e que ela está esperando por ele. Ele acredita nessas histórias e começa a contar outras: diz que já foi casado há muito tempo com uma mulher branca e que teve filhos com ela. Os índios dizem que isso é mentira, mas todos na aldeia concordam que caipora foi um grande caçador de onça, caçador de arco e flecha.

Um dia, antes de entrar na casa do cacique, na qual eu estava morando, caipora entrou na casa vizinha e viu ali o pequeno índio Marcos de quatro anos de idade. Marcos é uma criança ligeira e, logo depois, correu da casa do vizinho para a casa em que eu estava. Pouco tempo passou, veio também o velho caipora.

– Hehu! Onde você estava? Suas filhas estiveram por aqui procurando por você? Mentiram para o velho caipora os índios da minha casa. Estavam se referindo às duas enfermeiras brancas que haviam visitado a pouco a aldeia para uma ministração geral de remédio para verme.

– É mesmo?! Minhas filhas vieram aqui? Caipora acredita.

– Ô, velho, você não viu elas aqui? Perguntavam, enquanto todos na casa seguiam rindo das mentiras que contavam para o caipora.

– Sim, eu vi. Eu precisava que elas lavassem minha rede, está muito suja… Estou com saudade da mãe delas… Preciso dela para me aquecer…

Toda aquela situação me cortava o coração, pois caipora ficava triste mesmo.

– Quando eu estava junto delas – continuou caipora – uma vez eu fui atrás de uma onça. Peguei no arco e na flecha. Hoje índio nenhum sabe caçar mais no arco e na flecha. Eu fui campeão de arco e flecha! Recordava-se o velho caipora das suas aventuras da juventude. Enquanto os índios riam do caipora, de repente ele olhou para o pequeno Marcos e se assustou.

– Que menino é esse?

– Ô, velho, é meu filho. Disse alguém.

– Mas esse menino estava lá na outra casa agora mesmo!

– Ô, velho, não é o mesmo não. Você viu foi o irmão dele lá na outra casa. São dois, são gêmeos. Mais uma vez, mentiram para o caipora. Contavam essas coisas e todos na casa riam do susto do velho caipora que, então, começou a praguejar.

– Gêmeos? Que absurdo! No meu tempo, não acontecia um horror desses. Como já se viu, deixar essas crianças vivas! Está tudo errado! Gêmeos! Não acontecia essas coisas quando eu era mais moço… E caipora saiu da casa, soltando suas imprecações. Enquanto isso, os índios riam e riam da mentira que contaram para o velho.

Não há gêmeos na cultura. Eles sabem que uma das crianças tem um espírito mau, mas como não sabem qual dos gêmeos tem esse espírito mau, quando nascem, enterram ambos vivos.

Deixe uma resposta