Hoje tem peixe, amanhã não se sabe

Cácio Silva
série Culturas

O existencialismo nas culturas indígenas

Os indígenas do Alto Rio Negro possuem uma técnica fantástica de preparar e conservar carne, conhecida na região como “moquear”. É uma forma de defumar a carne, colocando-a sobre um jirau de varas com um pequeno fogo debaixo. O calor desidrata a carne e a fumaça fica impregnada por fora tornando a mesma pouco atrativa para as moscas. Uma carne bem moqueada dura meses e meses sem estragar. Isso sem sal, conservante, freezer, nada! Apenas calor e fumaça.

O famoso peixe moqueado é uma das principais iguarias da nossa região. Pode ser comido sem sal ou qualquer tempero que é uma delícia. É também muito higiênico, pois as escamas protegem a carne de moscas e do manuseio. Tudo o que o pescador faz é retirar as entranhas e colocar no jirau. Quando, bem quentinho, a gente abre o peixe, aquela carne suculenta se solta da pele e torna-se algo irresistível. E eles moqueiam qualquer carne, seja de caititu, paca, anta ou cotia. Uma iguaria indígena!

Qual foi minha surpresa ao descobrir que nossos amigos Yuhupdeh, mesmo sendo exímios conhecedores dessa espetacular técnica de conservação da carne, às vezes passam fome em plena floresta! Parece contraditório, mas vários rios do Alto Rio Negro são pouco piscosos. E em uma determinada época do ano os poucos peixes desaparecem mais ainda. Quando chega essa época, os Yuhupdeh passam necessidade por falta de alimento suficiente. Já os vimos famintos, passando dias apenas com farinha e água. E nossa pergunta então era: mas por que não armazenam? Por que não moqueiam peixe e caça para a época da escassez? Para quê essa técnica de conservação, se não usam?

Às vezes eles moqueiam quilos e quilos de peixe para trocar com os barcos regateiros que sobem o rio, trocando mercadorias industrializadas por produtos da mata. Por que então não moqueiam também para alimentar a própria família? Algumas vezes até tentamos convencê-los a estocarem pesca, mas essa ideia é tão estranha para eles! Por mais lógico que nos pareça, para eles parece não fazer sentido a ideia de estocar comida.

É o existencialismo indígena. Não me refiro ao existencialismo filosófico e sim ao antropológico. Culturas existencialistas são aquelas voltadas para o aqui e agora, que se preocupam com o hoje, deixando o amanhã para amanhã. Culturas assim geralmente são orientadas pelo princípio do consumo e não do acúmulo. Nós estamos acostumados com a ideia do acúmulo, onde juntamos e guardamos dinheiro para fazer uma viagem ou comprar algo que desejamos. Onde vamos ao supermercado, fazemos uma grande compra e estocamos alimento para todo o mês. Onde planejamos nossa aposentadoria para daqui a 30 ou 40 anos.

Nas culturas orientadas pelo consumo, o que foi pescado hoje é para ser consumido hoje. Amanhã pesca novamente. A caça abatida hoje, será consumida hoje, independente de ser uma pequena paca ou uma grande anta. E interessante que há contentamento, pois fazem uma festa quando tem muito para se comer, mas também ficam satisfeitos quando se tem apenas o suficiente para matar a fome.

Às vezes nos sentimos constrangidos quando os vemos sem quase nada para comer e temos em nossa casa estoque de alimento para dois meses. E sabemos que nessas horas somos vistos por eles como “sovinas”, pois como alguém pode ter tanta comida e deixar os outros comendo farinha apenas?! Mas se intervirmos, amanhã será nossa vez de ficarmos famintos, pois não sabemos caçar e pescar como eles e nem temos roças de mandioca. E também, interferiremos no seu sistema econômico gerando um desequilíbrio social, causando dependência do que vem de fora. Situação difícil de se administrar que por vezes nos causa incômodo na consciência. Mas isso é o encontro de culturas. O que é obvio para um, pode ser inconcebível para o outro.

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