Igreja: testemunha de Cristo – At.1.6-8

Carlos del Pino
série Caminho missionário da igreja

“Então os que estavam reunidos lhe perguntaram: Senhor, é neste tempo que vais restaurar o reino a Israel? Ele lhes respondeu: ‘Não lhes compete saber os tempos ou as datas que o Pai estabeleceu pela sua própria autoridade. Mas receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês, e serão minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria, e até os confins da terra”.

Ser testemunhas de Jesus Cristo não é a realização de um conjunto de atividades evangelísticas. Trata-se, antes, de uma posição que recebemos diretamente dele em decorrência da presença do Reino de Deus no mundo e de nossa inclusão por Cristo neste Reino. O texto mencionado nos ajuda a compreender de forma um pouco mais ampla a importância da nossa vida ser um testemunho permanente ao mundo acerca de Jesus Cristo, como indivíduos e Igreja. Assim, ao ler o texto encontramos algumas indicações que nos auxiliam a compreender melhor essa nossa posição de testemunhas e, consequentemente, de povo missionário.

1. O que nos torna verdadeiras testemunhas de Cristo?

O testemunho de Cristo não está fundamentado sobre nossa própria natureza, mas sobre o Cristo ressurreto. Ele nos torna suas testemunhas com base em sua própria vida e missão. O v.3 faz uma breve referência ao sofrimento, morte e ressurreição de Cristo como um elo de ligação com o final do “primeiro livro” (Lc 23-24). Somente o Cristo ressurreto é o fundamento da Igreja-testemunha e nos torna em suas verdadeiras testemunhas. Isso indica que a natureza do testemunho está diretamente relacionada a Cristo e dependente de sua obra redentora plena e eficazmente realizada.

2. A partir de que contexto o Cristo ressurreto nos torna suas testemunhas?

Voltando ao final do v.3 observamos que Cristo, durante os quarenta dias em que esteve ressurreto entre os discípulos, falou-lhes acerca do Reino de Deus. Essa não foi a primeira vez que Jesus lhes ensinava sobre o Reino de Deus. Ao longo de todo o seu ministério o tema do Reino de Deus ocupou um significativo lugar no ensino de Cristo (por exemplo: Mt 4.23; 6.10; 9.35; 12.28; 13.24,31,33,44,45,47; 24.14; Mc 1.14-15; 4.11, 14.25; Lc 6.20; 9.62; 12.31; 17.20-21; 22.29). A mensagem e o ensino de Cristo acerca do Reino de Deus continuam após sua ressurreição tornando-se o contexto no qual somos feitos testemunhas de Jesus Cristo.

Entretanto, é muito importante observar que, mesmo após tanto ensino sobre o Reino de Deus ao longo de todo o seu ministério e durante os quarenta dias em que se apresentou ressurreto, seus discípulos ainda mantinham um conceito errado sobre o Reino de Deus. Podemos ver isso no v.6 quando os discípulos, como conseqüência do ensino sobre o Reino, lhe perguntam se finalmente chegara o momento em que o reino seria restaurado a Israel. Esta pergunta indica que os discípulos ainda mantinham o antigo conceito judaico de Reino de Deus como sendo equivalente ao reino de Israel em termos nacionalista, geográfico, étnico, religioso, político e militar. Desse fato, e da resposta de Jesus a seguir, concluímos que um conceito bíblico e teológico equivocado pode comprometer seriamente o nosso testemunho e a nossa missão como Igreja. E isso tem a ver tanto com o conceito de Reino de Deus, quanto com todos os demais ensinos bíblicos.

3. Como Cristo corrige o conceito teológico dos discípulos?

É muito importante notar que Jesus não aceitou que o conceito teológico dos discípulos fosse estabelecido como o pano de fundo para o testemunho da Igreja. No v.7 Jesus claramente impede seus discípulos de distraírem sua atenção dos verdadeiros conceitos teológicos que devem formar a base para o testemunho da Igreja ao prenderem sua atenção, esforço e reflexão à especulação que não lhe competem.

Especificamente no que diz respeito à preocupação escatológica dos discípulos, Jesus afirma que especular acerca dos tempos (chronous) ou épocas (Kairous) está absolutamente fora de nossa alçada, uma vez que os tempos e épocas o Pai reserva para sua própria e exclusiva autoridade (exousia). Cristo, portanto, deixa claro que há uma dimensão de poder e autoridade real que pertence somente a Deus. Essa afirmação tem direto relacionamento com o conceito de Reino de Deus, pois fundamenta o testemunho da Igreja na autoridade e no reinado soberano de Deus sobre todos e sobre tudo (este é o mesmo sentido de “autoridade-exousia” na Grande Comissão – Mt 28.18). É desse conceito, e não do confinamento teológico gerado por meras especulações, que o testemunho da Igreja poderá ser visto e desenvolvido de forma sadia.

4. De que forma Cristo fundamenta o testemunho da Igreja partindo do conceito de Reino de Deus?

Se inicialmente Cristo repreendeu o falso conceito teológico dos discípulos, logo em seguida (v.8) ele fornece os verdadeiros elementos que devem nortear o testemunho da Igreja. Somente com a presença desses elementos em nossa fé e em nossa reflexão teológico-missiológica poderemos viver a missão do testemunho devidamente fundamentada no reinado soberano de Deus. Vejamos alguns destes elementos que Cristo nos fornece:

a) O poder do Espírito Santo: não resta a menor dúvida quanto a impossibilidade de realizar a missão de deus no mundo a não ser que seja pelo poder do Espírito Santo. Devemos entender que este poder (dynamin) que o Espírito Santo nos concede é derivado da autoridade real e soberana (exousia) do Pai. O Espírito não nos concede uma autoridade ou poder soberano como o que Deus reserva para si; antes, derivando-se desta soberania, ele nos capacita permanentemente como Igreja-discípula para cumprir com sua vocação no mundo;

b) O poder do Espírito Santo direcionado ao testemunho: entendendo que o Espírito Santo não nos concede o privilégio de manipular o poder de acordo com nossas preferências e interesses, notamos que esse poder está direcionado ao testemunho. Um poder que não conduza a Igreja a testemunhar o evangelho de Jesus Cristo deve ser considerado como suspeito por nós. O testemunho prestado pela Igreja é muito bem definido no texto: como Igreja somos testemunhas de Cristo. Portanto, nossa mensagem, anunciada por todos os veículos possíveis, deve estar radicalmente centrada na pessoa de Jesus Cristo e em sua obra graciosa e redentora. É para testemunha essa mensagem do evangelho de Jesus que primordialmente recebemos a capacitação do Espírito Santo.

c) Um testemunho global acerca do evangelho de Jesus Cristo: não há onde não testemunhar o evangelho de Cristo. Em todos os lugares, em todas as sociedades e em todos os ambientes humanos o testemunho deve chegar.

Consequentemente, à luz da autoridade real de Deus, da capacitação do Espírito Santo e dessas palavras pronunciadas pessoalmente pelo Cristo ressurreto, a Igreja responde à sua vocação fazendo-se globalmente presente e proclamadora. A Igreja não pode excluir-se de nenhum ambiente humano, nem pode excluir nenhum setor da sociedade de sua esfera de interesse ministerial e missionário. O 8 menciona regiões geográficas específicas onde a Igreja deveria chegar com o testemunho. O próprio livro de Atos segue essa seqüência geográfica em sua narrativa, mostrando a Igreja testemunhando em Jerusalém (1-7), na Judéia e Samaria (8-10) e nos confins da terra (11-28).

Além dessa ênfase geográfica, vemos que o v.8 também descreve diversos contextos humanos que se manifestam em ambientes urbanos (Jerusalém), rurais (Judéia), setores marginalizados por diversas razões (Samaria) e pela pluralidade de culturas e manifestações humanas (confins da terra). Nesses e em quaisquer outros contextos humanos existentes a presença da Igreja como testemunha fiel do evangelho de Jesus é um sinal de seu compromisso com o Reino de Deus.

d) A Trindade como fonte do testemunho da Igreja: não se pode pensar no Reino de Deus independente da ação do Pai, do Filho e do Espírito Santo. A Trindade é, essencialmente, o Deus reinante. No decorrer do texto vemos a presença do Cristo ressurreto (Filho) com seus discípulos, vemos a autoridade real e soberana do Pai sobre todos e tudo, e vemos o poder capacitador do Espírito Santo levando a Igreja a um testemunho global. Somente à luz de conceitos bíblicos, teológica e missiologicamente elaborados, poderemos exercer de forma fiel nossa vocação como Igreja que testemunha o evangelho no mundo.

Nesse sentido, devemos Ter muito claro que todo o trabalho de reflexão teológica, missiológica e pastoral, além de devidamente integrado, deve ser uma expressão da Palavra de Deus e do evangelho de Cristo para a vida dos seres humanos, manifestando e projetando a Igreja em sua missão no mundo. Assim, não há verdadeira missão sem reflexão teológica, nem verdadeira teologia que não gere uma Igreja missionária. Portanto, como Igreja que testemunha Cristo ao mundo, temos diante de nós uma missão que nos conduz permanentemente a um compromisso fiel com a Palavra do Deus soberano, como o Cristo ressurreto e com o espírito Santo capacitador.

Deixe uma resposta