Infanticídio indígena

Fábio Ribas
Série Dias Índios

A filha caçula do autor, na aldeia – arquivo do autor

O infanticídio indígena (assassinato de crianças indígenas logo após o seu nascimento), quando ocorre na cultura, não é algo que você reconheça à primeira vista e, tão pouco, é um evento público, devemos, então, observar alguns sinais: a ausência na aldeia de crianças portadoras de necessidades físicas ou mentais; a ausência de gêmeos, etc. Estas são algumas das vítimas do infanticídio.

– Professor, essa criança não é dele. Disse-me a enfermeira durante uma das vacinações coletivas da aldeia. Ela estava me falando sobre um dos filhos mais recentes do cacique.

– Não?! Ele pegou a criança de quem?

– A criança ia ser morta lá em outra aldeia – disse-me a enfermeira – então, ele foi e tomou conta dela para que não fosse enterrada viva.

– Os indígenas daqui estão sendo orientados sobre essa questão do infanticídio?

– Este ano, várias lideranças indígenas da região concordaram em rever essa prática em suas aldeias, mas nem todos cumprem o compromisso.

Fiquei intrigado com essa história sobre o meu Cacique, senti um misto de surpresa e admiração. Mas havia algo a mais nos nobres sentimentos do meu Cacique e nos dos outros indígenas que haviam limitado um pouco a prática do infanticídio. Assim, fui conversar com ele noutra oportunidade.

– Houve uma reunião sobre enterrar crianças, Cacique?

– Sim, Professor.

– Mas aqui acontece isso?

– Acontece… Iiiiih! Acontece muito! …mas agora menos. A gente fala que não pode mais enterrar… Tem o bolsa-família… O Governo paga, então agora vale a pena ficar com a criança viva…

– !!!!!

– Ah! Sim! Ninguém enterra mais… Disse o Cacique.

– Todas as famílias recebem a bolsa-família?

– Tem que ter identidade, aí a família ganha dinheiro pelo filho.

– Então, ninguém enterra mais: criança de mãe solteira, gêmeo, se nasce com defeito não enterra mais…

– Ah! Não! Se nasce com defeito, aí enterra sim! Iiiiih! Dá muito trabalho, professor! Não vale a pena, não dá pra ficar…

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