“Jesus não vai deixar ele cair” – 2ª parte de duas

Fábio Ribas
Série Dias Índios

arquivo do autor

– Como é o céu para vocês? Como é essa aldeia dos mortos?

– Professor, dizem que lá na entrada do céu, na porta, estão as crianças mortas esperando você. Imagina, Professor, minha irmã perdeu um filho aqui, então, quando ela chegar lá, esse filho já vai estar ali ajudando ela na entrada do céu. Mas, quando os dois amigos chegaram, os mortos já sentiram o cheiro do amigo vivo, aí o amigo vivo se escondeu noutro lugar na aldeia. Não apareceu na casa em que estavam os mortos reunidos. Então, o amigo morto disse para ele ficar escondido que vinha no dia seguinte pegá-lo. E o amigo morto foi dizendo também para o amigo vivo que o céu não tem essas casas assim iguais as nossas daqui. Lá, tem casas lindas, toda enfeitada, são grandes, bonitas. Casa bem feita, pintada, enfeitada. Peixe? Peixe não falta lá. Diz que peixe já vem pronto, já está assado só esperando você lá. Lá tem um polvilho que nunca acaba. Tem todo tipo de comida e é tudo de primeira qualidade. No céu, acontecem as melhores festas que existem! Taungue é o deus pra gente. É o Jesus de vocês. É a mesma pessoa*. Ele que fez um lugar para os mortos. Ele fez um caminho lá para os mortos até a beira do rio todo enfeitado, pintado, lindo, mas tudo é lindo mesmo. É coisa boa mesmo!

– Você um dia estava contando pra mim que se o índio for bom aqui ou mau não tem problema. Se o índio for feiticeiro, for mau, for um índio ladrão, matar os outros, não tem problema, porque tanto o índio bom como o índio mau vão ter que passar pelos mesmos desafios e quem conseguir vencer esses desafios depois de morto é que fica no céu. Se o índio for bom, mas perder o desafio, a alma dele fica vagando para sempre sem nunca chegar no céu. Na verdade, o que importa é vencer os desafios depois de morto. E lá no Céu ainda tem dois desafios: lutar contra os pássaros que querem matar você e tem uma panela enorme, vermelha de tanto fogo e que vem rolando pra cima de você. Se você morrer lá no céu, aí você vira um bicho e fica por lá.

– Isso! Isso mesmo! Se você aqui na terra teve uma doença que foi por causa do espírito da cobra, então, se você lá no céu morrer, você vai virar uma cobra. Se você teve uma doença aqui na terra provocada pelo espírito da onça e, se você morrer lá no céu, morto pelos pássaros ou pela panela, então você vai virar onça e fica lá no céu e assim por diante.

– Por isso que vocês enterram as pessoas com arco, flecha, rede, borduna. É para que ela esteja armada para a luta contra o sapo e os pássaros…

– Mas tem mais história. Dizem que se você morreu bem magro, lá na entrada do céu você é recebido por uma mulher que tem um peito só e cheio de leite. Então, se você morreu bem magro, ela vai alimentar você lá na porta do céu. Ela é irmã da mãe do Taungue! Quando você está na porta do céu, essa mulher de um peito só e sua mãe e outra irmã dela vem receber você. A mãe de Taungue é irmã dessa mulher de um peito só. A mãe de Taungue é mãe de gêmeos: o Taungue e o Aulukumã.

– Os irmãos gêmeos que são o sol e a lua. Eles tem um avô, não é?

– Sim! Que é o Kuatãni.

– Olha, na minha maneira de pensar, Kuatãni é mais antigo, então.

– Isso. Kuatãni é mais antigo.

– Kuatãni é quem criou todas as coisas? Assim… Na criação, Kuatãni é quem criou esse mundo daqui?

– Sim! Mas aí já é outra história… Nesta daqui, o amigo vivo luta junto com os mortos contra os pássaros e pega as penas lindas deles e traz de volta para sua aldeia e sua família, quando volta do céu. Fica com as melhores penas e distribui para a aldeia as outras penas e conta para todos o que tinha acontecido com ele e, por isso, sabemos o que acontece depois de morto.
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*Pela leitura, você percebeu que Taungue criou o céu dos mortos, mas Kuatãni, seu avô, criou antes o mundo a nossa volta. Num primeiro contato, ao ouvirmos certas histórias, a tentação de usarmos esses nomes indígenas para Deus ou Jesus numa tradução bíblica é grande, pois parece que daria para você tentar desconstruir certas ideias e inflar esses nomes indígenas com os conceitos bíblicos… Tudo isso para não precisar apresentar um “Deus estrangeiro”, mas que seja um Deus mais comunicativo à cultura deles, todavia o trabalho é delicado e essa proposta nem sempre dá certo. O perigo de sincretismo na apresentação do evangelho a uma cultura animista é enorme, uma vez que uma história puxa a outra. E não conhecemos todas as histórias ainda. E um bom exemplo disso está aqui: Taunguinho, o nome do criador do céu, significa “mentiroso” na língua. E, em várias histórias deles, Taungue é exatamente isso: aquele que mente, engana, trai!… Mas o pior não é isso. O que considero um sério problema é que, por algum motivo que ainda desconheço (seja o contato na cidade com cristãos bem-intencionados, mas antropologicamente despreparados, ou seja mesmo antropólogos que propositalmente tentaram neutralizar a ação evangelística), mas o triste fato é que alguns indígenas da cultura com a qual trabalhamos, como, por exemplo, o filho do cacique, já associam Jesus com o mentiroso Taungue. A esperança é que não só a tradução, mas, principalmente, a instrução deles nas narrativas da Palavra Poderosa de Deus (que eles ainda não possuem na própria língua) possa, enfim, corrigir tal confusão que já se instalou na cabeça de alguns indígenas, enquanto outros ainda irão ouvir essas histórias pela primeira vez. Em outras palavras, o trabalho de missões sempre precisará ser um trabalho de evangelização e discipulado, pregação e ensino. Oremos pela perseverança de todos os missionários que são trazidos por Deus às searas indígenas espalhadas em nosso país. Oremos para que a mensagem de que Jesus não os deixará cair seja pregada!

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