“Jesus não vai deixar ele cair” – 1ª parte de duas

Fábio Ribas
Série Dias Índios

arquivo do autor

– Como você sabe? Perguntei ao filho do cacique.

– Bem, aqui na aldeia, o meu tio (que também é cacique) quase morreu… bem… morreu! É como que tivesse morto… É, morreu mesmo! Ele esteve muito doente, mas muito mal mesmo e morreu e viu a escada. A escada que liga ao céu! E depois voltou e contou para gente!

– Mas o que é o céu? Perguntei intrigado.

– É que o índio daqui tem história sobre o céu. Senta aqui que eu vou te contar.

– Posso gravar? …Você vai contar e eu sei que a história é grande, tem muito detalhe… Posso gravar?

– Claro que pode! Disse ele entusiasmado. Mas, na verdade, naquele momento, eu é que estava me controlando para não sair quicando feito uma pilha tão excitado que estava com a oportunidade de mergulhar numa camada mais profunda da cultura deles. Então o filho do cacique começou a contar essa história e seu pai, que estava na minha frente o ajudava, mas quem interferiu o tempo todo foi a mãe do filho do cacique. Ela parecia ser a verdadeira detentora dos detalhes da história e ia sempre dizendo coisas que o faziam ajeitar a história para mim. Aliás, “amá” (mãe), como agora eu a chamo, é também a que é a responsável por ensinar as índias jovens as músicas das festas.

– Tinha dois amigos – começou o filho do cacique – na história que o meu povo tem. Um desses amigos morreu e o amigo, o que ficou na aldeia convivendo com a comunidade, sofreu bastante pela saudade. Sofreeeeu muiiiito pela saudade: andava chorando, ia para roça, tomar banho, qualquer lugar ia chorando, lembrando do amigo. Teve uma grande saudade do amigo. Aí, do céu, o amigo dele (na história diz que quem morre, do céu, fica olhando todo mundo que tá vivo) ficou olhando e disse: “Ah! Meu amigo está sofrendo”, falava. Aí, resolveu voltar para terra e veio e conseguiu se encontrar com ele num lugar. Não sei dizer onde, Professor. Se foi na roça ou num lugar bem distante da aldeia. E apareceu como se fosse vivo ainda. Aí o amigo levou susto, né? “Ah, como que você aparece assim, mas você está morto”! Aí, conseguiu conversar com ele: “Eu voltei porque você está sofrendo muito de saudade”. E conversaram bastante e contou as coisas para o amigo, as coisas que existiam no caminho para o céu. Falou da escada…

– Assim que você morre – perguntei ao meu contador de histórias – a 1ª coisa que tem é a escada que leva a um caminho e depois vem os 4 desafios?

– É. O primeiro desafio é a folha do jatobá. Aí vem a ponte, depois o broto de sapê e, quase chegando no céu, vem o sapo.

– Então, se você passar nesses 4 desafios, você vai para a aldeia dos mortos, mas se você não conseguir, se você não passar num desses 4 desafios, fica a alma perdida para sempre?

– Fica a alma perdida para sempre.

– Mas ela fica perdida em algum lugar? Ela não vai para a aldeia dos mortos?

– Não, ela não vai para a aldeia dos mortos. Ela fica vagando por algum lugar, perdida.

– Esse lugar é aqui entre nós?

– Não, não, ela fica lá. Mas, aí, Professor, a história continua. O amigo morto resolve chamar o vivo para ir com ele conhecer o céu. Aí, o amigo levou susto, mas como estava sofrendo muito resolveu ir junto. “Então”, disse o amigo morto, “você tem que levar flecha, arco e fazer borduna e levar muitas e muitas esteiras para você trazer nelas as penas quando a gente conseguir matar os pássaros. Então, amigo, no 1º eclipse que acontecer, eu venho te buscar para você ver o que a gente tem que enfrentar depois de morrer”. Aí, o amigo ficou esperando o eclipse, pode ser do sol ou da lua. O amigo vivo saiu de casa para longe da aldeia e foi levado pelo amigo morto. Subiram a escada e foram passando os desafios. Mas ele, como estava vivo, não tinha dificuldade de passar pelos desafios. Os desafios são difíceis para os mortos. Então, o amigo vivo foi ajudando o seu amigo morto. O 1º desafio é o da folha do jatobá, que é escorregadia. Se você cair, sua alma está perdida*. O 2º desafio é a ponte, que é estreita. O 3º é o broto do sapê, que é pontudo e vai machucando o pé. Por fim, vem o sapo enorme que quer te comer. Se você conseguir passar por esses quatro desafios, então vai chegar na entrada do céu, que é a aldeia dos mortos… (fim da 1ª parte).

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* Não posso me furtar de compartilhar que contei essa história para minhas filhas, para mostrar a elas porque estamos aqui e a diferença entre a Palavra revelada e as histórias deles. Mas, aqui, exatamente nesse ponto, enquanto eu contava essa história, Gisele me interrompeu e disse: “Mas Jesus não vai deixar ele cair, não é?”. Surpreendi-me com as palavras dela e respondi: Verdade, eles precisam saber que existe um amigo vivo que não vai deixar a alma dos mortos ficar perdida. Mas, eles ainda não conhecem esse amigo vivo, que é Jesus.

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