“Konguinhe”

Fábio Ribas
Série Dias Índios

konguinhe
foto do arquivo pessoal do autor

Da porta da casa em que estou, vejo a casa dos homens no centro da aldeia. Sentado na minha cadeira, observo todos os movimentos do povo e anoto cada passo, gesto e ritual. É óbvio que compreendo pouquíssimo do que acontece, mas quase sempre tenho ao meu lado o dono da casa em que estou, o cacique que vai interpretando para mim a vida na aldeia.
– O que está acontecendo lá fora? – perguntei.
– Eles estão chamando ao centro da aldeia a família do outro cacique para banhar.
– É só a família dele?
– O irmão dele morreu lá na outra aldeia e a família ficou triste. – disse-me o cacique. Lembrei-me desse falecimento, fora umas duas semanas antes.
Quando um parente morre, entra-se num período de luto. Os parentes não dançam, não se pintam, quase não saem de casa, não trabalham e não vão para a escola. Na outra aldeia, onde o índio morreu, os parentes estão fazendo a mesma coisa. Lá, o mesmo ritual está ocorrendo. Eles também se banharão.
– O banho é para tirar a tristeza da morte – diz o cacique.
– Como vocês chamam esse banho?
– Konguinhe. É um banho para tirar a tristeza. A família está muito triste, mas hoje, depois do banho, eles vão se pintar e festejar. A tristeza da morte vai ser lavada e não vai mais ter tristeza…
Enquanto ele narrava os detalhes do ritual, fiquei olhando para o centro da aldeia. Homens, mulheres e crianças da família vêm todos nus para o centro. Eles vêm de cabeça baixa, enquanto outros índios trazem as panelas cheias de água. Então, vejo alguns homens derramarem efusivamente a água sobre a cabeça daquelas pessoas, que saíam dali imediatamente para festejar: pintarão seus corpos e dançarão o dia inteiro.
Konguinhe: um batismo por efusão em plena selva amazônica para declarar que a tristeza da morte foi retirada – eis que a alegria da vida se celebra!… Palavras são alçapões que a cultura utiliza para que sejam guardadas memórias de tempos imemoriais. Deus usará a língua para que o bem e o mal, ocultados nos subterrâneos daquilo que nossos olhos vêem, sejam revelados para um melhor trabalho de tradução.

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