Missão para o mundo de hoje – At.13.36

Carlos del Pino
Série Caminho missionário da igreja

“Tendo, pois, Davi servido ao propósito de Deus em sua geração, adormeceu, foi sepultado com os seus antepassados e seu corpo se decompôs.”

Paulo e Barnabé estavam no início de sua primeira viagem missionária anunciando a Palavra de Deus em uma sinagoga na cidade de Antioquia (Pisídia). Encontramos nesse capítulo o registro da mensagem proferida por Paulo naquela ocasião (13.16-41), bem como a confirmação de que várias pessoas – “os que haviam sido designados para a vida eterna” – creram em Jesus Cristo (13.48). Além disso, como um resultado muito importante, vemos em 13.49 que a palavra do Senhor se espalhou e foi proclamada por toda a região. De certa forma, vemos aqui uma espécie de “eco” às palavras de 12.24 que indicam o crescimento da palavra de Deus que se espalhava dentro e fora da igreja.

A palavra do Senhor, proclamada por Paulo naquela sinagoga, fora dirigida a “israelitas e gentios que temem a Deus” (13.16, 26) e estava em plena conformidade com o contexto de vida dessas pessoas. Vemos isso, por exemplo, quando ele menciona “o Deus do povo de Israel” (13.17), quando se identifica como israelita dizendo que Deus “escolheu os nossos antepassados” (13.17, 32) e ao identificar os seus ouvintes com a ação de Deus na história desde sua permanência no Egito até o ministério e a ressurreição de Jesus Cristo, eventos ocorridos dentro do contexto histórico e geográfico dos israelitas (13.17-31). Paulo, ainda, destaca para os israelitas e prosélitos que o ouviam a importância de Davi nesta história de salvação (13.22-23). E, já no final de sua mensagem, ele procura destacar o valor central da ressurreição de Jesus Cristo nessa própria história de salvação citando textos de Salmos e de Isaias (13.33-35), interpretando-os pela perspectiva da ressurreição – fato novo para aqueles ouvintes. Isso nos mostra, entre outras coisas, que Paulo interpretou a palavra de Deus para o contexto dos seus ouvintes da realidade e do evento da ressurreição de Cristo.

Mas para dar ênfase à ressurreição de Cristo como critério imprescindível de interpretação e proclamação da palavra do Senhor e de salvação, Paulo compara o Cristo ressurreto com Davi – figura central no contexto histórico e religioso de seus ouvintes. Davi, por mais importante que tenha sido, morreu, foi sepultado e seu corpo de decompôs (13.36). Cristo, ao contrário, foi ressuscitado por Deus e seu corpo não se decompôs (13.37). Dessa forma, Paulo mostra a superioridade absoluta de Cristo como o único que pode perdoar os pecados e justificar todo o que crê “de todas as coisas das quais não podiam ser justificados pela Lei de Moisés” (13.39), lei essa que compunha o dia a dia daqueles ouvintes de Paulo.

Um outro elemento que Paulo destaca em sua abordagem de Davi é que antes de sua morte, sepultamento e decomposição, Davi “serviu ao propósito de Deus em sua própria geração” (13.36). Há alguns elementos aqui que condizem com a própria abordagem feita por Paulo e que são muito importantes para nós hoje:

1. Davi se via e agia como alguém que, mesmo sendo o rei de seu povo e possuindo muitas riquezas e poder, estava ali para servir. A forma como Paulo se refere ao serviço na vida de Davi somente nos permite vê-lo como alguém que dedicou a sua vida completamente ao serviço. Servir, portanto, na vida de Davi não era um estado de ânimo temporário, muito menos um pequeno conjunto de atitudes limitadas aos seus interesses pessoais. Inclusive, a palavra serviço aqui era a mesma usada para indicar os escravos que passavam dia e noite remando nos porões das galeras romanas. Não há como escapar de uma compreensão do serviço como uma atitude que define em tudo a vida, os sentimentos, as atitudes, a administração dos bens e a espiritualidade de todos que convivem com o Cristo ressurreto. Podemos dizer, então, que o serviço dá os devidos contornos ao exercício relevante da missão cristã para os dias de hoje.

2. O serviço prestado por Davi foi completamente condicionado pelos propósitos de Deus. Na verdade, ele serviu aos propósitos e aos desígnios de Deus mesmo não estando ciente disso em muitas circunstâncias, visto que “todos os dias determinados para mim foram escritos no teu livro antes de qualquer deles existir” (Sl 139.16). Mas uma vez sabedores de que servimos aos propósitos eternos e redentores de Deus, devemos busca-lo de maneira intensa e completa em nossas vidas. A compreensão e a vivência desse fato é um elemento fundamental para a vida cristã, visto que assim desenvolvemos nossa confiança, dependência e fé em Deus, bem como encontramos traços visíveis de sua ação redentora em nosso próprio contexto histórico e humano. Essa compreensão, ademais, nos conduz dia a dia à palavra do Senhor num processo permanente, renovador e contextualizador de leitura e interpretação. Esse conjunto, inevitavelmente, delineia e direciona a vivência da missão cristã nos dias atuais.

3. A vida de serviço aos propósitos de Deus, na experiência de Davi, foi vivida em sua própria geração. Obviamente, Davi estava conectado a toda densa história passada de seu povo, bem como suas ações, decisões e literatura marcaram profundamente a vida futura desse povo (vemos isso na própria mensagem de Paulo!). Entretanto, o próprio Davi não pôde servir, ele mesmo, nem à geração de seus pais e avós, nem à geração de seus filhos e netos. Ele morreu e o que pôde fazer o fez nos seus próprios dias ou, de forma mais ampla e clara, o fez no contexto dos seus contemporâneos. Cada geração é caracterizada por uma série de elementos vinculados à sua história, religião, sistema social, economia, filosofia e esperanças. Ao servir aos propósitos de Deus em nossa própria geração, devemos fazê-lo de forma condizente com o perfil que nossa geração assumiu. É simplesmente impossível servir aos nossos contemporâneos seguindo as mesmas formas, o mesmo padrão de raciocínio e os mesmos critérios filosóficos condizentes aos contemporâneos dos nossos pais e avós ou mesmo adequados a outras regiões do mundo. Esse é um fator que deve ser levado em conta na missão cristã que temos recebido de Deus.

Ao olhar para o mundo dos nossos contemporâneos – o único mundo no qual podemos estar e somente onde podemos viver a missão – precisamos entende-lo de forma profunda. Para servir aos propósitos redentores de Deus é essencial compreendê-los em sua totalidade, bem como conhecer muito bem os contornos e matizes da nossa própria geração. Assim, nossa missão repousa sobre uma tarefa hermenêutica permanente muito ampla: estudar as Escrituras encontrando nelas os propósitos redentores de Deus, estudar a sociedade encontrando a alma da nossa geração e criar as devidas pontes para que a mensagem de Deus seja proclamada e vivida de forma relevante e transformadora dentro dessa geração. A esperança dessa ampla hermenêutica é que “o encontro entre Deus, seu povo e sua palavra fará com que surjam respostas, soluções e novos horizontes.”

Sendo assim, não podemos agir como igreja em missão a não ser que os propósitos ou a vontade de Deus estejam muito claramente solidificados em nossos corações através do renovado conhecimento do conteúdo bíblico em sua totalidade. Também será impossível agir como igreja em missão se desconsiderarmos em profundidade os contornos filosóficos da nossa geração que determinam o comportamento, as tendências, os anseios, as necessidades, a vida social, a família, o consumo, os medos e o mercado (inclusive religioso) entre outros elementos.

Nesse sentido, como igreja missionária que lê as Escrituras e os sinais da nossa geração, não podemos nos render ao que vem do passado trazendo conceitos e propostas que têm dificuldades de ajuste como se tivesse força de presente, nem ao que vem de fora trazendo conceitos e propostas mercadológicas como se tivesse força de divino. O que vem do passado e o que vem de fora devem ser acolhidos como contribuições que precisam ser avaliadas e adaptadas ao nosso contexto se de alguma forma forem úteis, mas nunca acolhidas como se fossem a única e correta forma de se viver a missão no Brasil ou a partir do Brasil. A tarefa que realmente nos interessa e pesa sobre nós é a de hermeneutas da palavra de Deus e hermeneutas do ser humano contemporâneo. Como igreja no Brasil, neste nosso momento histórico, filosófico e social, não podemos abrir mão desse privilégio. Devemos reconhecer que a missão dada por Jesus à nossa igreja somente pode ser vivida, sob os propósitos de Deus, dentro dos contornos da nossa geração.

Tendo, pois, cada um de nós e a igreja brasileira como um todo, servido ao propósito de Deus em nossa própria geração, adormecemos… E a palavra do Senhor se espalhava por toda a região!

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