Egitsü (A morte visita a aldeia – 3ª de 4 partes)

Fábio Ribas
série Dias Índios

Foto do arquivo pessoal do autor

– Professor, você viu por que a criança morreu, não? O pai não quis dar o que ela pediu, então o espírito da onça foi lá e puxou ela para dentro da água. Se suas meninas pedirem alguma coisa para você, pode até ser porcaria, mas tem que dar para elas…

– Não – respondi, olhando fixamente para o Cacique – as minhas filhas têm uma proteção maior. Elas não vão ser pegas pelo espírito da onça. Elas são protegidas por um Espírito maior!

Dentro da casa, o filho do Cacique vai lavando a criança e retirando suas roupas. Tudo agora girará em torno de ornamentar aquela criancinha com todos os aparatos de um Cacique. Algumas mulheres estão confeccionando uma linda esteira, arcos e flechas pequeninos. O Cacique presente na aldeia é o líder da cerimônia e começa a pintar o cabelo da criança com urucum. Depois, ele fura as orelhas da criança. Coloca em seu pescoço o colar de caramujo usado pelos homens e o colar de garras de onça usado pelos Caciques. Fazem os braceletes e as caneleiras. Uma vez pronta, aquela pequena criança toda vestida de Cacique é colocada em uma rede que nunca foi usada por ninguém. Dentro da rede, junto com o corpo, colocam a esteira, a borduna, os arcos e flechas.

O Cacique está apreensivo já que os outros líderes da aldeia se encontram em viagem e ele terá que tomar as decisões sozinho. O filho dele o ajuda escolhendo quem serão os quatro indígenas que abrirão a sepultura no centro da aldeia para o enterro do menino. É preciso pressa, pois já vai escurecer.

Uma vez escolhido os que irão abrir o buraco na terra, revezam-se naquele trabalho duro. Abre-se um buraco de quase dois metros de profundidade, mas com apenas um pouco mais de um metro de diâmetro. No fundo do buraco, tanto para o lado esquerdo, quanto para o direito, cavam pequenas câmaras. Numa deverá ficar a cabeça e na outra os pés, de modo que apenas o tronco da criança seja visto por quem olha de fora do buraco.

Outra decisão que precisa ser tomada é se aquele velório se tornará a Grande Festa ou não. Na língua do meu povo, a Grande Festa é chamada de Egitsü, que significa o “canto dos mestres”, já que daqui um ano os mestres de canto ficarão cantando a noite inteira. Aprendi aqui que essa Grande Festa não dura apenas um ou dois dias, que é quando turistas do mundo todo vêm para participar do que, na verdade, é apenas o encerramento do velório. Egitsü começa na noite do enterro e por todo um ano (ou dois) segue através de uma série de festas até o dia do encerramento.

Com o corpo já na rede, carregam a criança e dão uma volta na casa antes de se dirigirem ao centro da Aldeia. Os parentes vêm todos juntos ao lugar do enterro: em grupos de 4 e todos com suas cabeças cobertas por toalhas ou panos. Quando começam a descer o corpo da criança, os pajés quebram duas cabaças e lançam as sementes sobre o corpo da criança. Entretanto, ao colocarem o corpo da criança no buraco, ocorre a cena mais angustiante de todo o rito fúnebre. Um após o outro, os parentes descem dentro do buraco e deitam sobre o corpo para uma última despedida e só saem de dentro do buraco arrastados, pois ficam como mortos… Alguma coisa acontece lá dentro. Quando eles deitam sobre o corpo da criança naquele buraco apertado, eles levam “um choque” e por isso desmaiam lá dentro. É preciso, portanto, que a cada parente que desce – pai, mãe, avô, avó, tio, tia, irmão, etc – alguém depois desça junto e com a ajuda de outros indígenas fortes, retirem esses parentes de lá de dentro. Eles saem como se estivessem mortos e assim ficam desacordados por vários minutos!

– O que é isso? Perguntei a um indígena que catara um pouco de terra e fazia uma bola com ela.

– Os pais agora pegam um pouco da terra que vai ser usada para enterrar a criança e guardamos para trazer sorte aos nossos filhos! Professor? – ele continuou – Eu nunca soube de uma família de brancos que assistisse a esse enterro. Conversei com meu pai e ele disse que também nunca soube de uma família não-índia presente nesses momentos… Acho que vocês são os primeiros a verem isso aqui! As pessoas vêm à Grande Festa e acham que é só aquilo. Mas, hoje, já começou a Grande Festa.

O choro de toda a Aldeia não cessou nenhum instante sequer naquelas 6 horas que já se seguiam. O luto da Aldeia só terminaria 4 dias depois. A família da criança só sairá do luto daqui um ano no dia da grande Festa.

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