O início (A morte visita a aldeia – última parte)

Fábio Ribas
Série Dias Índios

Na foto, é debaixo da panelinha que a criança está enterrada – foto do arquivo pessoal do autor

Sabíamos que ele chegaria a qualquer momento durante a noite. O Feiticeiro chegou às 22:17. Percebemos, pois, quando chegou, dentro da casa ao lado, as vozes aumentaram. Começou uma discussão na língua deles, que foi se misturando ao choro de luto dentro da casa. Eles levantaram as vozes e soubemos que estavam nervosos com a presença do Feiticeiro. A discussão alongou-se por algum tempo até que alguém gritou na língua: “Vá embora”! Imediatamente, a casa fez silêncio.

No dia seguinte, entretanto, ele ainda estava lá. Percebi o olhar de soslaio e assustado de um indígena que escondido mirava o Feiticeiro.

– É ele o Feiticeiro, não? Perguntei ao indígena.

– Ele não é bom…

– Eu sei, já me falaram sobre ele. Os índios dizem que ele anda sobre as águas…

– Ele matou meu avô! Disse-me, abaixando os olhos. Meu avô disse ao meu pai antes de morrer que foi esse Feiticeiro quem o envenenou…

– Ontem eu ouvi eles gritando. Você sabe o que foi?

– O Feiticeiro está com raiva, dizendo que já pagaram até R$ 4.000,00 lá na outra aldeia para matá-lo… As pessoas aqui estão dizendo que foi ele que matou com feitiço a criança que enterramos ontem.

– Mas ela não foi morta pelo espírito da onça?

– Mas quem mandou o espírito foram três feiticeiros. Os pajés ouviram os espíritos falarem. Os pajés têm medo dos feiticeiros, medo de vingança, então eles não dizem os nomes dos feiticeiros para não acabarem morrendo também.

Nesse momento, vi 4 rapazes saírem de dentro da Casa dos Homens com espingardas nas mãos. A criança estava enterrada logo ali na frente dessa Casa.

– O que eles estão fazendo?

– A criança foi morta por um feiticeiro, então o feiticeiro irá aparecer no meio da noite em cima do túmulo da criança para roubar o espírito dela para si, assim os jovens passarão algumas noites escondidos, fazendo tocaia. Se o feiticeiro aparecer, eles o matarão.

De todo esse ritual do enterro, todos os participantes serão pagos pela família da criança. O pai da criança pagará com colares, comida e outras coisas aos que cavaram o buraco, pagará ao índio que lavou a criança, pagará ao que a pintou, aos que irão pescar para a comunidade, etc. Tudo pago. Durante um ano, a família também deverá alimentar com peixes, bijus e pequis a aldeia, sempre que esta for requisitada para alguma das festas relacionadas com o velório da criança. Assim, morrer aqui é tão caro para a família do falecido quanto é em nossa cultura.

Alguns índios seguem o pajé em fila, indo do túmulo para a casa e da casa para o túmulo. O pajé segura nas mãos galhos de uma planta especial para aquele ritual. “É para mandar o espírito da criança embora daqui da aldeia”, explicou-me o pajé. “Ela precisa ir embora agora. Então estamos pedindo que ela vá de vez, do contrário ela poderá ficar querendo se despedir aos pouquinhos e aparecer nas nossas casas. Se ela não for embora, quem encontrar com ela será sinal de que alguma coisa muito ruim vai acontecer com essa pessoa”.

Enfim, eles queimaram as roupas e alguns outros pertences da criança falecida no centro da aldeia. Os jovens pegarão madeiras e com elas a aldeia preparará uma espécie de cercado para o túmulo da criança. O pai da criança raspa o cabelo totalmente. Ele só voltará a cortá-lo no próximo ano na Grande Festa.

A partir de agora, todas as festas da aldeia irão girar em torno desse velório até o seu encerramento daqui um ano (ou dois, se a família for pobre). Assim, tudo o que escrevi é apenas o início de um longo e revelador rito, no qual, segundo alguns antropólogos cristãos, talvez possa existir uma semente plantada por Deus sobre uma possível crença deles na ressurreição. Precisamos descobrir. Orem por eles, orem por nós.

***

“Foi aqui que o neto dela morreu, Professor. Acharam o corpo do menino ali, já no meio do rio”, explicou-me o barqueiro… Quase me esquecera da tristeza fúnebre daqueles últimos dias, mas ao chegarmos às margens do Posto Indígena (última parada antes de sairmos da Região dos Povos), aquela senhora indígena começou o seu doloroso lamento sob a forma de um canto repetitivo, um transe soturno. Aquela ladainha me trouxe à mente tudo o que passamos na aldeia naquele mês, mas que agora estávamos deixando para trás. Eu e minha família voltávamos à cidade e só retornaríamos para a aldeia daqui 15 dias, entretanto o povo permaneceria ali com toda a sua dor… e medo.

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