Na minha cultura não existe deus

Cácio Silva
série Culturas

A crença em forças impessoais

Algum tempo atrás um líder indígena da nossa área me procurou dizendo não saber o que fazer da sua vida, pois sempre que se embriaga causa danos terríveis à sua família. Desapontado, seu filho de 15 anos não queria ser como ele e sua esposa o reprovava como marido. Disse que já tinha buscado solução na igreja, o padre o orientou a rezar, mas ele encontrava um sério problema com isso: “não sei rezar”. Após compartilhar o Evangelho com aquele indígena, o ensinei como orar. Ele se assustou, dizendo que jamais tinha pensado que é possível falar com Deus como se Ele estivesse presente! Dois anos se passaram, quando recentemente ele me procurou novamente em crise. Dessa vez, ainda meio embriagado, se abriu comigo: “o padre me mandou rezar, você me mandou conversar com Deus, mas ainda não entendo como fazer nada disso pois na minha cultura não existe Deus!”

Este é um dos mais complexos desafios para a comunicação do evangelho em muitas culturas, dentre elas muitas das culturas indígenas. São culturas desprovidas da categoria de Deus, ou seja, no padrão de pensamento do povo não existe a ideia de um ser supremo, pessoal, bom, relacional e ativo. No caso desse indígena especificamente, existem em sua cultura o que a antropologia classifica como heróis míticos, personagens das histórias dos antigos que na época das origens realizaram grandes feitos, não raramente organizaram o universo tornando-o habitável e estabeleceram os principais elementos culturais. No entanto, os heróis míticos não são deuses e sim humanos com poderes sobre-humanos. Também não são eternos, pois como humanos ou quase humanos ficaram no passado e hoje não interagem mais. Eles não estão na categoria de Deus. Portanto, estamos falando não de culturas ateias, que não crêem na existência de Deus, mas sim de culturas que não concebem a ideia de Deus como um ser pessoal.

No caso específico, o que existe é uma força impessoal, não personificada, dispersa no universo, a-ética (podendo ser boa ou ruim) e manipulável. É essa força que dá vida ao universo, tanto aos humanos quanto aos animais, tanto aos vegetais quanto aos minerais, e a ela que os xamãs manipulam tanto para obterem o bem quanto o mal. Na antropologia, essa força tem sido chamada de mana e foi percebida inicialmente na Melanésia. Posteriormente, pesquisadores como Robert Marret e Marcel Mauss concluíram que concepções muito semelhantes estão presentes em várias culturas, cada uma usando um termo específico. Com pequenas variações, o mana dos melanésios é equivalente ao orenda dos Iroqueses, ao wakan dos Sioux, ao pokunt dos Shoslone, ao manikut dos Algonkim, ao nauala dos Kwakuutl, ao yek dos Tlinkit e ao sangâna dos Haida. No noroeste da amazônia brasileira, os indígenas Yuhupdeh a chamam de dääwä-wág, os Hupdah de íb’-wag e os Tukano de katiri-imiko.

Se no centro do universo está não um ser pessoal mas uma força impessoal, as implicações são muitas e complexas. A primeira é que culturas assim terão extrema dificuldade de compreender a pessoa de Deus, já que este é essencialmente pessoal e relacional. Se não compreenderem a ideia de Deus, também não compreenderão a ideia de pecado, pois esta é uma ofensa contra Deus. Força impessoal não se ofende, portanto, nessas culturas a tendência é conceber pecado como puramente social e não espiritual, ou seja, pecado é apenas a ofensa ao outro. E se não compreenderem pecado, muito menos compreenderão a ideia de salvação, afinal, salvar-se de quê? Se não compreenderem Deus, pecado e salvação, os conceitos mais fundamentais da Palavra, nada mais no Evangelho fará sentido.

Agora, pensando bem, nossa sociedade secularizada não caminha nessa mesma direção? Um universo sem Deus, consequentemente com pecado apenas social e, portanto, sem necessidade de salvação?

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