Resultados missionários na vida da igreja enviadora

Carlos del Pino
série Resultados missionários

Não é muito fácil definir-se “igreja enviadora”… Poderíamos nos referir a um amplo leque de possibilidades que vai desde uma igreja local com seu programa de ajuda financeira a alguns missionários e/ou pretensão de tornar-se ela mesma uma agência de envio missionário até uma denominação com sua junta ou agência missionária estruturada, passando inclusive por organizações missionárias não-denominacionais ou, quem sabe, até mesmo pelos vários sistemas de auto-envio missionário supostamente independentes.

Talvez possamos incrementar esse leque agregando-lhe alguns modelos metodológicos missionários que, periodicamente, entram e saem de moda, gerando uma espécie de “missiologia evangélica popular” que, em certa medida, determinam as formas e procedimentos, bem como uniformizam as expectativas quanto aos resultados do trabalho dos missionários por parte de quem envia.

Mas, por outro lado, de certa forma não é tão difícil definir-se “igreja enviadora” no sentido de que, como igreja, denominação, organização ou pessoa, no geral, nos consideramos ou não “enviadores”. Partamos, então, desse simples princípio de considerarmo-nos ou não enviadores. No geral, definimo-nos como “enviadores” porque reunimos, total ou parcialmente, um conjunto básico de características, tais como: temos um Conselho Missionário, ajudamos parcialmente com o sustento de algum missionário, fazemos algum trabalho de plantação de igreja em nossa cidade, participamos de algum movimento nacional ou regional de evangelização, alguns dos nossos membros participam de iniciativas missionárias de curto prazo dentro ou fora do país, temos um projeto de assistência a congregações fracas de regiões pobres do nosso país, etc.

Somos uma igreja enviadora? Se a resposta for positiva, devemos perguntar-nos então, o que esperamos de nós como igreja missionária e enviadora?

A esta pergunta possivelmente não encontremos respostas fáceis, visto que em geral esperamos mais dos missionários que enviamos (ou ajudamos a enviar) do que de nós mesmos como enviadores. Sem dúvida, estamos conscientes de que sempre há aspectos que devem ser melhorados na nossa performance como enviadores, mas devemos reconhecer que nossa maior e mais volumosa expectativa de resultados sempre recai sobre os obreiros que estão nos campos, por isso a exigência de cursos preparatórios, entrevistas, envio de projetos, perfis psicológicos, relatórios trimestrais, cartas mensais de oração, visitas periódicas aos parceiros, apresentação dos trabalhos em PPT, vídeos e redes sociais, etc.

Mas voltemos à pergunta que nos interessa: se nos consideramos uma igreja enviadora, que resultados missionários devemos esperar de nós mesmos? Diante dessa pergunta gostaria de sugerir alguns elementos que nos ajudem a avaliar-nos e a crescer como igreja enviadora e missionária que somos, baseando-nos no próprio conceito da palavra “igreja” que indica uma assembleia ou uma comunidade onde todos compartilhamos a mesma experiência de ser alcançados pela graça de Cristo, a mesma fé e esperança em sua obra e o mesmo chamado para servi-lo integralmente entre todos os seres humanos.

1. Aguçado conceito vocacional

Um dos resultados que devemos ver e esperar na vida da igreja enviadora é o seu aguçado sentido vocacional. A igreja é missionária a medida em que compreende biblicamente sua própria vocação e a assume em todas as dimensões de sua vida e atividades. Sua consciência de que Cristo a “tirou do mundo e a enviou novamente ao mundo para servi-lo” (Jo 17.14-15) lhe dá o necessário equilíbrio para tomar suas decisões, fechar seus orçamentos, organizar suas atividades e promover a mensagem do evangelho.

Nesse sentido, vocação não é uma experiência restrita a pastores e missionários; é, antes, uma experiência compartilhada por todos os que creem em Cristo e que os direciona ministerialmente como povo de Deus no mundo. Esse conceito vocacional lhe concede uma imprescindível dimensão missionária, qualificando de forma muito especial todas as atividades consideradas missionárias e abrindo sua visão para o necessário avanço vocacional do seu próprio sentido como igreja missionária.

Precisamos crescer em nosso conceito e experiência vocacional como crentes e como igrejas. Esse desenvolvimento vocacional da igreja, portanto, que lhe orienta em suas decisões e programações, deve ser encarado como um necessário crescimento na vida eclesial e deve ser esperado como um dos principais resultados missionários na vida de uma igreja enviadora: somos enviadores e missionários a medida em que crescemos e aguçamos nosso sentido vocacional como povo de Deus no mundo.

2. Permanente dedicação hermenêutica

Outro resultado que esperamos na vida da igreja enviadora é a sua maturidade como interprete das Escrituras Sagradas. Não me refiro simplesmente a que tenhamos um bom grupo de teólogos profissionais ou pastores bem preparados (isso também tem o seu lugar); antes, a que cada cristão em interação com sua igreja seja um comprometido leitor e intérprete da palavra de Deus, de forma que todos juntos, como igreja missionária, encontremos permanentemente no ensino bíblico os caminhos missionários de Deus no mundo, para que nos enquadremos de forma fiel e diária à sua vontade redentora.

Ler, estudar, meditar e refletir sobre as palavras e os ensinos da Bíblia pode estar tornando-se uma experiência bem pouco frequente e motivadora para muitos ou algo reservado para os eruditos. Entretanto, continuamos sendo o “povo do livro”! Um povo que lê e que interpreta a Bíblia cuidadosamente porque sabe que nela estão as palavras de vida eterna e são elas que testemunham a respeito de Jesus Cristo (Jo 5.39). Nos caracterizamos por sermos leitores estudiosos e interpretes da Bíblia e, consequentemente, esse fato nos define também como os seguidores dos princípios ensinados pela Bíblia.

Nesse sentido, ler e interpretar a Bíblia é uma atividade permanentemente transformadora das nossas vidas, famílias e entorno. Define, também, os novos rumos que deveremos seguir a partir de agora como testemunhas vivas do evangelho de Cristo. Ler e interpretar a Bíblia, pessoal e eclesialmente, nos torna um povo missionário, comprometido fielmente com a proclamação do evangelho entre todos os seres humanos.

Uma igreja se define como enviadora e missionária quando vê em sua experiência e na vida dos seus membros a permanente dedicação à leitura, interpretação e aplicação da palavra de Deus tanto em suas vidas e sociedades, como na de outros que necessitam receber a mensagem de Cristo.

3 . Intenso compromisso evangelizador

O seu constante empenho evangelístico e evangelizador é, também, um dos resultados missionários que encontramos na vida de uma igreja enviadora. Devemos entender “evangelístico” e “evangelizador” como uma referência ao discipulado bíblico: nosso envio por Cristo ao mundo é fundamentalmente para “fazer discípulos de Jesus Cristo” (Mt 28.19), ainda que, frequentemente substituímos esse discipulado evangelizador por elementos secundários do trabalho missionário (tais como fazer a igreja crescer, plantar novas igrejas, revitalizar outras, etc), o que pode nos distrair do objetivo principal de discipular.

Sendo assim, uma igreja enviadora e missionária não é a que “faz missões” apenas enviando pequenas ofertas mensais à missionários que estão em outras terras; ela é, em si mesma, por meio das suas atividades e da vida de seus membros e famílias, uma igreja que se dedica apaixonadamente à evangelização e ao discipulado de homens e mulheres do seu entorno social.

Quando olhamos para nós mesmos, como igreja enviadora, devemos ver-nos em um permanente processo de evangelização e um renovado compromisso com a formação do caráter e da vida cristã. Esse, sem dúvida, é mais um dos necessários e permanentes resultados missionários na vida das nossas igrejas enviadoras.

4. Consagrado serviço diaconal

Servir ao próximo em suas necessidades, membro ou não-membro, crente ou pagão, é mais um resultado missionário que se espera na vida de uma igreja enviadora. O reconhecimento de que todos os seres humanos foram criados à imagem de Deus e, por isso, são dignos e merecedores do nosso respeito e ajuda, como forma de expressão do amor de Deus, é uma parte fundamental da visão que temos de todos os seres humanos e de nós mesmos como igreja, qualificando o nosso envolvimento missionário no mundo por meio de nossas atitudes e atividades diaconais.

A palavra de Deus se espalhava e o número de discípulos crescia em Jerusalém como consequência do diaconato sábio exercido pelos sete, especialmente porque essa ação diaconal estava essencialmente vinculada com a pregação da palavra pelos doze (At 6.1-7), indicando a importância de que ambos ministérios sejam exercidos como dimensões da mesma missão da igreja. A obra missionária está sempre vinculada com as diversas atividades e dimensões do serviço diaconal, não apenas quando essa obra se realiza em países, regiões ou comunidades pobres. Também em regiões onde a população não carece dos serviços básicos e tem suas necessidades plenamente cobertas, a dimensão diaconal da ação missionária é profundamente necessária, atendendo a necessidades sociais e humanas que vão muito além da fome e a enfermidade.

Uma igreja verdadeiramente enviadora é aquela que investe em trabalhos diaconais nos diversos campos missionários (seja em regiões pobres, seja em regiões ricas) e que se caracteriza, ao mesmo tempo, por seus programas de misericórdia atendendo tanto a seus membros quanto a famílias do seu entorno. Um dos resultados missionários na vida da igreja enviadora é, portanto, seu consagrado serviço diaconal.

5. Consciência da natureza missionária

Gostaria, por fim, de sugerir que nossa auto-consciência missionária como povo de Cristo no mundo deriva-se de nossa própria natureza missionária: como povo de Cristo no mundo somos, inevitavelmente, um povo missionário que mantemos atitudes missionarias em nossas decisões e caminhada, bem como em nossos programas e atividades.

Essa consciência de que somos, por natureza, um povo missionário nos define todo o tempo e em todas as nossas dimensões eclesiais, pessoais, profissionais e familiares. Saber que somos um povo missionário é reconhecer que o nosso Senhor fora enviado pelo Pai ao mundo com uma missão redentora e que, à luz do seu envio pelo Pai, ele mesmo nos envia ao mundo, como discípulos e igreja, para viver e anunciar por palavras e obras seu evangelho da redenção (Jo 17.18).

Se somos uma igreja enviadora não é porque certo grupo de irmãos mantem um determinado compromisso com a intercessão e o sustento financeiro de alguns missionários; antes, é porque reconhecemos biblicamente essa nossa natureza essencial e inegavelmente missionária e, por vernos dessa forma, assumimos os necessários compromissos e riscos com a missão de Cristo no mundo. Dessa forma, a manifestação em nós mesmos da consciência que temos da nossa natureza missionária torna-se um dos resultados missionários mais esperados na vida de uma igreja enviadora.

Concluímos, portanto, repetindo as perguntas feitas no início: somos uma igreja enviadora? Que devemos esperar de nós como igreja enviadora e missionária? Poderíamos sofrer a tentação de responde-las pedindo que a igreja nos envie cópia do seu orçamento, estatísticas e outros números, o que certamente nos daria um pequeno vislumbre das respostas, mas se nos cercamos apenas de números e conceitos mercadológicos, possivelmente jamais nos aproximaremos das respostas verdadeiras.

Por outro lado, esperamos que estes cinco resultados missionários de uma igreja enviadora, mencionados acima, nos ajudem em nossa busca por um equilíbrio em nossa visão e ação missionária no mundo!

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