Resultados Missionários nas Agências Missionárias

Carlos del Pino
série Resultados Missionários

Atualmente contamos com um grande número de agências missionárias, graças a Deus por isso! Algumas são denominacionais, outras interdenominacionais; algumas se dedicam a todo tipo de ministério, outras procuram atender a ministérios específicos; algumas atuam em todas as partes do mundo, outras preferem trabalhar em regiões determinadas; algumas entendem que todos os seres humanos formam o seu campo missionário, outras definem uma determinada parcela da humanidade como seu campo de missão. Certamente essa pluralidade de agências missionárias com diversos conceitos e perspectivas de missão tem sido usada por Deus para que o seu evangelho chegue a muitas pessoas. Mas, por outro lado, quando falamos de “resultados missionários”, corremos o risco de excluí-las ao pensar que as agências são as que têm o dever e o direito de avaliar o trabalho dos missionários e exigir-lhes um “alto grau de rendimento e de resultados”, não tendo, portanto, elas mesmas, que produzir também seus próprios resultados missionários.

Entretanto, sempre fica a pergunta sobre o que, de fato, esperamos ou podemos esperar das agências missionárias. Ou colocando a pergunta de forma mais completa: que resultados missionários devemos ver e esperar na vida das nossas agências missionárias? Ou talvez poderíamos nos perguntar se, de fato, as agências missionárias deveriam produzir determinados resultados missionários e a quem deveriam prestar contas de tais resultados. Seria essa, também, sua responsabilidade vocacional diante de Deus?

Reconhecemos, em primeiro lugar, que, de forma geral e ampla, a maioria dos irmãos e das igrejas veem a agência apenas como uma “administradora” do trabalho missionário realizado por seus obreiros. Essa é, também, a visão mantida por muitos dos que estão envolvidos e participam diretamente na liderança das agências. Partindo dessa perspectiva, os resultados produzidos por uma agência missionária, sejam quais forem seus vínculos, origem e ênfases ministeriais, seriam apenas administrativos: providenciando a documentação necessária para os vistos de permanência dos missionários em outros países; responsabilizando-se pelos trâmites e custos da remessa mensal de sustento dos seus missionários e seus projetos; divulgando os diversos ministérios e levantando os recursos suficientes para a sua manutenção digna dentro e fora do Brasil; oferecendo planos de saúde, de aposentadoria e de vida aos seus missionários e famílias; avaliando, selecionando, treinando e enviando dignamente seus futuros missionários; criando procedimentos e normas que promovam e facilitem a realização do trabalho missionário; autorizando a criação de estruturas eclesiásticas em outras regiões, etc.

Nesse sentido, seria suficiente e satisfatório considerar, como seu propósito principal, somente os aspectos administrativos realizados pelas agências? Ou estaríamos, neste caso, nos esquecendo que o seu propósito principal de glorificar a Deus deveria se manifestar também vocacionalmente e com fortes dimensões missionárias? Assim sendo, gostaria de sugerir algumas reflexões e sugestões acerca do necessário resultado missionário que deve ser visto e esperado em nossas agências missionárias. Que resultados missionários devemos esperar delas?

1. Um adequado auto-entendimento da missão:

Ao tratar deste resultado missionário, voltamos brevemente ao início desta série, quando mencionamos que os resultados sempre são causas e consequências dos conceitos fundamentais que definem os nossos princípios, que formatam os nossos valores e que nos movem a agir de determinadas maneiras. Nesse sentido, ao procurar estabelecer resultados missionários para as nossas agências, deveríamos começar, também, com a urgente revisão e o necessário resgate desse auto-entendimento bíblico-teológico que devem demonstrar sempre quanto à missão.

Estes elementos que já foram mencionados como fundamentos necessários para um adequado auto-entendimento da missão, tais como a ação missionária de Deus no mundo, a realidade do pecado humano e da necessidade de salvação, bem como a natureza missionária da igreja, não podem ser buscados apenas na vida dos obreiros e suas igrejas locais. Devem, igualmente, oferecer os contornos que definem a forma como nossas agências se compreendem e atuam. Em outras palavras, partindo desse auto-entendimento bíblico-teológico da missão, as agências e sua liderança devem ver-se a si mesmas como prioritariamente engajadas na missão e compreendendo-se como parte da missão de Deus no mundo, antes que prioritariamente engajadas na administração dos que fazem o trabalho missionário. Nesse sentido, as agências deveriam definir-se e atuar, não como se encerrassem a missão em si mesmas; antes, como sendo uma das expressões da vocação missionária dada por Deus ao seu povo, a igreja. Isso altera e redefine, claramente, os resultados missionários que produzem.

2. Administração como expressão da vocação missionária

De fato, as agências respondem à uma vocação de liderança que se expressa volumosamente de forma administrativa, o que as leva a investir tempo, recursos, capacidades, talentos, espaços físicos, equipamentos e pessoas nessa dimensão administrativa tão necessária e importante. Obviamente, ao serem fieis à essa resposta vocacional, podem apresentar um tipo de resultado missionário abençoador, à medida que compreendam biblicamente a sua própria vocação, respeitam o espaço missionário que devem ocupar e se dedicam a criar as condições para que o trabalho missionário seja promovido, ampliado e facilitado.

Dessa forma, as agências missionárias não podem se ver ou agir como se fossem apenas uma agência administradora do trabalho missionário; se fosse assim, correriam o grave risco de fundamentarem sua visão e atuação em critérios puramente eclesiásticos, empresariais, antropológicos, marqueteiros ou mercadológicos, conforme o caso, e, consequentemente, deixaríamos de falar sobre seus necessários resultados missionários e passaríamos a falar apenas de resultados numéricos, econômicos e de avanço geográfico de suas esferas de ação de mundo, algo que dificilmente expressa os almejados resultados missionários que todos buscamos. Por outro lado, ao considerar o trabalho administrativo como uma resposta vocacional consagrada à missio Dei, as agências podem se ver agindo missionariamente no mundo, pois são também, de fato, participantes efetivas da missão redentora de Deus entre os seres humanos.

3. O envolvimento pessoal de seus líderes na obra missionária

Como um resultado que segue o anterior, a liderança das nossas agências, bem como os demais irmãos que servem em suas diferentes áreas e departamentos internos, não podem agir meramente como administradores e gerenciadores que se dedicam a estabelecer alvos numéricos para os obreiros que estão nos diversos campos de trabalho. Devem, também, e como um requisito fundamental para ocuparem essas funções, estar pessoalmente envolvidos na obra missionária, evangelística e diaconal em seus ministérios locais, sendo eles mesmos instrumentos de Deus, pessoalmente falando, para que outros recebam a mensagem clara do evangelho, sejam discipulados e integrados na vida da igreja.

Esse envolvimento pessoal e consagrado com a obra de Deus não pode ser confundido com as intensas atividades eclesiásticas formais que também fazem parte da vida dos líderes das nossas agências missionárias. Nesse sentido, é perigoso pensar que, por exemplo, pastores que administram em suas igrejas locais, de forma direta ou indireta, um exitoso programa de plantação de igrejas levado a cabo por diversos obreiros e voluntários, estaria apto para liderar uma agência missionária visto que isso o limita à esfera puramente administrativa desses projetos. Por outro lado, o envolvimento pessoal com a evangelização, o discipulado, o atendimento diaconal e a integração de pessoas à igreja local lhes concedem uma experiência qualificada pelo entendimento bíblico-teológico que forma uma base necessária para que sua participação na “gestão missionária” (desculpem o termo usado!) seja feita a partir do seu mais profundo sentido vocacional e sensibilidade ministerial.

4. A clara compreensão da pluralidade e da mutualidade no trabalho missionário

Uma das grandes tentações sofridas por nossas agências é a pressão que a “missiologia evangélica popular” acaba exercendo sobre elas com os seus modismos, tendências, investimentos internacionais e promoção pessoal dos seus líderes. Obviamente, ceder à essas tentações compromete de forma negativa os resultados missionários que as agências devem oferecer, ainda que possivelmente lhe traga resultados como a fama ou a influência política no meio eclesiástico e missionário.

Nesse sentido, um dos resultados missionários que devem ser almejados e vistos em nossas agências é a sua compreensão da amplitude ministerial compreendida tanto no conceito bíblico da missão, como em sua realização no mundo. Dessa forma, nossas agências são levadas a assumirem compromissos e programas concretos que, efetivamente, promovam e facilitem o exercício dessa pluralidade de ministérios missionários. O trabalho missionário não é, definitivamente, unidimensional; ao contrário, exige uma grande variedade de talentos e capacidades que promovem uma maior amplitude das obras realizadas, visto que assim é o Corpo de Cristo, edificado em amor, à medida que cada parte realiza a sua função de forma ajustada e unida (Ef 4.16).

Nesse sentido, nossas agências devem buscar, como um dos resultados missionários esperados delas, tanto a valorização da diversidade de dons entre seus missionários e a consequente realização de obras com diferentes perfis (reconhecendo que seus obreiros não são uni-vocacionados, como se todos fossem extraordinários plantadores de igrejas), bem como a elaboração de programas baseados no conceito bíblico do exercício dos dons ministeriais visando uma melhor colaboração entre os membros de uma equipe e o apoio a outros obreiros, igrejas e instituições, visto que o compromisso e o investimento mútuos no campo missionário devem ser buscados com sabedoria e dedicação. Para tanto, é muito importante que as nossas agências estejam cientes de que a pluralidade e a mutualidade no trabalho missionário devem começar com sua própria visão e atuação institucional.

5. O respeito à pessoa e à família dos seus missionários

É, ainda, muito importante obter como um dos resultados missionários esperados em nossas agências que o relacionamento com os missionários e suas famílias seja fraterno e respeitoso. De forma alguma, as agências, seus líderes e outros irmãos que servem em suas estruturas institucionais deveriam considerar os missionários como “funcionários” nem seguir a metodologia empresarial dos nossos dias no que diz respeito ao tratamento dos seus funcionários.

Vê-los como irmãos que se consagraram a uma determinada obra e como servos de Deus a serviço de sua missão no mundo, tal como também o são aqueles que neste momento ocupam a liderança das agências, poderia ser um dos alvos a serem perseguidos pelas nossas agências quanto aos resultados missionários que devem alcançar dia a dia. Quanto a isso, vale ressaltar a importância que a maneira fraterna e igualitária de se relacionar com os seus missionários demonstra o espírito de humildade, o desejo sincero de servi-los em suas necessidades e a necessária consagração missionária dos nossos líderes. Descreve, ainda, o devido e necessário cuidado que as agências devem prestar, de forma dedicada, aos seus obreiros e suas famílias, especialmente quanto às questões de saúde, sustento, educação dos filhos, adaptação cultural e eclesiástica, e oportunidades de desenvolvimento pessoal e ministerial.

6. O relacionamento fraterno com as igrejas locais

Outro dos resultados missionários que devemos esperar das nossas agências diz respeito ao seu relacionamento com as igrejas locais. Por meio desse relacionamento deve ficar bem claro que a vocação missionária das agências é, da mesma forma como a vocação dos próprios missionários, um reflexo do chamado missionário de Deus à sua igreja. Nesse sentido, o trabalho realizado pelas agências deve brotar da vocação e da natureza missionária da igreja, o povo de Deus chamado para viver sua missão entre os seres humanos. O conceito e prática que definem o tipo relacionamento mantido entre as agências e as igrejas, definem, igualmente, os contornos que limitam o trabalho das agências, bem como norteiam sua busca por resultados missionários.

Esse relacionamento, que com frequência se reduz perigosamente ao nível de “potenciais mantenedores financeiros e fornecedores de vocacionados”, deve ser plantado e nutrido de forma santa e fraterna, reconhecendo que a agência representa a vocação da igreja e que, portanto, deve ser, de certa forma, guiada por suas aspirações e prioridades missionárias; em outras palavras, um dos resultados missionários das nossas agências é buscar sua pauta de atuação na vida missionária do povo de Deus, servindo-lhe realmente como ajudadora fiel no cumprimento diário do seu exercício vocacional e missionário no mundo.

Que resultados missionários devemos ver e esperar na vida das nossas agências missionárias? Creio que essa é uma das principais perguntas, juntas com as apresentadas nos artigos anteriores, que devemos nos fazer como igreja missionária de Deus entre os seres humanos, certos de que todos nós fomos devidamente chamados por Deus para servi-lo e para segui-lo de forma santa e testificante no mundo!

Deixe uma resposta