Natal, encarnação e missão

Gabriel Neubarth

Um novo ano começa a ser vislumbrado mais uma vez. Novamente as ruas começam a se iluminar com as luzes natalinas, por vezes cheias de beleza, mas vazias de sentido. Mais uma vez os shoppings ficam abarrotados de gente ávida por darem vazão ao seu consumismo, e de novo a verdadeira beleza do natal vai se esvaindo em meio a confraternizações, jantares, e amigos secretos.

Por tudo isso, entendo que esse é um tempo propício para uma reflexão sincera acerca da “verdadeira luz que ilumina a todos os homens”, daquele que deveria ser o sentido de todas as comemorações, daquele que é “a alegria dos homens”, mas que foi resumido a um bebê em um presépio esquecido em meio a tantos presentes.

Sei que ele muito provavelmente não nasceu nesse dia, e que a instituição dessa data teve fortes motivações políticas e religiosas no já extinto império Romano. No entanto, se Deus tornou o coração dos homens mais sensíveis a proclamação da beleza da encarnação durante essa época do ano, por que deveríamos perder tal oportunidade?

Biblicamente falar de Natal é falar de encarnação. Ali em Belém, o maior mistério da história da humanidade se concretiza, pois nessa “O verbo se fez carne”, Deus se fez homem. Aquele que fez o mundo, passa a habitar nele . Ali a manjedoura se torna um trono e nasce o Rei da Glória, pois como afirma o apostolo João “vimos a sua glória, glória como do Unigênito do Pai”. Ali as profecias se realizam, ali as promessas se cumprem, ali a redenção começa a brotar em meio ao castigado solo de um mundo pecaminoso. E é ali que começa, pelo menos no aspecto temporal da história, a missão do Filho de Deus.

Para que o seu sacrifício na cruz, trinta e três anos depois, promovesse expiação, se fazia necessário que ao ser levantado no madeiro, ele o fizesse de maneira santa e imaculada. Ou seja desde daquele primeiro respirar ele já estava sendo testado. Mas como seria difícil para nosso pequeno salvador lidar com tudo aquilo. Esquecemos que mesmo ele sendo Deus ele era homem. Até aquele momento a sua natureza santa nunca havia lidado com coisas como, respirar, sentir frio, sentir fome (…). Um novo universo de sensações brota em sua vida ali mesmo na manjedoura.

Por vezes esquecemos que para cumprir a sua missão ele teve que lidar com um mundo caído, cheio de mazelas e pecados, teve que se submeter as leis que ele mesmo criou, teve que aprender a falar, a escrever e a ler, tudo o que é próprio do ser humano, menos o pecado. Sei que tais verdades nos parecem estranhas, pois por vezes nos apegamos a sua divindade mais do que a sua humanidade, mas é aqui que reside o mistério da encarnação: Ele era plenamente Deus e Plenamente Homem, e essas duas naturezas conviviam e continuam a conviver em perfeita harmonia.

Gosto muito de uma citação de John Stott que afirma: “Ele veio até nós, o filho de Deus não ficou na imunidade segura do céu distante do pecado e da tragédia humana. Verdadeiramente ele entrou em nosso mundo. Esvaziou-se a si mesmo de sua gloria e humilhou-se para nos servir. Ele assimilou nossa natureza, viveu nossas vidas, suportou nossas tentações, experimentou nossas dores, sentiu nossas feridas, suportou os nossos pecados e morreu a nossa morte. Ele assumiu profundamente nossa humanidade. Ele nunca foi indiferente às outras pessoas. Ele fez amigos entre todos os excluídos da sociedade. Ele até mesmo tocou os intocáveis. Ele não poderia ter se tornado mais um conosco como fez. Ainda assim, quando Cristo se identificou conosco, ele, de forma alguma abandonou a sua própria identidade ou a alterou, pois, embora tenha se tornado um conosco, ainda continuou a ser ele mesmo. Ele se tornou humano sem deixar de ser Deus.”

Por tudo isso entendo que existe na encarnação um paradigma para melhor compreendermos a nossa missão. Na próxima véspera de Natal completa-se três meses que eu e a minha esposa chegamos a Romênia. Mesmo sendo adultos, no momento em que descemos daquele avião passamos a ser crianças. Um mundo novo se desvaneceu perante nossos olhos, novas emoções brotaram em nosso coração, uma nova paisagem, um novo clima, novos cheiros, novo idioma, nova comida, e tantos outros “novos” que continuamos a lidar a cada dia.

Em meio a tudo isso me vem a memória aquele dia em Belém e penso no mistério da encarnação. Lembro-me que o meu amado Salvador teve que lidar com coisas incomparavelmente bem piores para cumprir a sua missão, pois até aquele dia em Belém ele não tinha convivido tão de perto com o pecado e a maldade do mundo. Durante toda a sua vida ele haveria de enfrentar experiências completamente novas para sua Santa Natureza, ele teve que ser o “Servo Sofredor” e um “homem de dores” afim de me salvar naquela cruz.

Que nesse Natal você celebre a beleza e o mistério da encarnação. Que você possa ter na encarnação um alento para os desafios de seu ministério e de sua missão aqui na terra. Que você se lembre que no “mundo teremos aflições”, mas que Cristo “venceu o mundo”, e que Nele somos “mais que vencedores”. Lembre-se que Ele disse: “Assim como o Pai me enviou eu vos envio”, e com isso traga o seu coração que para cumprir a nossa missão teremos que passar por nossa manjedoura.

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Gabriel Neubarth

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