“Ngüne atütü”

Fábio Ribas
Série Dias Índios

Casa linda: ngüne atütü! O que mais eu poderia dizer? Em qual língua expressar a alegria de finalmente vê-la construída? Não somente vê-la construída, mas, certamente, admirá-la. A casa é grande, a casa é maravilhosa, muito além de nossas expectativas. Mas sei que é mais que uma casa: é uma vitória de Deus!

foto do arquivo pessoal do autor
foto do arquivo pessoal do autor

Ano passado, o cacique havia me procurado ainda em Brasília para dizer que iria construí-la, mas, passadas algumas semanas, houve um incêndio ao redor da aldeia que destruiu aquilo que seria usado como telhado de nossa casa, o sapê.
Combinamos que eu entraria sozinho até que a casa estivesse pronta para que, então, eu levasse minha família comigo. Foram meses de solidão, de solidão com Deus, de janeiro daquele ano até julho. Sem esposa, sem filhas, todavia com a promessa em meu peito de que Deus nos levaria à aldeia em condições mínimas de moradia. Bastaria um telhado…
Janeiro passou, fevereiro passou e março também…. Tornei-me eu mesmo uma casa, só que para minhas dúvidas: será que eles me queriam ainda ali? A construção da casa pela comunidade era algo fundamental na nossa comunicação cultural, era a maneira do povo dizer se nos queriam mesmo ali entre eles ou não. Assim, esperei durante todo mês de abril.
Descobri, enfim, que havia jogos de poder por trás das cortinas desse palco – a disputa entre as lideranças sobre a quem eu pertencia. Eu era o professor de um cacique ou eu era o professor da comunidade? As intrigas, as tramas, os jogos culturais haviam há muito se deflagrado, entretanto demorei a descobrir. Até que um dia, a comunidade se aproveitou da ausência do cacique, que me recebera em sua casa, fazendo uma reunião sem ele e determinando que a minha casa fosse construída em outro lugar.
Deixe-me explicar melhor. O cacique que me recebera definira que minha casa seria atrás da casa dele, assim eu estaria afastado da aldeia e em ligação direta com ele. Este cacique foi e começou a construção da minha casa atrás da sua, já colocando até mesmo as madeiras de sustentação. Mas, no início do mês de maio, ele foi a um velório numa outra aldeia por dois dias. Neste meio tempo, a liderança da aldeia (há outros 2 caciques) tomou nova decisão, desmontando os alicerces da minha casa e a construindo no lugar em que ela está agora: no círculo da aldeia, ao lado das outras casas e, mais especificadamente, bem do lado da casa do outro Cacique, que é o “dono da aldeia”. O que eu poderia fazer? Gelei e esperei pelo pior.
Ao regressar do velório, eu e toda a comunidade ficamos ouvindo o seu choro alto por horas. Não quis acreditar que era por causa da história da casa, dentro de mim decidi que deveria ser pelo recente velório. Como saber? Não quis perguntar. Eu estava me sentindo como uma peça num tabuleiro de xadrez. Os jogadores eram todos parentes entre si e caciques, enquanto eu era apenas um ignorante peão estrangeiro…
Algumas semanas depois, “o meu cacique” me levou para a roça. Estávamos a sós e, então, ele falou sobre o assunto pela primeira vez após o incidente:
– Professor, eu não gostei do que fizeram – ele disse repentinamente de foice na mão.
– Eu também não – disse, tentando encontrar algum vão para me solidarizar com sua tristeza e mostrar que eu não tinha tido nada com aquilo.
– A liderança tinha que respeitar minha decisão. Agora, você vai ficar longe de mim. Como eu vou te ajudar? Como eu vou te proteger? Fica difícil saber o que você está precisando, fica difícil pra mim levar peixe pra você.
Contudo, bem no fundo do meu coração, eu já havia entendido que o que acontecera era o melhor para todos.
Finalmente, Deus estava declarando que eu não era o “professor do cacique”, mas, sem dúvida, eu estava lá para ser “o professor da aldeia”.

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