Resultados missionários no campo missionário

Carlos del Pino
série Resultados missionários

Da mesma forma como não é fácil definir-se o conceito de “igreja enviadora” (artigo anterior), também não nos resulta nada fácil a definição do conceito de “campo missionário”. Sobre o que nos referimos quando usamos a expressão “campo missionário”? No geral, partindo da “missiologia evangélica popular” que se estabeleceu praticamente em todos os ambientes evangélicos, pode ser que esta expressão se identifique imediatamente com as principais regiões e países pobres do mundo, ou com povos tribais e distantes, ou ainda como uma referência aos lugares com maior resistência ao evangelho (hoje em dia em nossa missiologia popular praticamente apenas os países muçulmanos são considerados dignos desse status). Alguns até se atrevem a insistir que “campo missionário” são os tantos que morrem sem Cristo em nossa vizinhança (conceito do tipo: há muito o que fazer aqui, porque gastar dinheiro mandando gente para longe). Ou quem sabe ainda encontremos alguns que perguntem assustados: campo missionário, o que é isso?

Como, então, podemos definir biblicamente “campo missionário”? O primeiro passo para isso é reconhecer que, atualmente, muitas definições conceituais e estratégicas na missiologia não se derivam do estudo bíblico, mas sim do estudo antropológico como vemos nas descrições do parágrafo anterior, ainda que textos bíblicos sejam usados como justificantes. Entretanto, não temos outra opção que retornar às Escrituras Sagradas para buscar essa definição. Para tanto, quero, a seguir, repetir alguns parágrafos já compartilhados anteriormente em outro estudo, considerando, assim, uma contribuição para a definição bíblica de “campo missionário”.

O foco hoje sobre “campo missionário” recai sobre a palavra “nações”. Geralmente nos esquecemos que a palavra “nações” de Mt 28.19 vem precedida pela palavra “todas”, o que inclui necessariamente todos os contextos humanos de vida: os não-alcançados, os já-alcançados, os bairros ricos das nossas capitais, os desigrejados e qualquer outra terminologia da moda. “Todas as nações” aponta para o “escopo da universalidade” (MORRIS, The Gospel According to Matthew, p.746) da missão de Cristo e da igreja. Está vinculada e deriva-se de “toda a autoridade” (28.18) recebida por Cristo como resultado direto e inevitável da sua ressurreição (28.1-10): devido à realeza universal, absoluta e presente de Cristo, podemos discipular pessoas em todos os contextos humanos e sociais, em todas as regiões do mundo, em todas as épocas da história até que Cristo volte. “O Senhorio universal de Jesus demanda agora uma missão universal” (FRANCE, Matthew, p.413).

“Todas as nações” responde ao conflito de entendimento que havia nos primeiros anos sobre “gentios” e “judeus”. Inicialmente a igreja cria que a evangelização deveria ser somente aos judeus (Mt 10.5-6), mas essa restrição dá lugar à uma missão que se preocupa com a formação de discípulos de Cristo de todas as nações do mundo. Sabemos que “nações” (ethnê) é um termo que se usa, no contexto de Mateus, para referir-se aos gentios e que poderia significar a exclusão de uma missão aos judeus, restringindo-a àquele grupo humano (gentios). Entretanto, esse termo significa que a missão que começou entre judeus deve extender-se também aos gentios.

Além disso, “todas as nações” é uma expressão também mencionada em 24.9,14; 25.32 incluindo a Israel nesse contexto humano universal. Expressões paralelas também são usadas por Mateus, como “o evangelho será pregado na totalidade do mundo habitado” (24.14 – oikoumene), “vocês são a luz do mundo/humanidade” (5.14 – kosmou, 13.38), “em qualquer lugar do mundo/humanidade inteiro” (26.13 – en holô to kosmô) (BOSCH, Misión en Transformación, pp.90-91). Mateus não ensina que Cristo fora enviado somente a Israel ou somente aos gentios; antes, sua intenção é apresentar-nos a Cristo como o único salvador de toda a humanidade (sem distingui-la por classes, raças, grupos, etnias, economia ou experiência religiosa prévia). De fato, Mateus se alinha à Dn 7.14 levando-nos, como igreja, a reconhecer sempre, conceitual, teológica e estrategicamente, que no Reino de Deus “a membresia não está baseada na raça, mas no relacionamento com Deus através do seu Messias (3.9; 8.11; 12.21; 21.28-32, 41-43; 22.8-10; 24.31; 26.13)” (FRANCE, Matthew, p.414).

Ao comparar Gn 9.1-9 com Gn 12.1.3 compreendemos, também, que o anúncio do evangelho não pode estar restringido a determinados grupos humanos. Entre outros vínculos, destacamos a repetição de “toda a terra” e “todo o mundo” (mesma expressão no original) no capítulo 9. Ocorre uma vez no início (1), duas vezes durante a narrativa (4, 8) e duas vezes no final (9). Trata-se de uma frase que indica a “divina reversão das intenções humanas” (LEDER, Reading Exodus to Learn and Learning to Read Exodus, CTJ 34, p.13) de tornar seu “nome” pecaminosamente famoso e auto-suficiente em relação a Deus. “Toda a terra” decidiu conscientemente fazer tijolos, construir a cidade com sua torre e firmar sua independência de Deus. Por sua vez, Deus respondeu com a dispersão de “todo mundo” por “toda a terra” e com o fim de suas intenções.

No capítulo 12, o chamado de Abraão de deixar sua “terra” e ir para uma nova “terra” sob a direção de Deus, tem como objetivo que “seu nome seja famoso” devido à bênção de Deus (em contraste com o “nome famoso” devido o afastamento de Deus – 9.4) e que “todos os povos da terra” sejam abençoados (não “confundidos” – 9.7,9). Assim, estabelecemos um quadro a partir do qual podemos definir claramente nossos conceitos e práticas missionárias: a bênção do evangelho deve ser anunciada a “todo o mundo”, pois foi “todo o mundo” que pecou e se distanciou culposamente de Deus. Assim sendo, não podemos mais restringir a ação missionária da igreja, derivada da missão do Cristo ressurreto. A preocupação das Escrituras é que o evangelho seja vivido e compartilhado com todos os seres humanos, ou seja, Cristo deve ser anunciado e vivido por toda a igreja entre todos os seres humanos, supostamente “alcançados” ou “não-alcançados” O único campo missionário da igreja, portanto, é a humanidade toda em todas as suas dimensões de vida!

Uma vez definido o conceito bíblico de “campo missionário”, voltamos ao nosso tema, perguntando: quais seriam os principais resultados missionários que devemos ter no campo missionário? Gostaria de sugerir, de forma prática, ao menos 4 grupos de resultados missionários no campo missionário:

1. Resultados na vida das pessoas

Sendo a humanidade o nosso campo missionário, em primeiro lugar devemos esperar resultados na vida das pessoas que estão recebendo a mensagem do evangelho, bem como de suas famílias. A progressiva transformação e santificação dessas pessoas possivelmente seja o principal resultado que buscamos como igrejas e obreiros, pois é uma expressão direta da obra que o próprio Deus realiza em suas vidas. Esse era, claramente, o resultado que Cristo também buscava na vida dos que diziam segui-lo: em Mt 8.18-22 e Lc 9.57-62 Cristo confronta algumas pessoas que haviam se “inscrito” para segui-lo mostrando-lhes que o que mais lhe importa são os compromissos pessoais de vida que estas pessoas devem manter com ele.

A própria Grande Comissão (Mt 28.18-20, par) enfatiza com muita clareza que o objetivo central e imperativo da ação missionária da igreja é o “fazer discípulos” de Jesus Cristo por todo o mundo. O discipulado está sempre voltado para a formação cristã das pessoas, para a edificação de suas vidas na palavra de Deus, para o crescimento espiritual, para a constante santificação e o crescente envolvimento das pessoas e famílias na obra de Deus entre os seres humanos. Se perdemos de vista que esta é a vontade de Deus para a vida dos seus discípulos, perderemos de vista, consequentemente, os objetivos mais importantes da obra missionária e poderemos falhar em nossa busca de resultados missionários no campo missionário.

Dessa forma, Cristo parece não se impressionar com as nossas projeções estatísticas e nem com o volume numérico de pessoas que se aproximam dele sem, de fato, terem um genuíno compromisso de santidade e de serviço com ele, como resultado direto da ação redentora de Deus em suas vidas. Por outro lado, cremos que ele espera usar-nos como instrumentos missionários para que homens e mulheres, incluindo os jovens, adolescentes, crianças e anciãos, sejam alcançados pelo poder salvador e transformador do evangelho.

2. Resultados na sociedade

A sociedade onde há pessoas que foram alcançadas pela graça de Cristo, também deve ser progressivamente influenciada pelas bênçãos desse evangelho. A presença de uma igreja nessa sociedade, ainda que nascente e pequena, deve produzir aos poucos algumas diferenças significativas através do testemunho pessoal e da comunhão amorosa que se estabelece entre os cristãos. Esses dois elementos, que levam em seu interior uma inevitável dimensão diaconal, são genuinamente evangelizadores e produzem um resultado progressivamente transformador na vida da cidade.

O texto de At 2.42-47 nos diz muito sobre esta expectativa de resultados missionários na vida da sociedade. A dinâmica estabelecida entre os cristãos, resumidamente composta pelo ensino da palavra de Deus, pela comunhão, pela administração dos sacramentos, pelos sinais apostólicos, pela diaconia, pela alegria, pela sinceridade mútua de coração e pelo genuíno louvor a Deus, inclui também, como uma espécie de resultado, a “simpatia (graça) de todo o povo”. Isso nos mostra como Deus abençoa não apenas a igreja com sua graça, mas também à sociedade através da dinâmica da vida cristã comunitária. Este é um dos resultados missionários que devemos esperar na sociedade onde estamos presentes.

Além disso, o texto conclui com uma frase que sempre me impressionou muito: “e o Senhor lhes acrescentava diariamente os que iam sendo salvos” (2.47). Esta conclusão nos fala muito sobre o tipo de resultado missionário que devemos buscar e esperar na vida da sociedade e da cidade onde nos encontramos: por meio do testemunho, da comunhão, da diaconia e da consagração dos cristãos, o Senhor alcança com a sua graça salvadora a outras pessoas. Devemos, portanto, esperar que Deus resgate a mais pessoas com seu poder salvador em Cristo e que essas pessoas se integrem à vida, ao discipulado, à comunhão e ao ministério da igreja.

3. Resultados como atividades

Obviamente, todos esperamos também resultados em forma de atividades missionárias concretas no campo missionário, especialmente os missionários diretamente envolvidos nesse ministério. Entretanto, devemos ressaltar que os diversos tipos de atividades realizadas devem corresponder com o que já dissemos até aqui, não apenas neste estudo, senão também nos anteriores. Isso quer dizer que devemos selecionar e preparar atividades que condigam com nossa visão bíblica e teológica acerca da missão de Deus no mundo, e não nos envolvermos em atividades que visam principalmente a auto-promoção e a projeção de uma imagem que nem sempre condiz com a realidade do campo missionário.

Nossas atividades devem, em primeiro lugar, serem realizadas para a glorificação do nome de Deus, bem como da nossa parte serem levadas a diante em oração constante, ética cristã, dedicação e o melhor preparo possível. No geral, devemos afirmar que nossas programações não devem visar o ganho de novos “adeptos”, mas antes, que anunciem e demonstrem o evangelho através de palavras e ações. Estas atividades, obviamente, variarão conforme o lugar e o contexto em que estivermos, quanto à forma, tempo e estratégias. Entretanto, em termos gerais, são atividades que promovam a integração na sociedade local da família missionária e os demais cristãos, bem como o estabelecimento de contatos e amizades verdadeiras (voluntariado, artesanato, cafés, refeições, etc), que facilitem a pré-evangelização e a evangelização (encontros culturais, musicais e pedagógicos voltados para a família, etc), que sirvam para fortalecer o discipulado e o aconselhamento (retiros, acampamentos, encontros de casais, estudos e palestras bíblicas, etc). Nesse sentido, aqui na Europa chegamos inclusive a dizer que um dos nossos melhores púlpitos é a cafeteria!

Nesse sentido, é muito importante que todos nós, tanto os missionários como as igrejas enviadoras, tenhamos em mente que tipos de resultados missionários devemos buscar e esperar no campo missionário. Nesse sentido, certamente hajam muitas coisas a serem repensadas e redimensionadas nos nossos alvos, expectativas, decisões, planejamentos e atividades no campo missionário. Mas acima de tudo, devemos ter uma consciência clara de que os resultados finais são definidos por Deus em sua sabedoria e soberania. Da nossa parte, temos que afinar-nos fielmente à sua vontade e ação entre os seres humanos.

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