No silêncio da floresta

Cácio Silva
série Culturas

O cotidiano dos indígenas Yuhupdeh

Enquanto escrevo este artigo, posso observar um dia típico dos Yuhupdeh, pequeno povo indígena da Amazônia Brasileira. Estamos em plena floresta, a dois dias da cidade mais próxima. O único acesso é fluvial e nosso veículo é uma canoa de alumínio com motor de popa.

O dia aqui começa por volta das 4 horas da manhã, quando, ainda debaixo de forte nevoeiro, aos poucos todos vão se levantando e seguem diretamente para o rio, onde se banham. Até os bebês são banhados, pois o banho tem um aspecto místico. Ainda não sabemos ao certo, mas parece que o banho é visto como algo que revigora as forças físicas ou protege o corpo de doenças. Quando o dia está acabando de amanhecer, as mulheres já prepararam o mingau, com o qual se fazem o desjejum. Nada mais é que tapioca (goma) fervida na água. E feito o desjejum, é hora de seguir para a roça.

As roças são clareiras abertas a machado e queimadas logo depois. Ali planta-se principalmente mandioca, com a qual fazem a farinha e o beiju. Os homens são ativos na derrubada e queimada, mas depois, boa parte do trabalho é feito pelas mulheres. Por isso, elas são as primeiras a seguirem bem cedo para a roça. Os homens as acompanham, mas geralmente se ocupam mais da pesca. Usam anzóis, quando têm, zagaias, flechas e, dependendo do peixe, facões. Se no caminho percebem a presença de uma caça, mais que depressa embrenham-se na floresta à procura da mesma. Às vezes passam toda uma manhã à procura de um porco do mato ou de uma paca. Para caçar usam cachorros, arpões, flechas e facões. Não é algo fácil e muitas vezes não conseguem pesca nem caça.

Enquanto os adultos estão no mato, as crianças permanecem na aldeia. Geralmente um adolescente fica encarregado de “cuidar” das mesmas. Mas o fato é que ficam à vontade. Divertem-se com muita criatividade, as mais velhas brincam de preparar mingau (e comem, é claro!) e as menores correm pelo pátio. Brincam na terra, na lama e, principalmente, na água, banhando-se na beira do rio. Falam entre si na língua materna, passam todo o dia nuas, sem uma peça de roupa sequer. E, de vez em quando, surge alguma briguinha, deixando claro que criança é criança em qualquer lugar.

Por volta das quatorze horas os adultos começam a chegar. As mulheres rapidamente preparam um xibé e todos tomam prazerosamente. O xibé é apenas farinha com água fria, sendo o “cafezinho” deles. Se é tempo de fartura, geralmente tem alguma outra coisinha para se comer, como uma batata, uma fruta ou coisa semelhante. E a rede já lhes espera para aquele descanso. Com o escaldante sol da Amazônia, nada melhor que uma rede após a refeição das quatorze!

No restante do dia fazem algo prático na comunidade, como retocar a palha da palhoça, limpar em volta da casa ou arrumar o porto que sempre desmorona por causa da erosão. Ou quando não tem nada para se fazer, passam o restante do dia com a família, conversando entre si. Os pais brincam carinhosamente com os filhos e no final da tarde homens e mulheres vão jogar futebol ou vôlei no pátio da aldeia. Isso mesmo! Futebol e vôlei! Claro que com suas próprias regras e com o mínimo de competitividade, mas ainda assim, futebol e vôlei.

Por volta das dezessete horas, logo após o banho vespertino, é a vez da principal refeição diária. Isso quando se tem alimento em abundância, pois, muitas vezes, passam sérias privações alimentícias. Peixe ou caça moqueada (um tipo de defumação) são as principais iguarias. A quinhampira, sopa de peixe com muita pimenta, é sempre muito bem vinda e degustada com beiju. A mujeca, sopa de peixe com farinha, também é uma boa pedida.

Ao anoitecer, quase todos vão para o pátio da casa do pajé. Em volta do mesmo, ouvem histórias, dão gargalhadas ou ficam amedrontados, dependendo das narrações. Em seguida vão para suas redes, mas a conversa continua por horas afins. Marido e mulher ou mesmo vizinhos (já que suas casas não têm paredes) conversam pela noite à fora. E assim, finda-se mais um dia na pequena e calma Buriti. Apesar das privações de conforto, como agitados e atarefados moradores de grandes cidades temos muito a aprender com o estilo de vida Yuhupdeh.

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