O beduíno e o fugitivo

Cácio Silva
série Culturas

Culturas Orientadas pela Vergonha

Num ensolarado e árido deserto do Oriente Médio, aparece, de repente, um jovem árabe correndo sobre as dunas, com todo o fôlego que lhe resta nos pulmões. Dirige-se apressadamente ao primeiro acampamento beduíno que avista, corre em direção a uma tenda qualquer, entra sem pedir permissão e abraça o esteio central da mesma. Sem qualquer fala, o dono da tenda já entende que o jovem está lhe pedindo proteção. E antes mesmo de iniciar conversa, dois homens se aproximam, também apressadamente, no encalço do jovem fugitivo. Vendo a cena, dirigem-se ao dono da tenda e pedem que o mesmo lhes entregue o rapaz. Ele nega resolutamente. Aquele jovem lhe pediu proteção, estava sob o seu teto e, portanto, seria uma questão de honra protegê-lo contra quem quer que fosse. Os homens se identificam como policiais e insistem na captura do rapaz, que permanece abraçado ao esteio da tenda. O beduíno resiste firmemente. Eles então explicam que aquele rapaz acabara de cometer um homicídio e deveria ser punido por isso. Mas o beduíno havia dada sua palavra de honra e seria uma vergonha incorrigível entregar seu protegido. Os policiais finalmente esclarecem que a vítima do rapaz tinha sido o filho do beduíno. Ele havia assassinado há pouco o filho do homem que agora o protegia! Mas a vergonha de entregar um protegido seria maior do que a dor de perder um filho e, assim, mesmo sabendo da triste notícia, o beduíno recusou terminantemente entregar o jovem fugitivo aos seus perseguidores.

Este é um exemplo de cultura orientada pela vergonha. Estudiosos da chamada etnopsicologia ou antropologia psicológica sugerem que enquanto a nossa cultura ocidental ou ocidentalizada é orientada pela culpa, muitas culturas são orientadas pela idéia ou sentimento da vergonha. O missiólogo Roland Müller mostra que há uma relação ativa de compensação nas culturas, onde aquelas orientadas pela culpa buscam a inocência, enquanto aquelas culturas orientadas pela vergonha buscam a honra. Enquanto nós estamos sempre à procura do culpado e do inocente, culturas orientadas pela vergonha estão sempre à procura do desonrado e do honrado. Nós ensinamos nossos filhos a agirem corretamente, enquanto nas culturas da vergonha os pais ensinam seus filhos agirem honradamente.

Isto tem implicações diretas sobre o trabalho missionário. Nós pregamos que mentir é errado, mas nas culturas da vergonha depende. Se a mentira trás honra ao grupo ou o protege de uma situação vergonhosa, então pode ser honroso mentir. Nós pregamos que matar é pecado, mas nas culturas da vergonha, certas ofensas só podem ser reparadas com vingança, envolvendo a morte do ofensor. Uma jovem oriental fugiu de casa e casou-se com um ocidental. A família ficou enlouquecida, buscando lavar a honra. A polícia acabou capturando a jovem e prendendo-a por proteção, mas a família pagou uma alta fiança, tirou-a da cadeia e em seguida assassinou-a,  a tiros, para recuperar a honra do grupo. Em outros casos, o sentimento de vergonha é tão forte que leva pessoas ao suicídio.

Mas culturas orientadas pela vergonha não existem apenas no Oriente Médio. Entre os indígenas do Brasil encontramos culturas assim também. E se a vergonha não leva todos a buscar vingança, leva-os a um profundo sentimento de tristeza. Uma melancolia tão profunda que adoece, tira o ânimo e a alegria da vida. Um líder indígena da nossa região procurou seu pastor pedindo insistentemente que o disciplinasse, pois a sua filha havia envergonhado a família! Pessoas deixam de ir à igreja e se abstêm da ceia por estarem envergonhadas e tristes.

Foram esses sentimentos de honra e vergonha que levaram aquele beduíno a proteger o assassino do seu filho. Deus também protege ainda hoje os assassinos do Seu Filho. Quando Ele nos acolhe na sua casa, acolhe os culpados pela morte de Jesus. A diferença é que Deus assim faz não por vergonha, nem por honra, mas por misericórdia e graça.

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