O feiticeiro

Fábio Ribas
Série Dias Índios

O ensaio para a Grande Festa já durava um pouco mais de uma hora. Repentinamente, todos os homens saíram correndo em direção a um ponto da floresta que cercava a aldeia. As mulheres não foram. Elas voltaram rapidamente às casas. Percebi o rosto assustado delas. Olhei o lugar para onde os homens estavam correndo e pude notar, no meio da mata, a figura de um indígena. Era por causa dele toda aquela agitação. Olhei os jovens em disparada. E olhei o lugar em que havia visto o tal homem, e ele já não estava mais lá. Os jovens ainda entraram na mata, mas retornaram de cabeça baixa sem encontrá-lo também.

foto do arquivo do autor
foto do arquivo do autor

Quando o cacique retornou, conversamos:
– O que houve?
– Apareceu um feiticeiro! Disse-me assustado.
– E o que ele faz?
– Por isso eu não deixo sua roupa pendurada no varal, Professor – explicou-me o cacique – Os feiticeiros podem vir de noite e fazer alguma maldade. Colocam alguma coisa na sua roupa e você ficará muito doente em três dias. Eu não saio de noite. Eles ficam escondidos e podem me lançar algum veneno e eu morro.
– Ele se escondeu na mata?
– Não. Ele foi embora.
– Para onde?
– Para aldeia dele… Vocês não tem avião? O branco tem avião quando quer viajar de uma cidade para outra, mas demora, não é? Os feiticeiros são muito mais rápidos do que o avião de vocês.
Nesse momento, creio que não conseguia esconder o meu fascínio com aquela história. Que comparação! O feiticeiro era mais rápido do que o avião!
– Por isso não o acharam?
– Os feiticeiros tem uma capa. Eles colocam a capa de onça e na hora eles estão na aldeia deles. Eles colocam de novo a capa e somem, já estão na cidade. Ele vem e deixa capa escondida na mata. Vem e lança feitiço. Volta para mata, coloca a capa e na mesma hora está na aldeia dele. O feiticeiro vem fazer mal. Ele usa veneno e os índios morrem. Eu não sei se aqui tem feiticeiro, na nossa aldeia, eu não sei. Ninguém sabe, só o pajé. O pajé dorme e sonha. Ele vê quem é o feiticeiro.
– E aí? Se o feiticeiro mata, o que vocês fazem quando descobrem quem é o feiticeiro?
– O meu irmão e o meu neto foram mortos por um feiticeiro. O pajé já nos mostrou quem é o feiticeiro e ele está lá na outra aldeia. Ele morou aqui há muitos anos.
Eu sabia de quem ele estava falando. Havia um índio que passara por Brasília alguns anos atrás. Parece que houve algum contato entre esse indígena feiticeiro e algum grupo carismático, pois ele voltou de Brasília curando as pessoas em nome de “Jesus, Maria e José”. Os indígenas falam que já viram este índio feiticeiro andar sobre as águas!
Na primeira vez que estivemos na aldeia, em 2007, ele já não morava mais ali, então ficamos na casa dele. Ele se indispôs com a comunidade e o povo o expulsou. Naquela época, depois que saiu da aldeia, ele estava fazendo “sessões de cura” na cidade. Mas, até este mês, ele estava na aldeia maior. Até agora. Já fugiu. Aconteceram muitas mortes e vários indígenas atribuíram a ele essas mortes.
Nestes dias, aqui na cidade, eu estava dando carona para um indígena e então começamos a conversar sobre este feiticeiro.
– Ele foi para onde?
– Professor, ninguém quer ele mais. Ele faz só maldade. Ele fica envenenando. Fica matando. Ele é muito poderoso. Agora ele está escondido na mata. Ele fugiu. Ele sabe que nós estamos só esperando passar essas festas. Ele sabe que vai morrer. Já mandaram matar. Nós vamos matar. Meu filho é pajé. Ele viu. Ele sabe quem é o feiticeiro. Os pajés sabem quem são os feiticeiros. Eles fumam para ver. Eles veem os espíritos dos animais. Os pajés veem. Só os pajés podem nos salvar dos feiticeiros. Mas agora o meu filho, que também é pajé, está muito doente. O feiticeiro está dando choque nele, eu sei. De longe, o feiticeiro está dando choque no meu filho. Está doendo muito no meu filho. Eu tenho que levá-lo num pajé mais poderoso, para ele não morrer, porque o pajé aqui da nossa aldeia não está dando conta…

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