O feitiço contra o feiticeiro

Fábio Ribas
Série Dias Índios

Ela estava morta. O pajé passara duas semanas rezando sobre ela e nada, nada mais poderia ser feito. Era uma linda indiazinha de uns 12 anos de idade. Estava ali seu corpo e os pais, a família, os irmãos, parentes, agora, todos choravam a menininha. O pai a segurava no colo, enquanto outro indígena realizava os ritos fúnebres. Banharam todo o corpo da menininha e a pintaram como se já fosse mulher. Passaram jenipapo em suas pernas, traçando aqueles belos desenhos desde a canela até o alto da coxa. Depois, com o dedo indicador embabado na pasta de urucum com óleo de pequi, o indígena traçou sobre os olhos dela aquele vermelho vivo.
Enfim, passaram em sua cintura o cinto feito com palha de buriti e pentearam seus cabelos negros, colocando-a na rede que iria ser enterrada junto com ela.
Passado o tempo do luto, o pai de cabeça raspada saiu de casa em direção à casa do pajé. Era noite e os gritos chorosos do pai se faziam ouvir por toda aldeia:
– Você sabe quem matou minha filha! Você viu! Ele roubou a alma da minha filha! Você viu nos seus sonhos!
– Mas não posso contar, você sabe disso – disse o pajé ao pai da menina – quem fez isso com ela é feiticeiro poderoso e, se eu disser alguma coisa do que vi, ele vai me matar ou matar alguém da minha família!
– Se ele é feiticeiro, tem um jeito de descobrir quem é! Mal terminou essas palavras, o pai saiu de volta para casa, chamou os outros filhos e pegou duas pás. Os filhos seguiram o pai até o meio da aldeia. O pai começou a cavar o buraco onde estava enterrada a filha. Cansado, passou a pá a um dos filhos e sentou. O filho continuou a cavar o buraco. O pai chorava um choro cantado que atravessava a noite e moía os corações da gente daquele povo. Finalmente, chegaram ao corpo. O pai pegou o facão e cortou um pedaço do cabelo da menina. Depois, no meio daquela terra, foi tateando, procurando uma das mãos dela. Achou. Tomou os dedinhos da menina na sua mão grossa e, com o facão, cortou o dedo indicador.
Seguiu para casa, enquanto os filhos tapavam o buraco de novo. O pai da menina foi até a outra aldeia pedir que um velho poderoso o ensinasse aquele feitiço que, agora, ele começava a fazer.
– Mulher, pegue a panela, acenda o fogo. Toma a lenha. Rápido.
– Mas…

Cocares, foto do arquivo do autor
Cocares, foto do arquivo do autor

– Não demora! Pega pedaço de cobra, morcego, cocô, vá à mata e pega tudo de ruim que você encontrar. Agora!
A panela estava lá. Já havia duas semanas que aquilo fervia dentro da panela, mas o fogo não podia parar. Aos poucos, o pai ia acrescentando tudo de ruim, tudo que só fazia mal naquela panela, enquanto não deixava o fogo apagar. Cedo ou tarde, eles acabariam descobrindo quem era o feiticeiro que havia matado a sua filha.
Dito e feito. Havia um mês que o fogo não se apagava e a aldeia já começava a falar às escondidas. O feitiço contra o feiticeiro começava a fazer efeito. Havia, realmente, na aldeia, alguém que já sentia os resultados daquela poção. Todos já estavam falando de um indígena que, repentinamente, não saía mais de casa durante o dia. A esposa dava desculpas: “Saiu para pescar”, “Tá caçando”, “Saiu na balsa para a cidade de manhã, vocês não viram?”. Muitos jovens disseram que viram o feiticeiro passando mal, lá na mata, de noite, gritando em agonia. Passaram de dois a três meses nessa situação, até que o pai da menina resolveu confirmar pessoalmente.
Naquela manhã, fez um delicioso caldo de mandioca e levou até a casa do suspeito.
– Olá, Tigá, você está aí? Disse o pai da menina, entrando na casa.
– Sim. Estou aqui na rede. Estou muito cansado. Desculpa não levantar.
– Tudo bem, Tigá. Eu trouxe caldo de mandioca para você beber e voltar a ficar forte.
– Pode deixar por aí – disse Tigá, deitado na rede – depois eu bebo.
Mas o pai da menina puxou uma cadeira e ficou bem perto de Tigá e disse:
– Não, bebe agora, é melhor para você.
– Mas… Antes que Tigá pudesse continuar a frase, sua cabeça foi levantada e o pai forçou sobre a boca dele uma cabaça cheia de caldo de mandioca. Tigá deu apenas 3 goles e, então, começou a vomitar.
– É, Tigá. Você está ruim mesmo…
Contudo, o pai da menina resolveu ainda fazer uma segunda coisa:
– Tigá! – gritou o pai da menina – olha, lá em cima da casa, têm muito morcego!
– Onde?… Quando Tigá ameaçou levantar os olhos para procurar os morcegos, ele começou a gritar de dor. Pronto!
Estava confirmado. Tigá era o feiticeiro que matara sua filha, porque todos os sintomas provocados pela poção do feitiço estavam ali: ele não conseguia sair de dia de casa, não conseguia beber o caldo de mandioca e nem conseguia olhar para cima.
O pai da menina voltou para casa e contou para a família. Mas, durante um ano e meio, eles não deixaram o fogo apagar, sempre alimentando aquele fogo com lenha, noite e dia, o fogo que cozinhava aquele feitiço. Só para maltratar Tigá, que ficou só pele e osso sobre aquela rede.
Depois daquele tempo de sofrimento, o pai da menina chamou os filhos e disse para cada um pegar um pedaço de pau.
Naquela noite, eles foram até a rede do Tigá e bateram nele até a morte. No momento exato em que Tigá morreu, lá na casa do pai da menina, o fogo que cozinhava o feitiço apagou-se sozinho.

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