O fim (A morte visita a aldeia – 1ª parte de 4)

Fábio Ribas
Série Dias Índios

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No salão de um aeroporto, nos preparávamos para o check in, eu, a Lu e Takitakinalo (minha filha mais velha). Carregávamos muitas malas e já nos dirigíamos ao balcão de atendimento, quando, repentinamente, Takitakinalo parou e começou a chorar. Fui até ela e perguntei o que estava acontecendo. “Pai, eu não me lembro mais do cheiro dela”! Afastei-me para trás e também comecei a chorar um choro convulsionado. A Lu me perguntou o que estava acontecendo. E eu respondi: “Ela começou a chorar porque não está mais lembrando do cheiro da irmã!… Lu… Meu Deus… Lu, eu também não me lembro mais do cheiro dela”! Naquele momento, eu percebi que éramos três naquele aeroporto, porque minha filha mais nova estava morta.

Quando acordei daquele sonho, olhei para elas e todas as três estavam lá comigo na barraca. Acordei angustiado e só à tarde falei para a Lu sobre o sonho. Relutei em compartilhar com ela, pois ali onde estávamos tudo parecia tomar uma dimensão maior do que realmente poderia ter. Um sonho ruim apenas, mas, qualquer coisa que acontecesse, estaríamos isolados no meio da mata.

– Por que você só me contou agora?

– Lu, sabe o texto que mais me vem à mente aqui na selva? Aquele em que Paulo fala que carrega em seu próprio corpo as marcas de Cristo. Não sou super crente, sempre penso nas responsabilidades de tê-las trazido conosco. As possíveis doenças, perigos… Então, esse sonho me fez muito mal.

– Eu sempre penso que perigos existem em todos os lugares – respondeu a Lu – basta uma bala perdida atingir você. Veja, amor, o Brasil foi campeão em mortes por gripe suína no mundo e quantas dessas pessoas morreram em grandes centros urbanos? A nossa orientação para estarmos aqui foi clara e indiscutível. Se por acaso perdesse minhas filhas na cidade, sabendo que era aqui que deveríamos estar, isto sim não me deixaria em paz! Estamos onde Deus quer, para, então, acontecer o que quer que Ele tenha planejado…

Naquele final de tarde, fiquei com Takitakinalo e Hototó (minha filha mais nova), sentado do lado de fora de casa. O Cacique veio em nossa direção e Takitakinalo ficou maravilhada com o colar que ele ostentava em seu pescoço.

– Que lindo!!! Disse minha filha ao Cacique.

– Takitakinalo gostou? Diante da resposta afirmativa, ele retirou o colar do pescoço e deu a ela. O que encantou minha filha era a linda cruz que pendia naquele colar todo feito de sementes de tiririca. O Cacique o conseguira com outro povo que vive fora da nossa região. Agora estava Takitakinalo passeando pela aldeia com seu lindo colar feito de sementes de tiririca, sustentando uma linda cruz. E a quem me perguntava, eu dizia: “Foi o Cacique que deu para ela”! Até que um indígena chegou perto de nós e olhando aquele colar, apontou para a cruz e disse:

– É Deus!

– O que? Perguntei.

– É Deus! Ele repetiu, agora tocando na cruz. – É Taungi, mas o caraíba (branco) chama de Jesus. É Taungi!

Na escola da aldeia, já havíamos contado muitas histórias dos povos indígenas da nossa região e toda vez que aparecia o Taungi eles o identificavam com Jesus. Entretanto, Taungi é o Sol, irmão da Lua, irmãos gêmeos e ambos netos de Kuatüngü, que eles identificam como “Deus”. Há muito tempo, uma onça quis casar com uma das filhas de Kuatüngü, mas este não quis. Então, Kuatüngü criou uma mulher e de quatro madeiras criou os primeiros índios… Como que os homens mais velhos, os que já foram para a cidade, fizeram a ligação entre Taungi e Jesus? Eu não sei. Este sincretismo é um mal terrível já ocasionado pelo contato deles com as diversas culturas não-índias. Só a presença do texto bíblico na língua materna, eu creio, poderá reparar esta miscelânea, servindo a Bíblia como referencial autoritativo e revelacional. Mas eu olhei nos olhos daquele indígena e disse:

– Não, isso aí não é Deus! Aí, é o lugar onde Deus morreu, mas Ele não ficou morto para sempre. Ele saiu da morte para mostrar que a morte não é o fim. Ele está vivo!

– …

Eu queria que ele tivesse falado alguma coisa, mas ele não disse. Eu queria ter dito tudo isso na língua dele, mas ainda não sei! Eu queria ter essas histórias escritas já na língua, mas ainda não tenho… Ele apenas olhou para mim e sorriu.

Chamaram por ele na casa do rádio. Alguns minutos depois ele voltou com a cabeça baixa.

– Professor, meu primo morreu.

– Como você soube?

– No rádio. Eles estão trazendo o corpo para enterrar aqui. Ele morreu afogado.

– Vão enterrar aqui?

– A família estava na outra aldeia, mas eles são daqui… Era uma criança. Era desse tamanho.

Ao chegarem com o corpo, vi que era um menino de menos de seis anos de idade. Ele havia se afogado pela manhã e chegaram em nossa aldeia às 3 da tarde. Vi o pai e o seu choro dolorido. Quando vi aquele corpinho sendo carregado, imediatamente lembrei-me do sonho que tivera na noite anterior sobre a morte da minha filha!…

Continua…

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