O missionário e a cabeça de antílope

Cácio Silva
série Culturas

Como você vê o “outro”?

Um missionário que trabalhava na África verificou algo curioso. Próximo à aldeia onde morava, havia um local em forma de círculo, com uma estaca no meio e uma cabeça de antílope na ponta da mesma. Antes de saírem para uma caçada, os caçadores sempre iam até aquele local e procediam um curioso ritual. Empunhavam seus arcos firmemente com a mão esquerda, entesando a flecha com a mão direita. Com passos firmes, porém, silenciosos, corriam no sentido anti-horário, atirando flechas naquela cabeça de antílope. Assim que cada um atingia o alvo, a sessão era encerrada sem explicações. Observando tal procedimento, o missionário logo concluiu se tratar de um ritual religioso, invocando alguma divindade para ajudar-lhes na caçada. Um dia o missionário perguntou a um caçador se acreditava mesmo que aquele ritual o ajudava a ter sucesso na caçada. O caçador lhe respondeu prontamente que sim e esclareceu não se tratar de nenhuma invocação de espíritos, mas sim, de simples treino de pontaria!

Para o linguista Kenneth Pike, existem duas formas básicas de se perceber o “outro”: visão ética e êmica. Nesse contexto, visão ética não tem nenhuma relação com a questão moral. Refere-se à perspectiva externa, do observador, numa postura transcultural, comparativa e descritiva. É o ponto de vista de quem está olhando de fora para dentro. Visão êmica é a perspectiva interna, do observado, numa postura cultural, particular e analítica. É o ponto de vista de quem está vivenciando o fato ou olhando de dentro para dentro. Ética é a visão do “eu” em direção ao “outro”. Êmica é a visão do “eu” em direção ao “nosso”.

A análise e conclusão daquele missionário foi puramente ética, baseada nos seus pressupostos, enquanto a resposta do caçador foi êmica. No processo de comunicação do evangelho, antes de chegar a uma conclusão ética sobre qualquer fenômeno, seja cultural, lingüístico ou religioso, é necessário alcançar uma relevante compreensão êmica do mesmo. Quando isso não acontece, a comunicação fica truncada e irrelevante, pois apesar de fazer muito sentido para quem comunica, não faz qualquer sentido para quem ouve.

A perspectiva ética é inevitável e necessária. Sempre que observamos qualquer comportamento nós emitimos juízo sobre o mesmo. Avaliamos o que para nós é certo ou errado e fazemos um julgamento de valores. Como missionários, fazemos um julgamento baseado em nossos princípios cristãos, teológicos, missiológicos e hermenêuticos. Obviamente, precisamos mesmo fazer isso, pois afinal nosso objetivo é levar um evangelho que propõe mudanças. Mas é de extrema importância observar uma cultura primeiramente na perspectiva êmica, procurando compreender como o próprio povo entende cada manifestação cultural e religiosa. Somente assim conseguiremos falar ao coração, de forma que faça sentido.

Mas esse princípio não se aplica apenas ao campo missionário. Não conseguimos falar ao coração do vizinho, às vezes, porque o nosso evangeliquês impede a compreensão do mundo dele. Grande parte dos maus-entendidos do dia-a-dia acontece por falta de percepção êmica, por não procurarmos compreender a perspectiva do “outro”. Jesus percebia as pessoas de forma êmica e por isso tinha a empatia das mesmas e falava-lhes ao coração.

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