O velho disse, então é verdade

Cácio Silva
série Cultura

O engano em culturas indígenas

Caso raríssimo, um médico passou rapidamente por nossa aldeia. Dentre vários pacientes, examinou uma gestante estimando que daria à luz em uma semana. A mesma gestante vinha sendo examinada pelo velho xamã que, alguns dias antes, havia “sentido” que seria uma menina. Perguntamos se tais previsões do xamã dão certo, ao que nos responderam que jamais falham. A criança veio à luz quinze dias depois da previsão do médico e, ao contrário da previsão do xamã, nasceu um menino! Ficamos curiosos para sabermos qual seria a reação de todos em relação à previsão xamãnica, já que, em nossa visão, havia falhado inquestionavelmente.

Alguns dias se passaram sem que ninguém comentasse nada, até que numa bela noite os comentários vieram à tona. Não sobre o xamã, mas sobre o médico: “Kariwa [‘homem branco’], porque os médicos dos brancos gostam tanto de nos enganar? Aquele médico disse que meu filho nasceria em uma semana, mas nasceu em duas! Ele estava nos enganando!” Tentei explicar que não era uma previsão exata, era estimativa apenas, mas nada lhes convenceu. O médico era, definitivamente, um enganador. Sem ar de apologia, mas aproveitando a oportunidade, perguntei então o que havia acontecido em relação à previsão do xamã. Não tinham uma resposta pronta, pois ninguém havia se incomodado com aquele erro de previsão. Perguntaram então para uma senhora idosa que, após pensar um pouco, deu sua explicação elaborada na hora: “Quando o velho sentiu, realmente era menina, mas antes de nascer se transformou em menino!” Um outro acrescentou: “É assim mesmo! Quando o xamã sente que é menino, pode ser uma menina. E quando ele sente que é menina, pode ser um menino. Ele não erra nunca.” Pensei comigo, dessa forma nem eu erraria!

E o mais curioso é que eles realmente acreditaram na história da transformação do bebê, afinal, se o velho falou então é verdade. Em uma cultura onde não existe um ser pessoal criador, muito menos um controlador da vida, onde todos os espíritos são malévolos, não existindo nenhum considerado “bom”, que ajude alguém de alguma forma, a solução dos problemas está centrada no xamã. Em uma cultura onde não existe revelação profética, sendo todo o conhecimento cosmológico e espiritual extraído dos mitos, os xamãs são os dominadores do conhecimento pois são eles que dominam a mitologia. O resultado é este. O que dizem é verdade, ainda que absurdamente fantasioso e claramente questionável. Seus acertos geram credibilidade, mas seus erros não lhes levam ao descrédito, pois sempre há uma explicação acolhida sem questionamentos.

Culturas assim são controladas pelo engano. Há um pensamento geral de que em toda cultura indígena os demônios são quase apalpáveis, que os xamãs são pessoas constantemente possuídas por espíritos demoníacos, gerando arrepios apenas ao passar por perto. Depois de alguns anos convivendo com indígenas intocados pelo evangelho, inclusive com xamãs, às vezes dormindo na mesma palhoça que eles e observando seus rituais, nunca vi um caso de possessão. Com isso não quero dizer que inexista possessão em culturas indígenas. Temos notícias de culturas onde há, inclusive, possessão coletiva. Quero dizer, sim, que o Maligno age de diferentes formas em diferentes culturas. Em algumas ele opera mais por opressão, enquanto em outras, como o caso daqui, mais pelo engano.

Paulo nos fala das “fortalezas”, relacionadas a “argumentos”, “pensamentos” (2 Co 10.3-5), falsas ideologias, sofismas, mentiras em forma de verdades, alojadas nas mentes das pessoas. Conceitos cristalizados de forma coletiva que mantêm a mente blindada contra a Mensagem, usados para cegar “o entendimento dos incrédulos, para que não lhes resplandeça a luz do evangelho” (2 Co 4.4). Esta é uma das mais terríveis formas de manter pessoas cativas e acontece não apenas em contexto indígena. Não por acaso o Mestre veio para “proclamar libertação aos cativos e restaurar a vista aos cegos” (Lc 4.18).

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