O velho está trovejando

Cácio Silva
série Culturas

O medo nas culturas indígenas

A aldeia estava vazia naquela manhã, pois os homens e as mulheres haviam ido para suas roças. Quando todos os adultos saem, um adolescente ou uma mulher fica cuidando das crianças. Naquele dia era um adolescente e estava tranquilamente andando ali por perto. De repente ribombou um forte trovão! Daqueles que estremecem o ar! E num ato quase instintivo o adolescente Yuhup correu para dentro da nossa casa e procurou se abrigar. Com um olhar de pavor ele pronunciava quase que aleatoriamente wáh peñih… wáh peñih…… “o velho está trovejando… o velho está trovejando!” O que para nós não passava de um trovão, para ele era algo que trazia medo, pavor.

Para os Yuhupdeh o trovão é um ser que age sob manipulação dos pajés transmitindo doenças. O säw, velho” ou “pajé”, pronuncia fórmulas mágicas, tiradas dos mitos, sopra as mesmas contra seus inimigos e o trovão se encarrega de conduzir o sopro, lançando-o sobre a vítima. Crêem que o sopro pode causar de uma doença simples até a morte instantânea, por isso o temem. As mortes são normalmente tidas como resultados de sopros de pajés inimigos. Mesmo que a causa tenha sido uma picada de cobra, crêem que a cobra foi enviada por um pajé. Ou uma doença comum na região, como leishmaniose, crêem que foi algum pajé quem causou a doença. E é por isso que a cura é sempre buscada primeiro nos velhos, pois se a causa é sempre não-natural, logo a cura também deve ser não-natural. A solução para o döh ou “sopro” é sempre no  mih-diid ou “benzimento”, que é o contraponto.

Umas das expressões que mais ouvimos no dia-a-dia da aldeia, na boca de crianças e adultos, mulheres e homens, é ãh omih – “estou com medo”! A língua não possui o substantivo “medo”, tendo seu equivalente no verbo om que pode ser traduzido como “ter medo”. E o sopro dos pajés é apenas uma das muitas causas do medo. As mulheres menstruadas evitam o rio, pois o boto pode atacá-las. Também evitam a floresta, pois um ser malévolo chamado koog pode devorá-las. Os homens também temem o koog e por isso mantém uma clareira em volta da aldeia sempre limpa para ele não se aproximar muito. Ao entrarem na floresta fechada, temem encontrar o kuayö’ ou “curupira”, pois ele também come pessoas. Além desses tem uma série de seres malévolos que habitam o rio e outros que habitam a floresta, que causam doenças e estão sempre à espreita, procurando vítimas. As mulheres também temem os instrumentos sagrados chamados de ti’ ou “jurupari”. Em hipótese alguma as mulheres podem vê-los, sob pena de morte, e os homens as amedrontam dizendo se tratar de um ser terrível e assustador. Quando na aldeia se ouve o som desses instrumentos, todas as mulheres entram para suas palhoças e se protegem, para não verem o ti’ e sofrerem as consequências. As meninas, em particular, ficam apavoradas e até desnorteadas ao escutarem o soar dos instrumentos se aproximando.

E assim nossos amigos Yuhupdeh vão levando uma vida regida pelo medo. Logo, os pajés mais poderosos são aqueles que conseguem manter os seres malévolos afastados da aldeia, bloquear a ação dos mesmos, gerando um ambiente de segurança emocional para a comunidade. Assim eles são procurados o tempo todo, seja para cura ou para prevenção. E para manter seu status de poder sócio-espiritual eles, sejam enganadores ou enganados, amedrontam cada vez mais as pessoas, falando dos constantes perigos que lhes rodeiam.

Quando vemos esse quadro de medo constante, que realmente aflige o coração dos Yuhupdeh, às vezes lembramos do quadro pintado por muitos, apresentando os indígenas como pessoas que vivem em total harmonia entre si e com a natureza, numa espécie de paraíso florestal, de bem com o seu mundo, resolvidos espiritualmente e, que, por isso, não precisam do evangelho. O que observamos, entretanto, é um povo amedrontado, vivendo num sistema de engano detalhadamente desenvolvido ao longo dos séculos para aprisioná-lo. Observamos pessoas com conflitos, crises pessoais e dramas culturais, que ao seu modo clamam por redenção. E estamos convencidos de que o que realmente precisam é do amor de Deus, que “lança fora todo medo”, e da presença poderosa de Jesus, que invade a clausura do medo e diz: “paz esteja com vocês”.

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