Oração forte

Fábio Ribas
Série Dias Índios

Foto do arquivo do autor
Foto do arquivo do autor

“Ih! Lu! Esqueci de avisar para vocês que não tem água na aldeia há duas semanas”, disse o Cacique para minha esposa assim que chegamos para mais um mês de aula na aldeia. Diante daquelas palavras, fiquei pensando comigo como é que se esquece de avisar que não tem água!…

Nossa água vem de um poço artesiano e é distribuída para torneiras que ficam do lado de fora das casas, sendo uma torneira para cada duas casas. Nestas torneiras coletivas, tomamos banho, bebemos água, lavamos louça e roupa, etc. Todavia, não ter água alguma era uma situação que não prevíramos, já que não levamos filtro e nem baldes. Só um regador.

Em julho, nosso Cacique já havia esquecido também de nos avisar que não teria aula por ser um período de festas na aldeia. Ficamos lá assistindo as festas, gravando suas histórias, traduzindo textos e anotando e aprendendo a língua, mas todo o material escolar que comprei para as aulas tiveram que esperar até o fim de agosto, quando terminaram as festas.

Assim, imprevistos como esses precisam sempre ser bem administrados. Não há como ficar voltando para a cidade a cada problema ou falta de alguma coisa (exceto em caso de emergência), já que entrar e sair da aldeia têm um custo financeiro muito alto. Embora da cidade para a aldeia sejam apenas 6 horas de viagem (3 horas de carro e mais 3 de barco), o carro fretado que nos leva até à beira do rio e depois nos pega ali para nos levar de volta à cidade cobra por tudo quase um salário mínimo. Além disso, temos que levar todo mês 100 litros de gasolina para abastecer o barco da nossa aldeia que nos busca e depois nos deixa na beira do rio novamente. Sem contar as compras de subsistência que fazemos para passar o mês na aldeia. Assim, cabe aqui louvar o nome do nosso maravilhoso Deus que em tudo nos têm suprido através de nossos mantenedores como o CEM da Igreja Presbiteriana Nacional, o Presbitério de Brasília, a Agência Presbiteriana de Missões Transculturais e outros amigos do nosso ministério.

Então, quando vi, entregaram um balde de plástico de 20 litros na mão da Lu e disseram que tínhamos que pegar a água do rio e levar para nossa casa. Eu e a Lu olhamos um para o outro e em seu rosto li todos os seus pensamentos: ter que ir ao rio buscar água para lavar roupa, lavar louça, molhar a casa, escovar os dentes e, pior, beber água, tudo isso seria muito difícil para ela. Um quilômetro do rio à casa. Até mesmo por que o trabalho duro e pesado na aldeia quem faz é a mulher: arrancar mandioca, carregar mala, trazer e levar madeira, suportar peso, etc. Em outras palavras, o povo esperava que ELA fizesse isso e não eu!

Enfim, chegamos em casa e a Lu, que acabou carregando apenas o nosso regador com dez litros de água do rio até ali, sentou cansadíssima e me ouviu dizer: “Não sei se vai dar para ficar aqui sem água”. Naquele momento, estava visitando a aldeia um funcionário da saúde do Estado. Quando ele entrou na nossa casa, Lu imediatamente perguntou quando que teríamos água. “Só no início da próxima semana, dona. É quando os técnicos talvez possam vir ajeitar o problema”, respondeu ele. O técnico viu a cara que a Lu fez, já que ainda era quarta-feira aquele dia.

– Amor – disse-me a Lu – ainda bem que você não é índio. Você é quem vai buscar água no rio.

– Lu, eu tive uma tataravó indígena, assim, penso que você deverá respeitar minha cultura e buscar água para nós, brinquei com ela (quase querendo ver se ela engolia aquela minha história). Ficamos por quase vinte minutos arrumando nossa casa, quando, repentinamente, entra aquele funcionário da saúde com a cara visivelmente espantada, dizendo: “Dona, sua oração é forte! Fui lá ver e era só um probleminhazinho que resolvi na hora. Voltou a água”! Lú deu pulos de alegria, e eu suspirei aliviado. Então, naquele mês, a cada vez que fomos àquela torneira, louvamos a Deus por sua terna bondade.

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