Oração por missão em tempos de crise – At 4.23-31

Carlos del Pino
Série Caminho missionário da igreja

Vivemos tempos de crise! Crise em todos os setores da sociedade, em todos os países do mundo. Sabemos isso muito bem e o repetimos constantemente como praticamente a única resposta possível às necessidades que nos são apresentadas. No texto também vemos uma crise. Não se tratava de uma crise financeira, nem de algum desvio moral, muito menos da crise de “muitos obreiros para poucos campos”.

A crise se estabeleceu quando Pedro e João foram presos pelas autoridades religiosas por estarem “ensinando o povo e proclamando em Jesus a ressurreição dos mortos” (4.2) e, conseqüentemente, “muitos dos que tinham ouvido a mensagem creram, chegando o número dos homens que creram a perto de cinco mil” (4.4). O anúncio claro da mensagem do evangelho de Jesus causou incômodo, grande o suficiente, para que as autoridades religiosas os prendessem. Após a defesa dos apóstolos (4.8-12), que consistiu em si mesma numa apresentação do evangelho, as autoridades tomam a decisão de “impedir que isso se espalhe ainda mais entre o povo” (4.17) e resolvem claramente “adverti-los de que não falem com mais ninguém sobre esse nome” (4.17) e “chamando-os novamente, ordenaram-lhes que não falassem nem ensinassem em nome de Jesus” (4.18).

A crise em questão se define como uma clara oposição à pregação do evangelho. Era uma crise na missão! Como enfrentar essa crise? O texto de At 4.23-31 narra a forma como a Igreja se comportou diante da séria crise que se estabelecia: a Igreja reagiu à crise com um ministério sólido de intercessão.

Inicialmente, observa-se que Pedro e João relataram fielmente à Igreja tudo o que havia acontecido e, principalmente, “tudo o que os chefes dos sacerdotes e os líderes religiosos lhe tinham dito” (4.23), inclusive as ameaças que sofreram (4.21). A Igreja, de forma sensível, “ouvindo isso” (4.24) recorre à oração como alternativa primeira e mais natural às ameaças e a toda a oposição que, como Igreja, estavam expostos: “levantaram juntos a voz a Deus” (4.24). Vemos aqui a Igreja se mobilizando contra a oposição feita ao exercício de sua missão: povo de Deus em oração! De que forma oraram? Que elementos compuseram sua oração? Como podem nos auxiliar em nossa própria oração em tempos de crise de missão? Vejamos alguns elementos que caracterizaram essa reação da Igreja.

1. Reconhecer em Deus o soberano criador

“Ó soberano, tu fizeste o céu, a terra, o mar e tudo o que neles há!” (4.24). A oração da Igreja claramente começa com um reconhecimento da soberania do Deus criador. Deus está acima de tudo e de todos. Deus está no total controle de todas as situações e de quaisquer oposições que a Igreja sofra no exercício de sua missão. Em nosso ministério missionário de oração não temos outro ponto de partida do que reconhecer que o nosso Deus soberano está efetivamente reinando sobre céus e terra (Mt 28.18). Esta é, sem dúvida, a base para todo o nosso empenho em oração.

2. Reconhecer a existência de oposição à missão

Em sua oração a Igreja reconhece que todo tipo de oposição já foi previamente anunciada por Deus, inclusive a oposição dos homens a Jesus Cristo levando-o à cruz, conforme citação feita do Sl 2.1-2 (4.25-26). O próprio que Jesus sofreu a mais rude oposição e morte nos advertiu de que não estaríamos livres de situação semelhante. Em Jo 15.18-27 ele deixa muito claro que todo o ódio que o mundo dedica Jesus e seus discípulos culmina em uma ação concreta do Espírito Santo que resulta no testemunho de Cristo (veja também Jo 16.33). Sendo assim, não podemos esperar que a missão seja cumprida num ambiente constantemente favorável e de plena aceitação. Ao contrário, semelhante ao próprio Cristo em sua missão, a Igreja sempre testemunhará o evangelho em meio a lutas e oposições dos homens.

3. Reconhecer que o Senhor soberano criador realiza sua vontade eterna

Deus não permite, simplesmente, que uma conspiração se arme contra a missão. Ele utiliza claramente todo tipo de oposição e crise para que sua vontade eterna seja plenamente realizada na história humana. Isso aponta para sua ação soberana e concreta na vida deste mundo, utilizando todos veículos humanos (econômicos, políticos, religiosos, sociais, etc) nesse sentido. Os versos 27-28 não dizem que Herodes, Pilatos, gentios e judeus se uniram para matar a Cristo tomando Deus de surpresa. Embora a responsabilidade de toda a ação humana tenha recaído sobre os próprios homens e tenham sido fruto de seu próprio pecado, eles acabaram fazendo “o que o teu poder e a tua vontade haviam decidido de antemão que acontecesse” (4.28).

4. Pedir que Deus nos capacite para a missão

“Agora, Senhor, considera as ameaças deles e capacita os teus servos para anunciarem a tua palavra corajosamente” (4.29). Como conseqüência direta de reconhecerem a Deus como o soberano criador que utiliza toda a oposição ao evangelho para que sua vontade seja plenamente realizada, os discípulos pedem em oração que Deus, considerando a realidade e gravidade das ameaças e oposições, capacite seus servos (obviamente uma referência à Igreja toda e não apenas a Pedro e João). É muito pertinente que o pedido deles não foi para que Deus os livrassem das ameaças que sofriam e suas conseqüências, mas no sentido de serem capacitados a pregarem com maior coragem a mensagem do evangelho. Queriam que Deus abençoasse o mundo através da proclamação da Palavra naquele momento de crise.

Ao pedirem que Deus os capacite para a proclamação da Palavra, os discípulos também pedem que Deus sinalize esta proclamação curando e realizando sinais e maravilhas (4.30). O que os discípulos, de fato, estão pedindo é que o exercício da missão não seja unilateral: proclamação sem ação ou ação sem proclamação. Pedem que Deus os capacite para o exercício de uma missão integral, que valorize e relacione devida e equilibradamente a pregação com a ação, posto que tanto a proclamação do evangelho como a sinalização do evangelho por meio de obras confirmam e visualizam o fato do Reino de Deus haver chegado em Jesus Cristo.

O texto conclui dizendo que esta experiência de oração se tornou em uma manifestação do próprio poder do Espírito Santo entre crentes que viviam inteiramente submetidos à vontade de Deus, que renovaram em suas vidas o compromisso e a ação efetiva de “anunciar corajosamente a Palavra de Deus” (4.31). Desta forma, não resta a menor dúvida de que o resultado de uma Igreja que ora é o seu envolvimento comprometido e transformador com a evangelização e missão.

Após olhar para esta passagem, cabe perguntar-nos tanto pelas oposições que sofremos hoje à medida que seguimos Cristo e sua missão, como pela forma que temos respondido e reagido a estas crises. Quando a Igreja, consciente de sua natureza e vocação, sai pela humanidade afora testemunhando integralmente o evangelho de Jesus Cristo, sem dúvida irá deparar-se com diversas formas de oposição. Seja uma total frieza para com a mensagem cristã por parte de sociedades ou segmentos sociais que consideram já haver superado sua “fase primitiva de cristianismo”, seja pela forte tendência ao sincretismo por parte de sociedades caracterizada por uma forte religiosidade e superstições. Outras vezes, ainda hoje, as oposições à missão acontecem até mesmo através de prisões, deportações e mortes. Entretanto, numa grande maioria das vezes temos que enfrentar oposições que se dão no nível do descaso, da incredulidade, da corrupção e do orgulho. Em outras tantas, é preciso suportar as pressões do oportunismo, da má fé, das intrigas e dos escândalos.

Mas, como vimos, a Palavra de Deus é clara ao nos mostrar o caminho de um sólido e resistente ministério de intercessão como o primeiro passo que devemos dar em tempos de crise para a missão. Portanto, levantemos juntos a voz a Deus, constante e persistentemente, para que em qualquer situação e ambiente de oposição possamos proclamar corajosamente a Palavra de Deus por todo o mundo.

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