Os padrões ético, êmico e êmico-teológico

por Ronaldo Lidório

A etnologia é normalmente estudada como um ramo antropológico que está ligado às formulações da identidade cultural de um segmento ou agrupamento [1]. Usando-a como ponto de partida para a avaliação cultural sugerimos três distintas formas de abordar o homem e suas interações, ou seja, de avaliá-lo em razão do desenvolvimento de sua existência social, que são os padrões ético, êmico e êmico-teológico.

Estes primeiros padrões (ético e êmico) já têm sido largamente utilizados na abordagem antropológica para avaliação de um fato ou ideia. Ouvi a primeira explanação a respeito deste assunto em 1990 pela Dra. Francis Popovich [2] que fez referência a Kenneth [3] expôs a necessidade de desenvolvermos uma aproximação êmica aos fatos sociais a fim de os entendermos como eles são para aqueles que os praticam. Introduzimos um terceiro padrão, êmico-teológico, a fim de facilitar nossa proposta metodológica, como veremos adiante.

Padrão ético

Inicialmente olharemos o padrão Ético de estudo cultural. Baseia-se na abordagem, estudo e avaliação de um fato antropológico a partir de um valor cultural predefinido pelo observador. Possuímos uma capacidade inerente de interpretação. Tudo o que vemos, semelhante ou distinto, passa pelo crivo da nossa interpretação cultural.

Na rua, ao olharmos para uma pessoa instintivamente julgamos seu modo de vestir, andar, agir, falar, mesmo se nunca antes relatado. Os critérios de julgamento são inteiramente nossos, segundo nossa ideologia, idéia e cultura. Assim, quando afirmamos que algo é bom, ruim, ou possui certo significado, estamos interpretando uma pessoa ou fato social de forma ética, a partir de nós mesmos, nossas idéias.

Lévi-Strauss desenvolve o estudo da ancestralidade utilizando, no pano de fundo, vários elementos éticos quando analisa as interações de parentesco a partir do ‘bom’ ou ‘mau’ dentro de uma visão idealista. Apesar de não condenar explicitamente aquilo que é diferente, o coloca numa categoria questionável.

É fácil constatarmos que praticamente toda a Antropologia foi influenciada pela visão ética de pesquisadores que tinham como origem e ideal o padrão ocidental cristão em termos de relacionamentos, religião, modelo de parentesco e tantos outros segmentos analisados. Malinowski, em uma de suas dissertações, expõe que “os desejos animalescos dos pagãos de fato tratam de uma rigorosa cadeia de valores e comportamentos baseados em vasta história e tradição” [4]. Ele foi um dos primeiros antropólogos que acusou a forma equivocada de análise cultural tendo realizado a primeira etnografia moderna sobre o chamado direito primitivo, questionando mitos e abrindo um novo campo de prospecção para a antropologia. Para uma compreensão inicial de seu pensamento sugerimos a leitura de “Crimes e Costumes na Sociedade Selvagem”[5] onde aborda os conceitos de justiça grupal e propriedade grupal desmistificando a idéia de subetnicidade. Boa parte de sua análise, porém, possuía cores éticas, fruto de uma interpretação a partir do observador, seus valores e idéias.

Entre os Konkomba-Bimonkpeln de Gana, África, pudemos observar a presença de uma mulher, membro de uma das igrejas plantadas na região de Koni, que certa vez queixou-se da presença de um libul (espírito causador de problemas domésticos) em sua palhoça durante o preparo do sakolá, uma comida típica feita de inhame. Rapidamente, na tentativa automática de lhe dar uma explicação dos fatos, afirmei que se tratava de uma opressão espiritual e para tal utilizei um verbete Limonkpeln que emprestava perfeitamente a idéia de opressão. Surpresa, aquela mulher Konkomba respondeu que certamente não estava opressa, e que o libul estava apenas observando-a pilar o inhame, nada mais. Em uma cosmovisão ocidental cristã a simples possibilidade de presença demoníaca seria por demais suficiente para gerar um cenário de opressão enquanto, naquela cultura animista milenar, que se relaciona muito mais visivelmente com o mundo do além, uma pessoa poderia ser observada por um libul durante horas sem que isto, necessariamente a incomodasse.

A visão ética possui a tremenda fraqueza de observar um fato dentro de uma camada de valores idealistas preconcebidos que, freqüentemente, distorcem a conclusão antropológica do valor do fato social para o que o experimenta. A antropologia busca a verdade sentida, experimentada, pois esta é vital para qualquer processo de relacionamento, comunicação e interação.

O padrão ético também impede de respondermos às perguntas do coração do povo, de relevância local, visto que interpretamos seus conflitos a partir de nós, e de nossos conflitos. Talvez seja o padrão mais questionado ao logo da história da antropologia, porém o mais utilizado nas pesquisas culturais, devido à facilidade de observarmos o outro a partir de nós.

Padrão êmico

O padrão Êmico se propõe a analisar o fato antropológico, seja étnico, grupal, individual ou fenomenológico, a partir de uma visão propriamente factual. Como o termo êmico significa interno, sugere a procura pela verdade como ela é entendida pelo agente promotor do fato, ou experimentador. Isto é, as pessoas que vivenciam aquela cultura.

Quando chegamos entre os Chakali de Gana e Costa do Marfim, África, fomos muito bem recebidos. Rapidamente se destacou aquilo que era diferente. Suas palhoças exóticas (em um ambiente mais parecido com o que pensamos da África numa visão romantizada) e uma diversificada fauna em região de floresta tropical úmida. A única restrição que fizeram à nossa presença entre eles estava ligada à preservação do segredo dos nomes dos animais da floresta.

Desta forma, quando observo entre eles o tabu nominal, (a respeito do ato proibitivo de nomeações na fauna) percebo um ato de organização social e espiritual na cosmovisão do povo. Substituem os nomes específicos dos animais da região por apelidos gerais. Assim crêem evitar a maldição familiar e mantêm o bom relacionamento milenar entre homem e animal, em uma relação estritamente totêmica. Em uma visão ética este costume seria uma ação inconseqüente, enganadora, um temor desnecessário. Em uma visão êmica seria um tabu mantenedor do relacionamento entre homem e animal, necessário para manter o equilíbrio da sociedade no universo e evitar que maldições recaiam sobre as famílias. Uma visão êmica não demanda que creiamos ou aceitemos a interpretação que o povo alvo faz do fato social em destaque, mas sim que analisemos e compreendamos tal fato social pelos óculos de quem o experimenta. A relevância principal de uma análise êmica é a verdade. Ou seja, compreender como um fato social é verdadeiramente interpretado, assimilado e experimentado por uma pessoa ou um grupo.

O valor da abordagem êmica é, portanto, enraizado em sua veia analítica, pois, em verdade, o antropólogo ou pesquisador deve se propor a entender o fato de acordo com sua origem e não através de sua cultura receptora sob pena de jamais compreendê-lo, apenas julgá-lo.

Este julgamento, ético, se dá a partir de valores da nossa própria experiência cultural e moral. E julgar o que não compreendemos é um ato de imprudência. Entre os Bassari de Gana tivemos a oportunidade de visitar uma aldeia já nos limites do Togo. Eles praticavam um ritual religioso por ocasião de um funeral. O homem morto, dois dias atrás, aparentava ser importante e conhecido, pelo número de pessoas que adentravam a aldeia, vindo de todas as partes. Seu corpo se posicionava sobre alguns troncos, bem colocado no centro da aldeia. Coloquei-me em lugar discreto e fiquei por algumas horas observando aquele fato social. A cada hora e meia saía de sua palhoça um feiticeiro, vinha encurvado e trazendo na mão esquerda uma cabaça com sangue, ao que concluí ser de algum animal sacrificado, como a cabra, muito comum entre os Bassari. Sua mão direita segurava alguns ramos de Itopah, uma árvore de folhas minúsculas, com os quais aspergia o corpo estático sobre o tronco, a começar dos pés até a cabeça. Enquanto praticava este ato o feiticeiro murmurava algumas palavras (aparentemente lafabaah que significa bem ou bom). Em minhas anotações levantei várias hipóteses interpretativas daquele fato social que envolviam adoração aos ancestrais, ritos apotropaicos (de purificação) e invocação espiritual. Era o resultado, porém, de uma abordagem puramente ética, a partir de minha compreensão ou preconcepção dos fatos. Tempos depois fui informado pelos Bassari do que se tratava. Era um processo científico. O homem que saía encurvado de sua palhoça o fazia devido ao fato da mesma possuir uma porta diminuta, muito baixa, para sua estatura. Devido à sua idade levaria alguns segundos para se recompor do esforço e conseguir aprumar-se novamente. E ele era um ancião, líder do clã daquele que morrera, não o feiticeiro da aldeia que, apesar de presente, sentava-se confortavelmente embaixo de uma frondosa árvore. Segurava em sua mão esquerda uma cabaça, pois precisava utilizar uma das mãos para fazê-lo, direita ou esquerda. Esta cabaça continha de fato sangue de cabra, porém sem envolvimento de sacrifício ou atos de invocação espiritual. Era sobra da última cabra morta para o almoço. A aspersão do sangue sobre o corpo do morto era uma técnica desenvolvida pelos Bassari para minimizar o mau odor devido à exposição do mesmo em um clima quente por aproximadamente 48 horas a espera dos parentes que vinham de lugares distantes para o sepultamento. Assim utilizavam o sangue de cabra para, coagulado, tapar os poros do corpo ali postado e minimizar o mau odor. Usavam os ramos de Itopah em lugar de pincel (por não conhecerem e possuírem o segundo) e sua resposta (lafabaah) era puramente a resposta padrão aos que chegavam de lugares distantes cumprimentando-o, que neste caso significa simplesmente “tudo bem, obrigado”.

Muitas vezes corremos o risco de transmitir o evangelho com base em fatos e fenômenos religiosos julgados a partir de nossa própria cosmovisão. Não a bíblica, não revelacional, mas da nossa cultura.

Boas, em seu artigo As limitações do método comparativo, informa-nos sobre o método normalmente oferecido para o estudo antropológico, dentro de uma procura êmica, quando diz que “isolar e classificar causas, agrupando as variantes de certos fenômenos etnológicos de acordo com as condições externas sob as quais vivem os povos entre os quais elas são encontradas, ou de acordo com as causas internas que influenciam as mentes desses povos; ou, inversamente, agrupando essas variantes de acordo com suas similaridades. Podem-se encontrar, assim, condições correlatas da vida” [6].

Stoll tentou isolar os fenômenos da sugestão e hipnotismo a fim de estudar os fatores psíquicos em diversas culturas. O uso de um segmento de estudo, através do isolamento e classificação, possui a virtude de nos levar a evitar a universalidade dos fatos e de nos concentrarmos nas pistas que levam à verdade factual. Boas afirma que a formação das idéias, “que se desenvolvem com necessidade férrea onde quer que o homem viva”[7] é o problema mais difícil da antropologia. Ele afirma:

“quando se trata desse problema – o mais difícil da antropologia – assume-se o ponto de vista de que, se um fenômeno etnológico desenvolveu-se independentemente em vários lugares, esse desenvolvimento é o mesmo em toda parte; ou, dito de outras forma, que os mesmos fenômenos etnológicos devem-se sempre às mesmas causas… é prova de que a mente humana obedece às mesmas leis em todos os lugares. Porém aqui reside a falha no argumento do método pois esta prova não pode ser dada. Até o exame mais superficial mostra que os mesmos fenômenos podem se desenvolver por uma multiplicidade de caminhos” [8].

Esta incrível diversidade de cosmovisões, interpretações de fatos vividos ou contados, nos leva a entendermos que abordarmos os fatos sociais de forma puramente ética nos levará somente a conclusões prematuras, sem sentido para o povo que o produz ou experimenta.

Padrão êmico-teológico

O padrão êmico-teológico, cuja expressão é um neologismo, sugere utilizarmos o padrão êmico para compreendermos o fato em si, pela ótica de quem o experimenta ou relata e expormos o evangelho de acordo com seus valores bíblicos supraculturais. Este padrão certamente será questionado por todo aquele que segue uma linha relativista, não intervencionista, ao tratar de grupos étnicos distintos. Um dos principais problemas de relacionamento da antropologia com a teologia é a convicção dogmática. Enquanto a antropologia crê que cada povo possui e desenvolve sua própria verdade, suficiente para si, a teologia protestante reformada crê que há uma verdade universal, dogmática, aplicável a todos os povos em todas as culturas. A respeito de nossos pressupostos escrevemos o capítulo primeiro.

A partir deste conceito de ação não intervencionista da antropologia surgiram expressões comumente utilizadas como observação passiva ou estudo não interativo, o que por um lado resultam da tentativa – não raramente utópica – de minimizar nossas crises de consciência acadêmica ao interagirmos com um povo e cultura.

O padrão êmico-teológico, portanto, é uma proposta que visa primeiramente analisarmos os fatos sociais por lentes êmicas, compreendo seu valor para o povo que os experimenta, e após termos feito esta caminhada, expormos a estes o evangelho de forma viva e aplicável, compreensível em seu próprio universo. Podemos aqui salientar diversas iniciativas de contextualização bem sucedidas na história da Igreja como Lutero que, no nascer da reforma protestante, traduziu os hinos antes recitados apenas pelo clero nas missas em Latim, para o povo comum, em Alemão, na língua conhecida e usada. Ou ainda como Calvino que, na Genebra do século XVI, decide administrá-la a partir de um investimento na educação da presente geração, construindo escolas e assim facilitando a compreensão das Escrituras pelo povo comum. E para este povo escreveu inúmeros livros e comentários bíblicos, a fim de que o conhecimento teológico não fosse restrito a poucos. Não basta comunicarmos a mensagem do evangelho. É necessário fazermos isto na língua do povo, dentro de seu bojo de compreensão cultural, em sua própria casa e sociedade. Uma abordagem êmico-teológica nos ajudará nesta caminhada.

Ao introduzir o evangelho como sistema explicativo ao povo Konkomba de Gana, um dos atos recorrentes foi a percepção êmica na cultura para o conceito de pecado e erro. Na cosmovisão Konkomba o erro pessoal ou social possui uma clara escala de relevância filtrada sob o critério da honestidade. Este elemento, a honestidade, não é apenas o bem mais precioso mas também o crivo para se julgar a relevância e gravidade dos erros pessoais e sociais. Desta forma a mentira é o ato mais abominável enquanto o adultério e assassinato são práticas vistas como erro, porém mais brandas. Uma mentira dita a muitos precisa ser tratada, culturalmente, através de um longo processo de desvendamento, exposição e perdão. O mentiroso recorrente pode ser banido da sociedade enquanto para o adultério e assassinato há diversos mecanismos de pacificação. No estabelecimento da liderança da primeira igreja entre os Konkomba-Bimonkpeln, na aldeia de Koni, notamos que a ênfase bíblica dada ao pecado foi interpretada dentro da mesma cadeia êmica de erro social. A mentira, na igreja, passou a ser tratada com relativa maior severidade do que o adultério. Em diversos sermões ouvi a liderança exortando o povo explicando o valor da honestidade no caráter de Cristo, no evangelho e nos fundamentos do Cristianismo.

Desenvolvemos, assim, com a liderança Konkomba uma teologia bíblica de honestidade que estuda os princípios bíblicos sobre o tema. Um estudo de caso também foi feito e exposto com base no relato de Ananias e Safira.

Seguindo um padrão êmico-teológico observamos um fato social ou relato de acordo com aquele que o experimenta, e aplicamos a verdade do evangelho a fim de que este, sendo supracultural e universal, possa responder às perguntas do seu coração, em sua cultura, como o faz conosco. Esta é a plataforma para a abordagem que iremos expor no Angelos, um dos últimos capítulos.

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[1] Refiro-me a segmentos sociais, sejam uni ou multiculturais, e agrupamentos regionais, etnicamente definidos ou não.
[2] Lingüista e missionária, trabalhou por anos entre o povo Maxakali no Brasil, juntamente com seu esposo, Dr. Harold Popovich. Traduziram o Novo Testamento completo para a língua Maxakali.
[3] Pike se referia à fonética, o estudo dos sons em uma língua, e fonêmica, o estudo dos sons de relevância para o falante nativo da mesma língua. Language in Relation to a Unified Theory of the Structure of Human Behavior. 1971.
[4] American Anthropologist; Op.Cit.; Vol 103. Numero 2 – 2001
[5] Malinowski, Bronislaw. Crime e costume na sociedade selvagem. Brasília: UnB, 2003.
[6] Boas, Franz. Antropologia cultural. Op.Cit.; pg 27
[7] The methods of ethnology. American Anthropologist. N.S., vol. 22 (1920)
[8] Boas, Franz. Antropologia cultural. Op.Cit.; pg 30

Fonte: Instituto Antropos

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